sábado, 11 de março de 2017

Cinema, política e Bahia: entrevista com Pablo Villaça

Pablo ministrou o curso de "Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica" em Salvador, do dia 6 ao 10 de março 
No segundo semestre de 2014, o Brasil se polarizou de uma maneira que eu ainda não havia visto. Na época, eu morava no Chile, mas mesmo distante, era possível ver, pelo Facebook, as inúmeras trocas de ofensas entre pessoas conhecidas por decorrência de divergências ideológicas na medida em que as eleições se aproximavam. Nesse momento, um texto apareceu na minha timeline, compartilhado por um de meus contatos, e me chamou muito a atenção não só pelo posicionamento, parecido ao meu, mas pela lucidez. Foi assim que ouvi falar pela primeira vez no nome do crítico de cinema mineiro Pablo Villaça, de 42 anos, diretor-fundador do "Cinema em Cena", site criado em 1997. 

Entrevistei Pablo no auditório do IRDEB, na Federação, onde aconteceu o curso de “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica”, do qual eu fui um dos quase 100 alunos. Recomendo a todos que gostam de cinema e queiram se aprofundar na sétima arte. 

Documentário “Axé”, programa “Escola sem Partido”, o começo de sua carreira como crítico, perda de leitores por falar de política e dicas para trabalhar com cinema são alguns dos temas desta entrevista, que segue abaixo em texto e áudio (o player está no final do texto).    


Quais são as dificuldades de se fazer crítica [cinematográfica] no Brasil em comparação a outros países?

Acho que fazer crítica de arte em qualquer país do mundo é complicado. Viver disso é complicado. Não é algo que seja comumente uma fonte de renda confiável, estável. Então do ponto de vista financeiro, do ponto de vista profissional, sempre dedicar-se à crítica de arte, não só de cinema, é sempre um risco que se toma. Agora, no Brasil existem algumas coisas adicionais, alguns problemas adicionais, como dificuldade de acesso a certos filmes, o próprio desinteresse das distribuidoras em investir em publicidade em sites que se dediquem à crítica, e não só divulgação dos projetos que eles estão vendendo. Mas eu acho que isso é comum em qualquer país. Qualquer coisa relacionada à arte envolve um risco imenso quando você quer transformar aquilo em uma fonte de renda para poder viver. 

Quando surgiu a ideia de ser crítico e quais críticos te influenciaram?

Eu sempre gostei de cinema e sempre estudei cinema. Eu comecei a estudar cinema de uma maneira autodidata com 14 ou 15 anos, quando eu ganhei um livro da Pauline Kael chamado “Criando Kane”, que é um dos livros seminais em termos de discussão cinematográfica. Pauline Kael sempre foi uma escritora excepcional. Na adolescência eu ganhei um CD, chamado  “CD Mania”, e os filmes que tinham nesse CD vinham com críticas, então eu criei o hábito de sempre ao ver um filme, botava esse CD e lia a crítica do Roger Ebert, que eram as críticas que vinham no CD. Então Roger [Ebert] me mostrou na prática uma maneira completamente nova de ver cinema. Quando eu já estava na faculdade, mas de outra coisa [medicina], eu criei um site, não, antes disso, na pré-internet no Brasil tinha um negócio chamado BBS [bulletin board system], que você conecta no computador de um cara, através do computador dele você acessava uma rede de mensagens, baixava arquivo ou participava de chat. Eu comecei a criar a área de cinema, Belo Horizonte tinha sete BBS, eu criei a área de cinema de seis delas. Basicamente significava o seguinte, eu pegava o jornal e digitava a programação de cinema durante a semana, via os filmes e dava uma cotaçãozinha e escrevia um pequeno parágrafo sobre isso. Foi indo assim. Aí eu comecei a ter mais interesse em escrever, e aí veio a internet e eu criei um site para colocar as críticas que já tinha escrito para outros espaços. E de repente eu vi que tinha muito mais prazer em fazer isso do que na faculdade. 
Livro de Pauline Kael

Sua página de Facebook tem mais de 250 mil seguidores. Além de cinema, você costuma falar de política. Você já temeu perder seguidores?

Não precisei temer não, eu perdi sem precisar temer. Antes de eu sequer pensar que isso poderia acontecer eu já tinha perdido. Eu sempre falei sobre política, tanto escrevendo exclusivamente sobre política como discutir elementos políticos em críticas de filmes que permitiam esse tipo de discussão. Tem textos meus que são de 1998, 1999, de filmes que tinham uma temática política, e eu discuto política dessa maneira. Com o passar do tempo, com Facebook, que oferecia um espaço que eu poderia falar sobre política apenas, porque eu não ia falar de política no Cinema em Cena, para não misturar as coisas, eu comecei a escrever como cidadão, eu me expresso como cidadão. Mas foi crescendo, ganhando uma relevância que eu realmente não esperava, e até hoje eu não entendo o porquê. 

Eu conheci a página do Facebook durante as eleições de 2014.

E você não conhecia o Cinema em Cena?

Ainda não. Mas hoje sou colaborador.

Muito obrigado, bom gosto. Mas você conheceu pela política?

Foi, pela política.

Quanto tempo você levou para descobrir que eu escrevia sobre cinema?

Foi no mesmo dia. Eu vi a página, achei bem feito o texto e fui procurar saber sobre você e vi que você era crítico de cinema.

Mas muita gente faz o caminho inverso. Me conhecia pelo Cinema em Cena, me conhecia por crítica, e aí quando comecei a escrever sobre política, a pessoa leu e falou assim “que porra esse comunista, canalha”, e pararam de ler. Muitos fizeram questão de expressar isso. Um me marcou muito, era adulto, falou “hoje eu tenho 28 anos, eu te leio desde que eu tinha 14, mas não te lerei mais”. Enfim, acho uma bobagem, uma perda de tempo e uma falta de discernimento grande você não conseguir separar as duas coisas. Você não gosta da posição política do cara como cidadão e vai deixar de acompanhar o trabalho que apreciava como crítico, eu acho uma bobagem. Mas o fato é que eu perdi, e quando você vê o gráfico de acessos ao Cinema em Cena, de 2014 para cá, eu perdi no mínimo, falando conservadoramente, um terço dos leitores.  

Mas não ganhou?

Durante o curso / Foto: Lucas Franco
Ganhei, mas perdi mais do que ganhei. Isso pelo acesso do Cinema em Cena. Mas não posso nem dizer que perdi mais do que ganhei, eu perdi, e os que eu ganhei não necessariamente eu ganhei como leitores do site. Eu estou falando do Cinema em Cena. Então eu posso ter conseguido muitos novos leitores na página do Facebook, que é um negócio que sinceramente, eu fico feliz e tal, mas profissionalmente não faz diferença porque eu não vivo daquilo, eu vivo do Cinema em Cena. E desses leitores que eu ganhei, a maior parte não entra no Cinema em Cena, porque o gráfico de acessos ao Cinema em Cena, de 2014 para cá, foi um gráfico... Agora não, nos últimos quatro meses começou a crescer bem. Não sei o que aconteceu, se eu fiquei mais simpático, se todo mundo começou a separar as coisas melhor ou se de repente teve um boom na população de comunistas no Brasil, não sei o que aconteceu. Começou a aumentar [nos últimos quatro meses], mas que eu perdi muito leitor, eu perdi. Agora, se eu imaginasse que isso iria acontecer, eu escreveria do mesmo jeito sobre política? Sem dúvida nenhuma. Eu não posso deixar de me manifestar como cidadão por medo de que isso vai gerar algum tipo de perseguição ou macarthismo à brasileira. Acho uma pena, mas não posso fazer nada a respeito.

Boa parte da direita fala sobre doutrinação nas escolas, que seriam espaços em que os professores teriam que ser neutros. Na sua opinião, qual a importância de professores, críticos e a sociedade em geral se posicionarem sem medo?

Se posicionar sem medo é fundamental, você tem que se posicionar sem medo sobre tudo. Você não pode ter medo de se expressar, não pode ter medo de ter uma ideia, uma ideologia, expressar uma opinião, um ponto de vista. Você cita basicamente a “Escola Sem Partido”, que é de uma estupidez imensa. De uma estupidez e de uma posição cínica, porque o que eles estão dizendo não é “nós queremos escola sem partido”. O que eles estão dizendo é “nós queremos uma escola sem esquerda”, porque essa é a diferença. Quando eles falam “ah, o filme tem ideologia”, ou “que a escola tem ideologia”, ou “que os artistas têm ideologia”, o que eles estão querendo dizer é: eles são de esquerda. Porque se eles fossem de direita, seria normal. Se você for de direita, é a postura padrão, tudo bem, não tem uma postura diferente. Agora quando eles falam que não querem política na escola, o que eles estão dizendo é “nós não queremos nenhum tipo de pensamento de esquerda na escola”, e quando eles falam de pensamento de esquerda, eles estão falando de pensamento crítico, basicamente. É você pensar em ativismo social, é você pensar em direitos humanos, é você pensar em direitos de minorias, é você pensar em políticas de inclusão social, é isso que eles não gostam. Não é que eu ache que um professor de matemática deve parar a aula de matemática para começar a falar sobre política. Agora, a escola é um lugar de ensinamento, de despertar o pensamento crítico no aluno. Um professor não pode se podar. Por exemplo, como um professor de história vai dar aula sem abordar política? Como um professor de geografia, principalmente quando você fala de geografia do ponto de vista de política, vai deixar de falar? Na literatura, como você vai discutir grandes obras da literatura sem falar? Então a política faz parte da experiência humana. Querer tirar a política da escola, ou das artes, primeiro que é um esforço fútil, não tem como se fazer isso. Enquanto houver humanidade vai haver política. Em segundo, é cínico, porque eles não querem tirar a política da escola, eles querem eliminar um tipo de espectro ideológico da escola. 

Você já ministrou o curso em Salvador outras vezes. Como você enxerga o cinema baiano?

Na verdade, eu sempre vim a Salvador desde criança, eu tenho parentes aqui. Sempre gostei muito da cidade e do povo em si. Eu me sinto muito à vontade, não só na Bahia. Para ser bem sincero, eu me sinto muito à vontade no Nordeste. Todas as vezes em que eu venho, a qualquer estado do Nordeste, eu me sinto sempre muito bem recebido. Sempre fico muito impressionado com a gentileza do povo. É uma gentileza que você não vê em outros estados do país, não vê mesmo, ao contrário, em certos estados você sente uma hostilidade na rua. Então eu me sinto em casa no Nordeste. O cinema nordestino inclusive hoje é um dos cinemas mais ricos do Brasil. Porque o Brasil tem polos cinematográficos em todos os seus cantos. Vamos chamar de polo, embora isso tenha a ver com indústria e o cinema brasileiro não é um cinema de indústria, mas você tem centros de criação, centro de geração de cinema no Rio Grande do Sul, em São Paulo, Rio, Minas Gerais obviamente, e no Nordeste também muito. Amazonas, Norte, menos. Porque eu acho que inclusive faltam recursos financeiros para estimular.
Pôster do amazonense "Antes o Tempo Não Acabava"
Inclusive é importantíssimo que você expanda, porque quanto mais estados, quanto mais regiões se manifestarem no cinema, maior é a nossa diversidade de temáticas. Tem um filme amazonense que eu vi ano passado, que foi selecionado no Festival de Berlim, “Antes o Tempo Não Acabava”, que é de uma sensibilidade ímpar, contando a história de um menino de uma tribo indígena que vai se descobrindo gay. Imagina que tipo de história inesperada, de uma descoberta da homossexualidade por parte de um índio. Como isso se reflete na sua família, com costumes completamente diferentes, uma ótica completamente diferente, então é importante isso, você ter cinema no Amazonas, você ter cinema no Acre, e no Nordeste a gente tem um polo um pouco mais estabelecido, principalmente Pernambuco, que tem grandes cineastas, produzindo muito bom cinema. Eu tenho imensa admiração não só pelo espírito criativo do Nordeste, mas eu estava falando sobre a Bahia especificamente. Eu fui ver um documentário, que é daqui inclusive, o “Axé”.

Você gostou?

Gostei muito do filme. Gostei muito. O filme tem alguns probleminhas de ordem estrutural, cronologicamente às vezes ele é um pouco confuso, mas é um filme que de modo geral é bem didático, abrangente, e o que eu mais gosto em um documentário, que ele é ao mesmo tempo interessante, divertido e traz informações que são relevantes e que não são tão comuns assim. Eu por exemplo até comentei isso depois, que vendo “Axé” eu fui confrontado pela minha própria ignorância em relação ao gênero. Não só a ignorância, em relação ao preconceito mesmo. Eu tinha preconceitos com relação ao axé que, vendo o documentário, vi que é uma coisa historicamente riquíssima, culturalmente riquíssima e que eu desconhecia. E o que eu achei bacana é que eu fui assistir a sessão das 19h, e a sessão estava esgotada, eu não me lembro de nenhuma vez em que eu tenha ido a um cinema de shopping ver um documentário em que a sessão estivesse esgotada. Não consigo me lembrar. E aí eu comprei a sessão das 22h, e a sessão estava lotada, sessão das 22h, no meio da semana, um documentário. Eu fiquei fascinado por isso. E quando terminou o filme, eu achei legal que duas pessoas começaram a dançar em frente à tela durante os créditos. O que eu senti é uma coisa que eu sinto muito na Bahia, e que de novo acho que falta ao restante do país: orgulho da própria cultura, orgulho da própria história. O brasileiro tem sido muito vira-lata, acha que o que vem de fora é lindo e o que a gente produz é lixo, é pobre, é medíocre, e não é isso. Nossa cultura é riquíssima e eu vejo isso muito no Nordeste. 




Teve um filme, “Bahêa Minha Vida”, não sei se você viu.

Não vi, mas eu sei.

A torcida toda foi com camisa, transformou o cinema em um estádio.

Mas o foco desse filme é...

“Bahêa Minha Vida” é um filme sobre o Bahia, sobre a história do time...

Mas aí fica um pouco à parte porque envolve outra paixão louca do brasileiro que é o futebol. Tem um filme mineiro que se chama “O Dia do Galo”, que é sobre a final da Libertadores que o Atlético jogou, que é um time que eu não torço, meu time é o Cruzeiro, que é infinitamente melhor. Mas vendo “O Dia do Galo”, embora cruzeirense, que é o maior rival do Atlético, eu fiquei encantadíssimo com o filme justamente pela paixão que ele ilustra sobre torcida. Então “Bahêa Minha Vida” é um pouco diferente nesse sentido.

O que se aprende nos cursos de cinema daqui?

O objetivo é para quem quer fazer cinema, para quem quer ver cinema de uma maneira mais abrangente e para quem ama cinema. O objetivo do curso é expandir o olhar do espectador. Se junto com isso vier uma vontade de fazer cinema, ótimo. Mas o objetivo principal do curso é de certa maneira mostrar para o aluno, para o espectador e para o cinéfilo, que existe uma linguagem muito mais ampla e complexa do que o público costuma perceber. Que todas as emoções que você sente ao longo do filme não são fruto de uma reviravolta do roteiro ou de uma lágrima que o ator derrama em um momento certo, mas de toda uma lógica narrativa que envolve a montagem, que envolve a fotografia, o desenho de som, e o objetivo é esse, mostrar esses outros elementos. Isso nesse primeiro curso, pois têm dois outros. O segundo curso, “A Arte do Filme”, é um pouco mais técnico, então eu vou abordar algumas questões que não são apenas para quem quer fazer cinema, mas tem questões mais técnicas, e o terceiro curso é sobre cinema de um modo geral, mas a entrada pelo cinema pelo “O Poderoso Chefão”.

Marlon Brando em "O Poderoso Chefão" / Imagem: Divulgação
Só um ou a trilogia?

Só um. Eu fico uma semana discutindo o primeiro filme. Poderia fazer sobre qualquer um dos três, porque são igualmente sensacionais, eu sou fã dos três igualmente. Mas por uma questão de cronologia, eu começo do um.

É também no primeiro filme que tem atores como...

Marlon Brando

Marlon Brando por exemplo não está nos outros dois...

Mas em compensação tem o Robert De Niro no segundo e não tem no primeiro, no terceiro filme tem o Eli Wallach, que é outro ator fantástico, que não está no primeiro e no segundo. Não é nem por isso. Quer dizer, ao mesmo tempo também é, porque para mim o Marlon Brando é o maior ator da história do cinema, então se dá para falar em “O Poderoso Chefão” e também sobre Marlon Brando, eu uno duas paixões. 

O que você sugere aos jovens que querem fazer carreira no cinema, seja como crítico, cineasta, levando em consideração... Eu sou jornalista, quando algumas pessoas me perguntam sobre como é ser jornalista, eu digo “pense bem a sua paixão”...

Engraçado você falar isso. Bom, meu conselho é o seguinte. Eu tenho um primo, que na verdade é primo-sobrinho, porque é bem mais novo, e ele veio conversar comigo agora, durante o carnaval. Ele é daqui da Bahia inclusive. Ele falou que tinha vontade de fazer cinema e se eu achava que ele deveria ou que era promissor financeiramente. Eu falei, financeiramente promissor, trabalhar com arte nunca é. Nunca, em qualquer ramo da arte. Se você consegue se enxergar fazendo outra coisa sendo feliz, faça outra coisa. Porque cinema é um ramo complicado, é muito fechado, tem muita panelinha. Mesmo que você faça parte da panelinha, financeiramente é complicado e vai ficar cada vez mais complicado porque agora a gente tem um governo que que não estimula, não estimula não, sabota a cultura, sabota a produção cultural, que enxerga o artista como inimigo, enxerga a cultura como inimiga, então a tendência é ficar pior. Agora, se você só se enxerga sendo feliz fazendo cinema, dane-se qualquer tipo de pessimismo financeiro e vá fazer cinema. Encontre um modo de viver daquilo. O que eu recomendo é estudar muita teoria e ver muito filme e viver realmente a arte. E viver muito. Porque a arte é fruto das experiências de vida de cada um.

Pablo, muito obrigado.

Valeu.


quarta-feira, 1 de março de 2017

O que Recife e Olinda me ensinaram

Marco Zero lotado na sexta-feira (24 de fevereiro de 2017), abertura do carnaval de Recife
Ir ao carnaval, ou melhor, ir aos carnavais de Recife e Olinda eram um sonho para mim. Um só sonho, no singular. Tão singular como as duas cidades pernambucanas. Mas afinal, as festas momescas em Pernambuco são melhores do que em Salvador? Vou te contar uma coisa.

O sentimento de pertencimento é muito importante. Sentir-se local, filho de determinada cidade, região ou continente. Me lembro que no Chile, país em que morei por dois anos, era comum ouvir músicas de diversos países hispanohablantes, e chamava a atenção dos chilenos que eu, nascido em um país do mesmo continente, não conhecesse até as músicas mais famosas da Argentina, Colômbia, México, Cuba e Porto Rico. A língua é uma barreira invisível. Diferente do muro pretendido por Trump para separar Estados Unidos e México, há uma parede invisível que impede os brasileiros de conhecerem Celia Cruz, Manuel Mijares e Carlos Vives. No Chile, eu aprendi a ser latino-americano, e não apenas brasileiro. Em Recife e Olinda, eu aprendi a ser nordestino, e não apenas baiano. 

Conheci Almir Rouche e Marrom Brasileiro, lendas pernambucanas pouco conhecidas fora do estado. Era impressionante a conexão entre artista e público no Marco Zero, como todos sabiam cantar, com emoção, músicas antigas que eu nunca havia escutado. Após repetidas execuções dos clássicos, eu já fazia coro ao refrão "Ai que calor, ô, ô, ai que calor, ô, ô, ai que calor, ô, ô, ô, ô, ô... ô, ô", como um pernambucano a mais na multidão.



Sou nordestino, logo, essa música também é minha. E a guitarra de Armandinho, além de baiana, é pernambucana. Porque somos todos da mesma região, diversificada, mas com muito mais semelhanças entre os estados do que se costuma pensar. E é por isso que não existe uma resposta à pergunta "qual o melhor carnaval: Recife, Olinda ou Salvador?". Ambos são maravilhosos, únicos, e ao mesmo tempo fazem parte do mesmo todo. É uma festa só, de uma região que poderia fazer mais trocas entre si.

"Eu Acho é Pouco", um dos blocos mais famosos de Olinda, no sábado (25)


Não é verdade que "música baiana e referências à Bahia não entram no carnaval de Pernambuco". "Cometa Mambembe", consagrada nas vozes do cearense Alcymar Monteiro e da paraibana Elba Ramalho e tão tocada no Galo da Madrugada, foi composta por um baiano, Carlos Pitta. Já "Banho de Cheiro", homenagem à Bahia também emplacada por Elba Ramalho, foi escrita por Carlos Fernando, que nasceu em Caruaru, morou a maior parte de sua vida em Recife, Olinda e Rio de Janeiro e é considerado um dos maiores responsáveis por unir frevo e MPB, ajudando a expandir referências ao Senhor do Bonfim, Filhos de Gandhy e Boca do Rio.






Nada supera o que presenciei no show de Otto na segunda-feira (27), no Pátio São Pedro, no Recife Antigo. O local parece a Praça Tereza Batista, no Pelourinho, em Salvador, e a emoção do público contagiava. Em todos os momentos do show o artista, nascido no interior de Pernambuco, falava da emoção de estar na cidade que o acolheu e da qual se sente pertencente, de se sentir o espelho do público e de sentir que o público é o seu espelho, para em seguida dizer "mas vamos falar de Salvador agora" e emendar "Janaína", música que fala da festa de Iemanjá, que acontece no dia dois de fevereiro, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador.




Não é a única música de Otto que cita Salvador, mas me senti representado pela citação à minha cidade antes de ele começar a cantar uma música que fala da minha cidade em pleno carnaval de Recife, mesmo em meio a um público que parecia ser predominantemente local. E fico feliz que vários recifenses se sintam representados pela canção como eu me senti representado pelas músicas pernambucanas que ouvi.

Se no Chile eu conheci muitas músicas que me fizeram me sentir mais latino-americano, independentemente das diferenças que existem entre os países do continente, em Recife constatei que nenhuma diferença deve ser maior do que o sentimento de união em torno de uma só causa, o carnaval. Uma festa só, em várias cidades. Assim deveria ser o mundo: multicultural e único. Como as músicas de Otto.

Em Bora Tao
Em Bangladesh Goa
Na China Mao
Free Tibet para mim é pessoal
Lavanda ofereço orixá
Luanda, Havana e Salvador
Na lama do Recife sou xangô
Umbanda, caranguejo, salta a dor
Que idade banha ele
Banho de mar
Que idade banha ele
Iemanjá

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

China, dinheiro e futebol: uma nefasta combinação

Foto: CCTV
O mais popular esporte do planeta corre perigo. O futebol, como conhecemos hoje no Brasil com a pronúncia de “futibóu” e que por essas bandas já se chamou “football”, vai precisar se reinventar muito para sobreviver às novas investidas da China. Não que este seja o primeiro desafio. A descrença no jogo já havia sido repercutida em 1920 pelo escritor Graciliano Ramos, que em artigo ao jornal alagoano “O Índio” cravou que “estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho. O futebol, o boxe, o turfe [corrida de cavalos], nada pega”. Pegou e “abrasileirou-se”. Nos anos 2010, é justamente a versão brasileira do jogo que tem chamado a atenção do outro lado do mundo. Era preferível a descrença do Século XX à obsessiva “admiração” dos orientais. 

Não é novidade que grandes clubes de outros continentes contratem estrelas sul-americanas. O que é novidade é a saída até de jogadores medianos por cifras inimagináveis, o que tem enfraquecido as ligas do continente e as disputas intercontinentais de clubes. O êxodo para a Europa pelo menos agraciava o fã do esporte com a formação de “dream teams” multiétnicos, o que ao longo do tempo deixou inúmeros legados. Do Real Madrid de Puskas e Di Stefano ao Barcelona de Messi, Suárez e Neymar. No entanto, quando os leilões por jogadores não deixam legado algum, o sinal de alerta deve ser acionado no mundo da bola.

Para entender o quão nefasta é a combinação China, dinheiro e futebol, é preciso entender o tamanho do país asiático no cenário. Participante de apenas uma edição de Copa do Mundo, em 2002 (três derrotas, 9 gols sofridos e nenhum marcado), e sem títulos em torneios continentais com a seleção principal, seus clubes venceram apenas três das 35 edições de Liga dos Campeões Asiáticos disputadas. Dos 14 jogadores que estiveram em campo no último jogo da seleção chinesa, em novembro do ano passado, empate sem gols e dentro de casa contra o Catar, pelas eliminatórias da Copa, apenas um atuava fora do país, o atacante Zhang Yuning, reserva do holandês Vitesse (nem sempre é relacionado para jogar). O Vitesse, que tem parceria com o Chelsea desde 2010, é o oitavo colocado na modesta Eredivisie, que conta com 18 times. Dezessete rodadas já foram disputadas e Yuning marcou apenas um gol.

Treinada pelo italiano Marcello Lippi (campeão europeu e mundial com a Juventus em 1995 e da Copa do Mundo com a Itália em 2006), a China é a lanterna do Grupo 1 das eliminatórias, com dois pontos em cinco jogos disputados, e está praticamente fora do mundial de 2018, na Rússia. Será muito difícil que as milionárias transações deixem algum legado se o nível dos jogadores locais continuar tão baixo, já que só é permitida a participação de quatro estrangeiros por equipe. Do ponto de vista tático, tampouco há boas perspectivas. Os treinadores, embora vitoriosos em outras épocas,  há muito tempo não fazem um bom trabalho, a exemplo de Luxemburgo (demitido em 2016 do Tianjin Quanjian, da segunda divisão), Scolari (após parcela de responsabilidade em rebaixamento do Palmeiras em 2012 e nos 7 a 1 do Brasil na Copa de 2014, foi contratado pelo Guangzhou Evergrande, onde está até hoje) e Mano Menezes (demitido esse ano do Shandong Luneng, o treinador perdeu prestígio após pedido de demissão inesperado do Flamengo em 2013, mas atualmente tenta juntar os cacos no Cruzeiro). 

A Chinese Super League foi a sexta liga com maior média de público do planeta em 2015, com 22.580 torcedores. A expectativa dos dirigentes é que a liga local se torne uma “Premier League Asiática”. Falta muito. As ligas japonesa e coreana contratam brasileiros de nível técnico mediano desde os anos 1990. Países do Oriente Médio também não poupam esforços. Não é coincidência que os clubes brasileiros precisem aumentar os preços dos seus produtos licenciados e ingressos e ainda assim passem por situação financeira difícil. O futebol, que chegou ao Brasil como um esporte de elite, se popularizou e em momento de inflacionamento de mercado deixa de encantar e de atrair as multidões. Está caro ir ao estádio e não é fácil para os clubes manterem a base com tamanho assédio da China, que no início de 2016 desfalcou o detentor do título brasileiro Corinthians com a transferência de quatro dos seus titulares. É hora de o futebol brasileiro se reinventar novamente e usar suas armas contra as investidas orientais. Se é que a China também não vai comprar as armas.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Suicídio por desonra existe no Brasil?


Organizações brasileiras ligadas à saúde escolheram o mês de setembro para iniciar uma campanha de prevenção ao suicídio. Embora os índices locais sejam altos, uma das causas que levam ao ato não são recorrentes no país: a desonra.

No outro lado do mundo, no entanto, a prática de usar a espada contra si próprio foi comum por muitos séculos e, segundo estudiosos em cultura e história japonesa, ainda há reflexos nos dias atuais. “O haraquiri [suicídio praticado pelos samurais] surgiu entre 1139 e 1177. A razão que explica o haraquiri como uma honra é proveniente da crença de que na região abdominal se vive a alma e o amor das pessoas. Essas crenças de morrer honrosamente ficaram enraizadas”, contextualiza a diretora educacional da Federação Cultural Nipo-Brasileira da Bahia, Angela Tamik. 

Em outro extremo, os programas eleitorais no Brasil provocam incredulidade. Muitos dos candidatos, investigados por diversos crimes, concorrem a cargos públicos municipais em todo o país neste domingo, dia 2 de outubro. “Todos os políticos [que cometessem crimes] tinham de efetivar haraquiri. Os que permanecessem tinham de investir na educação e na saúde da população para reerguer o país como o Japão, depois da segunda guerra mundial, onde todos foram alfabetizados”, desabafa Angela Tamik, que é PhD em Ciências da Saúde pela Universidade de Tokyo.  

Apesar de conscientes acerca dos problemas estruturais do país, nem todos os brasileiros enxergam a proposta de Angela como a solução, afinal, suicídio é um tabu no ocidente e os jornais não relatam notícias a respeito, também com a finalidade de não fazer apologia. “Acho que no Brasil a corrupção é tão escancarada que ninguém sente essa vergonha extrema ao ponto de cometer um suicídio por honra”, opina o ex-repórter de política do Bocão News e hoje assessor de comunicação da Câmara Municipal de Vereadores de Salvador, Marivaldo Filho. “Apesar de acreditar, com base em fé pessoal, que o suicídio nunca será o melhor caminho, imagino o quão doloroso deve ser para alguém ser vítima de uma situação como a que está acontecendo atualmente com o Brasil, bem diferente de um suicídio por honra em decorrência de um desvio de caráter pessoal”, discorre o jornalista. 

Embora a desonra não interfira na estatística de suicídios no Brasil, os números são altos no país. Cerca de 12.000 pessoas tiram a própria vida por ano e mais de 90% dos casos de suicídios estão relacionados com doenças psiquiátricas que podem ser tratadas. O Brasil é o oitavo país com mais suicídios no mundo, embora a taxa de seis suicídios para cada 100 mil habitantes esteja abaixo da maioria dos países. “No Brasil temos outro tipo de cultura. Diz-se que no Japão há uma cultura baseada no sentimento de vergonha, voltado para a reação da comunidade. O Brasil, como boa parte dos países ocidentais, tem uma cultura mais fundada no sentimento de culpa, mais individual. Tanto que um único suicídio, o de Getúlio Vargas, marcou nossa história, até pela raridade da prática”, contextualiza a psiquiatra e professora associada do Departamento de Neurociências e Saúde Mental da Ufba (Universidade Federal da Bahia), Miriam Gorender. Para a psiquiatra, no entanto, a subnotificação é muito grande e a taxa real seria no mínimo o dobro da oficial, embora não existam registros de atos cometidos por desonra. “É muito incomum o suicídio por desonra no Brasil. O médico psiquiatra, em qualquer dos casos, vai lidar diretamente com a doença mental de base, que ao alterar seu cérebro distorce a realidade percebida pelo paciente, e o fragiliza frente aos estresses da vida”, completa.

Embora a campanha oficial de prevenção ao suicídio termine em setembro, o Centro de Prevenção da Vida disponibiliza o a linha 141 para urgências para todos os meses do ano.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Prato típico provoca rivalidade entre Bahia e Espírito Santo

Foto: Divulgação

Conhecido cozido em todo o país que pode ser preparado com peixe ou frutos do mar, além de tomate, coentro e cebola, a moqueca é a responsável por fazer dois estados vizinhos, sem nenhum histórico de rixa, viverem uma briga pela “autonomia gastronômica”.  

A Bahia, no Nordeste, e o Espírito Santo, no Sudeste, dividem a “patente de donos da melhor moqueca”. No entanto, para o capixaba Vanderlei Mozer, a variedade é positiva. Garçom há 29 anos do restaurante São Pedro, em Vitória, Mozer diz defender bem sua bandeira. “Todos aqui dizem que moqueca mesmo é a capixaba, o resto é peixada”, brinca. “Mas eles também fazem um prato muito bom, são apenas costumes diferentes. Para quem não é habituado a comer azeite de dendê e leite de côco, a moqueca baiana pode ser pesada, dar dor de barriga. Mas a rivalidade é sadia, não é uma crítica. É só uma forma de dizer que nosso peixe é o mais gostoso”, completa.

O uso do azeite de dendê e do leite de côco, típico em diversos pratos da culinária baiana, é o que diferencia a moqueca dos dois estados. Garçom há 23 anos do Ki-Mukeka, em Salvador, o baiano Ismael Oliveira diz que a preferência pelos produtos locais não se dá apenas entre seus conterrâneos. “A maioria dos turistas que vêm aqui são de São Paulo e Rio, e eles gostam muito. Quando eles chegam, pensam que nossa moqueca é igual a capixaba. A deles não leva azeite de dendê e leite de côco, e quando provam percebem que a nossa é mais gostosa”, defende. 

Observada sob o ponto de vista científico, a rivalidade gastronômica entre os dois estados é muito importante, defende o doutor em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Ericivaldo Veiga. “A moqueca se inclui na discussão antropológica sobre a cultura brasileira. O bate-boca é útil quando se pensa em identidades”, diz o sociólogo, que escreveu o artigo “A Essência do Sabor Brasileiro: Segredos da Bahia”.  O sincretismo religioso na Bahia, onde o catolicismose mistura ao candomblé, tem também na moqueca uma ponte de ligação. “A cozinha baiana de origem africana é um subsistema do sistema culinário baiano, que por sua vez é parte do brasileiro. Na mais importante celebração entre os católicos, a Paixão de Cristo, se observa no lugar do jejum um momento apoteótico nas mesas baianas, principalmente no Recôncavo e em Salvador, no qual a cozinha do azeite de dendê ou a cozinha ritual do candomblé formam a maior parte dos pratos, e as moquecas são certas”, completa.

A miscigenação do povo brasileiro e principalmente, do baiano, foi fundamental para “africanizar” o prato indígena, aponta o doutor em antropologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Ordep Serra. “Aqui a gente releu tudo. A cultura negra é muito dominante, seja no modo de cantar, dançar, entre outras coisas. Nós fomos civilizados pelos negros e o povo baiano é bastante misturado”, afirma Ordep.

Na briga entre baianos e capixabas pela preferência nacional, quem ganha são os brasileiros. E você, já provou uma moqueca?

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O humor brasileiro através dos tempos

Adnet, Marcius Melhem (ex-Zorra Total) e Oscar Freire (ex-CQC) - Imagem: Caiuá Franco/TV Globo
Rir e fazer rir são conceitos universais. Os métodos para tanto, porém, mudam a cada geração. O que fez nossos pais caírem na gargalhada há décadas pode causar repúdio em nossos filhos, por exemplo. Como o humor pode explicar as mudanças de comportamento no Brasil? O mundo está ficando mais “chato” ou os humoristas são mais exigidos?

O grande desafio dos humoristas na atualidade é fazer rir sem serem ofensivos. A nova geração do riso traz novos personagens ou antigos nomes de peso que precisaram se repaginar. Os alvos das piadas de ontem e hoje se inverteram. 

O novo “Zorra”, Marcelo Adnet e Porta dos Fundos são exemplos da nova geração que já não fazem rir através de trapalhadas ou do humor politicamente incorreto. Lá se vai todo um “legado” deixado por Os Trapalhões, TV Pirata, Escolinha do Professor Raimundo, Sergio Mallandro, Casseta e Planeta, Zorra Total, Jackass, Pânico na TV e CQC, sem falar de seriados consagrados. O humor nacional, que se distingue do humor de outros países e do humor regional*¹, surge quando os veículos de comunicação de massa aumentam sua área de cobertura, do Caburaí ao Chuí. Primeiro com o rádio e a televisão, posteriormente com canais de You Tube e páginas no Facebook. No momento, o humor brasileiro está na sua quarta fase.

1: Fase “Trapalhona”

Para fazer rir dos anos 60 aos 2000 era preciso demonstrar ser “bobão”. Não havia conteúdo político nas piadas, já que boa parte dos profissionais do riso surgiu no período da ditadura militar. A sentença “Você conhece Marta? Então parta” se eternizou e é repetida mesmo pelas gerações que nunca viram TV Pirata, como a minha. Já Renato Aragão (ex-Trapalhões), Chico Anysio (ex-Escolinha do Professor Raimundo) e Sérgio Mallandro tiveram que se reinventar para não cair no ostracismo.

2: Fase da “Flagelação e Erotismo”

O público cansou de cenas de “mentirinha”. A partir dos anos 2000, o humor se tornou apelativo. Para fazer o outro rir era preciso se dar realmente mal. O programa “Domingão do Faustão”, da Globo, já havia lançado uma semente na década anterior com as “Vídeo Cassetadas”, mas o formato do programa era “familiar”, o que impedia de levar a flagelação a participantes do próprio programa. Em contrapartida, seus concorrentes, que tampouco se dedicavam exclusivamente ao humor, passaram a lançar quadros recheados de flagelação e erotismo, como o “Programa H”, da Band, com Tiazinha arrancando suspiros e risadas a cada vez que depilava um homem, e a Feiticeira, apenas arrancando suspiros, além do “Domingo Legal” do SBT com a “Banheira do Gugu”, que provocava suspiros, risos e suspense. Se é questionável o fato de esses programas serem considerados de humor, o “Pânico na TV”, até então na Rede TV, se aproveitou dessas fórmulas e rompeu a barreira dos rótulos ao encaixar humor e erotismo no mesmo programa com ainda mais apelação. A falta de conteúdo nas piadas (ou tentativas de piada), porém, fez o formato se desgastar e com isso houve o declínio da fase 2 do humor brasileiro.

3: Fase do “Humor Político”

A semente já havia sido plantada com o Casseta & Planeta, nos anos 1990. Oriundo da fusão de duas publicações impressas, o programa das terças-feiras da Rede Globo fazia deboche dos poderosos, mas na mesma intensidade ironizava as minorias, o que em alguns quadros não o tornava muito diferente do Zorra Total*². 

O site do cartunista Maurício Ricardo, Charges.com.br, fortaleceu ainda mais a fase que viria a seguir, que trocaria flagelação e erotismo por conteúdo político. No entanto, o tempo de semeia da fase 3 foi mais longo do que o seu período em si. O CQC, da Band, consolidou a fase do “Humor Político” com sua incrível audiência nas noites de segunda-feira a partir de 2008, com um formato em que os integrantes do programa faziam denúncias reais sobre problemas estruturais nas cidades, além de se infiltrarem no Congresso e em eventos de celebridades. Tudo isso arrancando gargalhadas dos telespectadores.

Os brasileiros se sentiam vingados. O humor político fazia coisas que nem o jornalismo se atrevia. Mas sua fase não perdurou pelo mesmo motivo da fase 2: o formato se desgastou porque o mundo mudou e os humoristas em questão não souberam se adaptar às mudanças. No lugar disso, preferiram bater de frente com o público que outrora o consagrou. Danilo Gentili e Rafinha Bastos passaram a se destacar em shows de stand up comedy, mas foram longe demais no quesito “romper barreiras do humor” e feriram minorias que passaram a ter voz e não toleraram piadas politicamente incorretas.

4: Fase do Humor Politicamente Correto

Em seu artigo “Carta Aberta às Humoristas do Brasil”, o colunista do Papo de Homem, Alex Castro, defende que “Não existe piada inofensiva: se alguém gargalhou é porque alguém se deu mal”. No entanto, reforça que “A questão é: quem se dá mal nessa piada?”.

No lugar de piadas que ridicularizam mulheres, negros, portadores de necessidades especiais e homossexuais, a nova geração do humor passou a satirizar machistas, racistas, homofóbicos e poderosos. Roteiristas precisaram se reinventar e novas caras surgiram. O novo formato do Zorra, na Globo, tem auxílio da equipe do site de humor “Sensacionalista”*³. Também na “plim plim”, Adnet passou a fazer sátira da própria televisão no programa “Tá no Ar”, e até alfinetou eleitores de direita, algo impensado de se fazer na emissora décadas atrás. 

O canal de You Tube “Porta Dos Fundos” já satirizou igrejas, polícia, comportamentos preconceituosos, injustiças do mercado de trabalho e até anti-petistas que o ameaçaram de boicote. Nem toda a repaginada, no entanto, imunizou o canal de críticas dos setores que exigem humor politicamente correto.

Um eventual enfraquecimento desse formato pode se dar por conta da bipolaridade que se encontra a política do país. Alguns humoristas dessa quarta fase são acusados de serem partidaristas e defensores incondicionais de políticas de esquerda. Esse formato atual tem data de validade? O que viria depois? Rir e fazer rir já não é tão fácil como antes. Que bom. 


*¹ O humor baiano cresce cada vez mais, mas o tema da postagem é humor brasileiro, que atinge todo o país. Cada estado tem seus humoristas, que contam piadas que muitas vezes só podem ser compreendidas por seus conterrâneos.

*² O Zorra Total tem o formato da fase 1, mas surgiu em um período em que as outras fases já preparavam terreno para dominar a programação da TV, como a fase 2, com as Cassetadas do Faustão como precursor, e a fase 3, com o Casseta & Planeta como principal introdutor do humor com conteúdo político a nível nacional, já que a televisão unificava o país como publicações impressas e rádio jamais conseguiram.

*³ O “Sensacionalista” é o principal site de humor da história que não usou recursos de áudio-visual. Seu fortalecimento se deu através das redes sociais, especialmente o Facebook. Outras páginas viveram grandes momentos, mas não conseguiram se manter por um período tão longo no auge, como “Esse É Alguém” e “Bode Gaiato”. Canais de You Tube, por sua vez, não se configuram como site ou página. 

terça-feira, 19 de abril de 2016

Compromisso com os indígenas

Foto: Ueslei Marcelino, Reuters
As culturas indígenas têm mais aceitação popular do que as demandas dos povos indígenas. Restaurantes peruanos são um sucesso em todo o Chile. Muitos dos que desfrutam dos sabores oriundos da civilização Inca, no entanto, se vangloriam dos colonos que trouxeram “progresso” ao continente à custa de milhões de mortes de pessoas que já habitavam estas terras antes da chegada
dos europeus.

Dá a impressão que os países sul-americanos não tinham apenas sede de independência no Século XIX. Havia também necessidade de uma busca por identidade nacional. De se distinguir de suas ex-metrópoloes, afinal de contas, suas elites eram formadas basicamente por brancos tal como os habitantes da Península Ibérica. Talvez por isso a literatura brasileira desde muito cedo tentou incluir elementos não-portugueses, a exemplo da obra “O Guarani”, de José de Alencar.

Até os dias de hoje há captação de “recursos genuinamente brasileiros” em prol do que eu interpreto como “vaidade regionalista”. Dar visibilidade às manifestações culturais das minorias é muito importante, mas não ajuda a combater o racismo quando o intuito é apenas fazer uma elite se distinguir dos seus primos portugueses e espanhóis. Apropriou-se das culturas indígenas sem ajudar a fortalecer as demandas dos seus povos. 
Jogadores de rugby do Brasil - Foto: Gaspar Nóbrega

Quando o rugby brasileiro decide apelidar sua seleção de “Tupis” e confecciona seus uniformes com temas que remontam a esse povo, deveria também assumir um compromisso forte com sua comunidade. A federação desse esporte poderia se posicionar a favor das cotas raciais e angariar fundos para as populações de áreas interditadas pela Funai, que podem carecer de recursos. Isso seria o mínimo.

Se uma personalidade recebe cachê por campanhas publicitárias, nada mais justo que grupos vulneráveis sejam recompensados por cederem licença pela exposição de sua cultura.

No Chile o fenômeno não é diferente. A arte gráfica da Copa América 2015 era repleta de temas mapuches, grupo até hoje influente no sul do Chile e que inspirou a fundação do principal clube de futebol do país, o Colo Colo, nome de um líder da etnia. No entanto, os meios de comunicação do país pouco falam das demandas do povo originário mais resistente da América austral. Apenas o tumulto provocado por alguns dos seus manifestantes ganham notoriedade, e não as causas defendidas. A problematização acerca das hidrelétricas construídas no sul da região da Araucanía só ganha espaço em veículos alternativos ou na imprensa internacional.
Design com temas mapuches

Hoje completam 76 anos do Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, no México. A data comemorativa foi criada no Brasil três anos depois, em 1943, pelo então presidente Getúlio Vargas. O dia de hoje, a meu ver, não é de festa. Não é de publicar foto com figurino indigenista ou de apenas reconhecer a importância do aporte cultural ao país. Hoje é dia de discussão. É dia de perguntar aos indígenas o que eles querem. Esta postagem é uma reflexão minha sobre a data. Espero aportar mais às causas justas e discutir mais sobre o tema durante todo o ano.

*Eu usei o termo "indígena", e não "índio" durante toda a postagem porque é o termo mais politicamente correto aqui no Chile, onde moro há um ano e oito meses. "Índio" soa pejorativo.