
Fomos para a Suécia desacreditados, até nossa autoconfiança surgir no decorrer da competição, com os nomes de Garrincha e Pelé, que não começaram a copa no time titular, entre alguns motivos, por serem rotulados de 'burro, com inteligência insuficiente para a prática desse esporte' (Garrincha) e 'agressivo, de pavio curto e incapaz de lidar com as próprias emoções' (Pelé) pelos psicólogos da então CBD. Foram esses 2 e mais uma safra maravilhosa comandada por Didi (o melhor daquela copa) que em pleno dia de superstição amedrontadora, em que tivemos de estrear o uniforme reserva (a camisa azul é uma homenagem a Nossa Senhora da Aparecida, padroeira do Brasil) deram o primeiro título para a tão apaixonada nação por futebol, que detém até hoje o recorde de ter ganhado títulos fora de seu continente (mais tarde manteria a escrita vencendo em 2002 na Ásia). Os suecos, que usavam amarelo, não conseguiram nos empurrar uma 'camisa perdedora'.
Em 1962, a base da seleção era a mesma, com exceção do capitão Bellini que fora trocado por Mauro Ramos de Oliveira (que iria erguer a taça no Chile). 4 anos mais velha, viu seu título ficar mais distante ao perder Pelé pelo resto da copa, ao se contundir no 2º jogo. A crise dessa vez veio durante a competição, e sem o craque do Santos, a estrela solitária de Garrincha ofuscou todas as luzes do torneio, sendo considerado por muitos, junto com Maradona em 86, 'os únicos homens a ganharem uma copa sozinho pelos seus países'.
Em 1966, Pelé apanhou muito, fomos eliminados na 1ª fase, sofremos a pior derrota até então (4 a 2 da Hungria) e para completar, o rei do futebol afirmou que não iria mais participar de copas do mundo, por se considerar 'azarado' nessa competição (afinal, em 2 das 3 copas saíra contundido). A Inglaterra vinha com um time ainda melhor que o campeão 4 anos antes (e estava na chave do Brasil), e o técnico João Saldanha, que classificou nosso país para o torneio, fora demitido pelo presidente da República Médici 1 mês antes do começo da competição por desculpas esfarrapadas, nas quais a única verdade era o fato de ser socialista num país ditatorial. Houve até boato que Pelé havia ficado cego, e aquela copa estava fadada ao nosso fracasso. Estava, pois o que aconteceu no México foi de uma magia tal que a seleção de 1970 é considerada por muitos a melhor equipe de futebol que já existiu em todos os tempos.
Depois da geração de Rivelino, Tostão e Pelé, amarguramos 24 anos sem chegar numa final de copa, sendo que em 1978 fomos 3º colocados invictos e em 1982 o futebol encantador de Zico e Falcão parou na sem graça Itália. Para chegar à copa de 1994, sofremos a primeira derrota na história das eliminatórias, para a Bolívia, com direito a falha histórica do grande goleiro Taffarel. Carlos Alberto Parreira, com experiência em 3 copas do mundo até então (sendo auxiliar de Zagallo em 70 e treinador do Kuwait em 82 e dos Emirados Árabes em 90) fora chamado de burro em estádios lotados, a seleção canarinha corria o risco de não marcar presença pela primeira vez na copa do mundo, até no jogo decisivo, com um Maracanã lotado no jogo contra o Uruguai (que traz péssimas recordações nesse estádio), Romário fora chamado e confirmamos vaga para o torneio que se realizaria no ano seguinte nos Estados Unidos.
Com o tradicional esquema 4-4-2 (em que 2 zagueiros, 2 laterais, 2 volantes, 2 meias e 2 atacantes), um estilo taxado por muitos de 'futebol europeizado' (devido à retranca que equipes do velho continente fazem para encarar o talento sul-americano) e resultados pouco convincentes, chegamos à final depois de 24 anos, contra o mesmo adversário de 70, a Itália, e com o sofrimento da perda do maior ícone da auto-estima nacional: Ayrton Senna, que vinha nos orgulhando nas pistas muito mais que a seleção de futebol nos gramados. Com 5 vitórias em 6 jogos até então (sendo que apenas 2 delas por mais de 1 gol de diferença), aos trancos e barrancos enfrentamos outra equipe em crise: A Itália vinha com 1 derrota, 1 empate e 4 vitórias por 1 gol de diferença, tendo perdido para a surpreendente Irlanda na estréia e por uma combinação de resultados se classificara em 3º lugar com o mesmo número de pontos do 4º.
A Itália sofre da mesma crença que no Brasil: há que só se chega longe numa copa através de crise na preparação, não é a toa que em 1982 a 'Azurra' quase fica fora da 1ª fase, o país sofria em credibilidade na liga nacional devido a problemas de corrupção e o resultado final daquele ano fora um título após 44 anos!
Romário e Baggio: dois craques no jogo que daria para uma das seleções o inédito tetra-campeonato. Ambas as equipes chegaram muito além do que todos imaginavam, e um duelo tão equilibrado resultou na primeira disputa por pênaltis na história das finas de copa do mundo. Com uma cobrança desperdiçada pela estrela maior da equipe azul, a amarelinha brasileira pôde contar com a tão sonhada 4ª estrela.

O caminho para o título de 2002 começou após o encerramento da final de 1998, em que sofremos a maior goleada em copas do mundo (um vergonhoso 3 a 0 para a França). Teses sobre a derrota não faltam: conspirações envolvendo os patrocinadores, convulsão de Ronaldo, brigas internas... Tudo isso abalaram profundamente a confiança dos brasileiros pela seleção, numa final que tinha tudo para ser mágica: o duelo entre os atuais campeões contra os donos da casa (fato inédito até hoje).
Sofremos, fizemos piadas sobre nós mesmos, nos desesperamos, não achávamos luz no fim do túnel: CPI do futebol e derrota nas olimpíadas contra Camarões em 2000, desclassificação catastrófica contra Honduras na copa América e classificação apertada para a copa em 2001. O país que havia perdido apenas um jogo em eliminatórias perdeu 6 vezes e empatou outras 3, em 18 jogos, para carimbar o passaporte para a Ásia: vencer apenas metade de seus jogos sem um time base (pois dezenas de jogadores participaram da campanha) era motivo para se buscar um redentor, que era o mesmo da última conquista: Romário. Luxemburgo o havia chamado e por algumas rodadas na metade das eliminatórias o baixinho fora artilheiro jogando apenas 2 jogos! Com a saída de Luxemburgo, o comando de Leão fora marcado por uma 'renovação', em que jogadores pouco lembrados hoje defenderam nossa camisa na copa das Confederações em 2001, como Carlos Miguel, Evanílson e Leomar. Os tropeços para França e Austrália custaram seu cargo, e para seu lugar veio Felipão, que convocara Romário apenas uma única vez e, devido a uma mágoa com o baixinho (em que este pedira dispensa da seleção para uma suposta turnê do Vasco ao exterior, que não aconteceu), mesmo com todo o Brasil pedindo o nome do craque do Vasco, o comandante bigodudo batia o pé firme com perseverança e assumia a responsabilidade de não chamar o nome que 4 anos antes era, para alguns, o que faltava naquela trágica final de copa contra a França.
Ganhamos da Turquia com a ajuda do juiz (que marcou um pênalti numa falta fora da área) e derrotamos com facilidade as frágeis China e Costa Rica. Sofremos contra a Bélgica e mais uma vez fomos beneficiados pela arbitragem, que anulara o gol legítimo do belga Wilmots. No nosso primeiro grande desafio, contra a respeitada Inglaterra, houve pessoas que não estavam dispostas a acordar 3 e meia da manhã para assistir um suposto fracasso, e essas que tiveram tal desconfiança perderam uma das melhores partidas da copa, num triunfo de virada com direito a gol histórico de Ronaldinho gaúcho. Na semifinal, encontramos novamente a Turquia, o que prova que nossos adversários de estréia não eram fracos como imaginávamos, afinal, chegara muito longe e prometendo vingança. E nesse dia, mesmo com virilha estourada, Ronaldo marcara de biquinho seu 6º gol, assumindo a artilharia isolada. Na final, o confronto tão sonhado há tantos anos: as duas maiores potências do futebol (com 6 finais cada até ali) que nunca haviam se enfrentado até então iriam decidir o título em 'campo neutro' (ou seja, em outro continente). Nenhuma das duas equipes esperava ir tão longe, e sem dúvida, Ronaldo, Rivaldo e Klose não esperavam serem os goleadores de um torneio com Verón, Henry, e Figo (melhor jogador do ano de 2001), que viviam momentos muito melhores (e ambos caíram na 1ª fase respectivamente, Argentina, França e Portugal).
os 2 gols de Ronaldo selaram o título que de alguma forma amenizara a desconfiança sentida pelos brasileiros pelo seu futebol. Artilheiro com 8 gols e vindo de séria contusão que quase lhe tirara do futebol, para alguns, ele era apenas um ex-jogador, mas para Felipão, era a promessa de título que virou realidade.

Em 2006 chegamos como favoritos, sem crises e com muita festa, e perdemos para o então carrasco França, sem jogar com garra e com as laterais do campo com idade média acima de 30 anos (setores do campo onde se precisa de velocidade e gás, ou seja, juventude), Ronaldo, Adriano e Ronaldinho acima do peso e a insistência de Parreira em não colocar o brilhante meia Juninho Pernambucano no time titular desde o início, os atletas nem se quer voltaram ao Brasil imediatamente: muitos continuaram pela Europa por um bom tempo (já que por lá jogavam) sem visitar sua terra Natal, que tanto hostilizava a equipe.
Sinto que em 2010 estamos num misto de desconfiança e esperança: ao mesmo tempo em que Dunga é chamado de 'burro' em côro pelos estádios, damos crédito a Kaka, Luís Fabiano e Julio César, pelas boas atuações. A defesa foi o ponto forte em 2006, e provavelmente se manterá forte em 2010, agora com Lúcio como capitão. Os resultados nas eliminatórias não assustam e não animam: estamos confortáveis na 3ª colocação e 'apenas' 1 derrota (para o líder Paraguai), embora não marcamos gols dentro de casa há mais de 1ano (foram 3 empates sem gols em 2008). Vencemos amistosos contra Portugal, Itália e Suécia, ganhamos a copa América, e teremos a 'prova de fogo' na copa das confederações, que irão ocorrer no meio do ano na África do sul (mesma sede da copa mundo, ano que vem). Que lutemos pelo favoritismo e confirmemos em campo porque merecemos ganhar, para quebrar de vez esse paradigma que 'para vencer tem que sofrer'.