terça-feira, 19 de abril de 2016

Compromisso com os indígenas

Foto: Ueslei Marcelino, Reuters
As culturas indígenas têm mais aceitação popular do que as demandas dos povos indígenas. Restaurantes peruanos são um sucesso em todo o Chile. Muitos dos que desfrutam dos sabores oriundos da civilização Inca, no entanto, se vangloriam dos colonos que trouxeram “progresso” ao continente à custa de milhões de mortes de pessoas que já habitavam estas terras antes da chegada
dos europeus.

Dá a impressão que os países sul-americanos não tinham apenas sede de independência no Século XIX. Havia também necessidade de uma busca por identidade nacional. De se distinguir de suas ex-metrópoloes, afinal de contas, suas elites eram formadas basicamente por brancos tal como os habitantes da Península Ibérica. Talvez por isso a literatura brasileira desde muito cedo tentou incluir elementos não-portugueses, a exemplo da obra “O Guarani”, de José de Alencar.

Até os dias de hoje há captação de “recursos genuinamente brasileiros” em prol do que eu interpreto como “vaidade regionalista”. Dar visibilidade às manifestações culturais das minorias é muito importante, mas não ajuda a combater o racismo quando o intuito é apenas fazer uma elite se distinguir dos seus primos portugueses e espanhóis. Apropriou-se das culturas indígenas sem ajudar a fortalecer as demandas dos seus povos. 
Jogadores de rugby do Brasil - Foto: Gaspar Nóbrega

Quando o rugby brasileiro decide apelidar sua seleção de “Tupis” e confecciona seus uniformes com temas que remontam a esse povo, deveria também assumir um compromisso forte com sua comunidade. A federação desse esporte poderia se posicionar a favor das cotas raciais e angariar fundos para as populações de áreas interditadas pela Funai, que podem carecer de recursos. Isso seria o mínimo.

Se uma personalidade recebe cachê por campanhas publicitárias, nada mais justo que grupos vulneráveis sejam recompensados por cederem licença pela exposição de sua cultura.

No Chile o fenômeno não é diferente. A arte gráfica da Copa América 2015 era repleta de temas mapuches, grupo até hoje influente no sul do Chile e que inspirou a fundação do principal clube de futebol do país, o Colo Colo, nome de um líder da etnia. No entanto, os meios de comunicação do país pouco falam das demandas do povo originário mais resistente da América austral. Apenas o tumulto provocado por alguns dos seus manifestantes ganham notoriedade, e não as causas defendidas. A problematização acerca das hidrelétricas construídas no sul da região da Araucanía só ganha espaço em veículos alternativos ou na imprensa internacional.
Design com temas mapuches

Hoje completam 76 anos do Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, no México. A data comemorativa foi criada no Brasil três anos depois, em 1943, pelo então presidente Getúlio Vargas. O dia de hoje, a meu ver, não é de festa. Não é de publicar foto com figurino indigenista ou de apenas reconhecer a importância do aporte cultural ao país. Hoje é dia de discussão. É dia de perguntar aos indígenas o que eles querem. Esta postagem é uma reflexão minha sobre a data. Espero aportar mais às causas justas e discutir mais sobre o tema durante todo o ano.

*Eu usei o termo "indígena", e não "índio" durante toda a postagem porque é o termo mais politicamente correto aqui no Chile, onde moro há um ano e oito meses. "Índio" soa pejorativo. 

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Ouvir primeiro, falar depois

O primeiro passo para se reconstruir é admitir os privilégios. A hashtag #meuamigosecreto no Facebook trouxe uma série de denúncias de mulheres contra o machismo e mea culpa de homens. Assumir um compromisso público com a reconstrução está adequado para esse grande momento que vive a rede social desde ontem. Qualquer outro posicionamento é falta de empatia, principalmente vindo de um homem.

Não é coincidência que a maioria dos grandes artistas, filósofos e políticos da história são homens. As coisas não estão equilibradas, e enquanto não estiverem equilibradas homens devem se preocupar mais em ouvir do que em falar. Já falamos muito durante milênios, desde o advento da escrita. A cicuta tragada por Sócrates matou o filósofo, não suas ideias. Nicolau Copérnico e Galileu Galilei tiveram corpos queimados, mas seus legados estão intactos. Homens alcançaram a eternidade mesmo morrendo, mulheres foram impedidas de nascer para a filosofia e para as ciências. 

Mulheres são julgadas por saírem sozinhas até nos dias atuais, imagine então levar ideias para tão longe quando pessoas eram queimadas na fogueira por parecerem “estranhas”. Não é à toa que há pouquíssimas bandas com guitarristas, baixistas ou bateristas mulheres. Para muitos homens, inclusive muito próximos de mim, mulher não deve “chamar atenção”, imagine viajar por aí tocando em uma cidade diferente a cada dia.

Há um dito que diz que temos dois ouvidos e uma boca para que possamos ouvir mais do que falar. Em momentos como o atual, é hora de escutar o que elas dizem sem nenhuma vírgula de ponderação. “Ah, mas tem muita hipocrisia no que muitas dizem” ou “nem todo homem é assim”: essa não é a hora de ser corporativista, é hora de se informar melhor. Eu sei o quanto posso melhorar em diversos aspectos. Lutarei todos os dias para ser uma pessoa melhor, e durante essa caminhada não deixarei de estudar, ouvir e ler mais do que supor, falar e escrever sobre o que não sei. 

Obs: Feminismo não é o oposto de machismo. Leia mais (apenas dois links que achei numa busca rápida pelo Google. Há muito informação na internet, é só buscar):

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Ser baiano

Foto: Lucas Franco
A Lavagem do Bonfim, na minha opinião, é o maior exemplo da idiossincrasia do baiano. Os abraços entre representantes do Candomblé e da Igreja Católica são símbolo de resistência em um mundo cada vez mais intolerante. Ao longo do tempo, porém, os baianos resistiram de todas as maneiras, indo à luta ou sorrindo, lutando pela independência do país ou transformando arte em protesto contra a ditadura militar.

Eu sou essa mistura. Todas as vezes em que saí do meu berço eu senti o quão especial é a cidade em que nasci. Mesmo com todos os seus problemas, o sorriso segue sendo a principal ferramenta de resistência dos soteropolitanos. Porque o baiano médio não perde as esperanças, mesmo quando liga a televisão e constata mais uma tragédia. Em uma cidade tão turbulenta como Salvador, é um milagre que seus habitantes sejam tão hospitaleiros. O baiano não sorri porque está conformado. Mas a vida não espera para que tudo se resolva e o baiano não se acomoda. Se não é possível ensaiar sua luta em público, se dança. Na falta de todos os ingredientes para a comida, capricha no quiabo. Mas nada de se submeter a professar uma fé que não seja a sua, mesmo que aparentemente demonstre submissão. A resistência do baiano é inteligente, brava e corajosa. A capoeira, o caruru e o Candomblé são símbolos da nossa cultura que resistiram depois de muita luta. Se não fosse essa luta, a cultura africana não teria sobrevivido, como não sobreviveu em muitos cantos do continente.

Ao contrário do que conta a história tradicional, a independência do Brasil foi conquistada com muito derramamento de sangue, assim como nos países vizinhos. Hospitaleiros sim, “pero sin perder la ‘dureza’ jamás”. A verdadeira libertação do país, em 2 de Julho de 1823, só aconteceu porque muita gente lutou antes dessa data. E seguiu lutando depois por outras tantas conquistas. Baiano nunca teve tempo para ter preguiça. 

Esse 2 de Julho tem um gosto um pouco amargo. Ontem, o presidente da câmara dos deputados, eduardo cunha, em uma manobra anticonstitucional, conseguiu aprovar proposta para diminuir a maioridade penal de 18 para 16 anos no Brasil. “Com tiranos não combinam brasileiros corações”, consta em uma parte do hino à independência. Mas quer saber de uma? Nada nunca foi fácil e a luta continua. Muitos sóis a Dois de Julhos hão de surgir, brilhando cada vez mais a cada conquista. Parabéns Bahia, parabéns Brasil!

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Obrigado, queridos professores de história

Zumbi dos Palmares - Imagem: Divulgação
Eu não poderia passar o 20 de novembro, dia da consciência negra, sem lembrar os meus professores de história dos tempos de colégio, especialmente Sérgio Guerra (sexta-série), o meu favorito, que despertou minha curiosidade sobre a cultura afro-brasileira e principalmente, sobre o Curuzu, como escrevi em uma postagem no início do ano. 

Ser professor no Brasil não é fácil. Não é de hoje que a educação pública está sucateada. No entanto, sugiro que também não são pequenas as dificuldades de lecionar história em um colégio privado. Narrar a trajetória do ser humano a partir do advento da escrita até os dias atuais é duro quando boa parte da sala de aula cultiva mitos enraizados pela família, que geralmente é de classe média, e pela televisão, tão pouco democrática. A educação de casa custa a envergar para a esquerda, não é a toa que nesse ambiente as cotas são mais questionadas do que o cruel sistema de vestibular. Afinal, quem estuda em colégios como Portinari, Anchieta, Sartre COC e Oficina larga na frente dos cotistas antes de preencher os primeiros gabaritos. Costumo dizer que a educação privada continuará bem até o dia em que os pais dos alunos influenciarem a escolha dos professores de história. Se a educação pública precisa urgentemente de investimentos, a particular “se salva” porque seus professores de esquerda mostram aos alunos que o mundo não começou com a gestação de suas mães. Meus pais, felizmente, facilitaram meu caminho simbólico rumo ao Curuzu, por isso 20 de novembro também é dia de agradecer a eles. 

Obrigado Garrido (terceiro ano do ensino médio), por revelar que Duque de Caxias matou inúmeros paraguaios apenas por maldade. O patriotismo não deve se sobrepor à decência. Chico Pedro, meu único professor negro de história (quinta série), você tem total mérito por me fazer gostar da matéria que leciona com tanto amor. Fábio Machado (sétima séria), até hoje me lembro da trajetória das primeiras civilizações do Oriente Médio e Europa porque suas aulas eram mais dinâmicas do que qualquer documentário ou livro escolar. Freitas (oitava série e primeiro ano do ensino médio), lamento que não estejas em nosso plano material, mas aí do alto saiba o quão fundamental suas aulas foram para que eu fizesse um paralelo entre episódios do passado e o comportamento social moderno. João Gualberto (segundo ano do ensino médio), suas críticas à alguns setores da imprensa me tornaram um leitor mais crítico. Parabéns pelo bom exemplo Zé Carlos (cursinho), pois você tinha motivos para ser amargurado, mas manteve seu sorriso, cordialidade e capacidade de descrição, apesar das torturas que sofreu durante a ditadura militar. Todos esses professores tiveram enorme importância na formação de meu caráter por seus inúmeros ensinamentos. Mas é principalmente Sérgio Guerra que me faz lembrar o 20 de novembro. Ele provou o quão pouco baianos são os estudantes de colégio particular (leia minha postagem “Where is the 'dendê' in my blood?”). Como bom docente, porém, mostrou os caminhos para a “baianização”. Nem tudo estava perdido.

Dia desses me peguei pensando sobre de quem é a responsabilidade sobre o alarmante índice de crimes cometidos pela polícia, sejam mortes em tiroteio nas favelas ou abuso de autoridade. Os números são altos e há uma evidente diferença no tratamento dado a um jovem branco e um jovem negro, o que inclusive já foi admitido (PM de Campinas determina abordagem de suspeitos de ‘cor parda e negra’). Não reconhecer essa triste realidade, em que receptividade, oportunidades e traços étnicos estão inter-relacionados, a meu ver, já torna uma pessoa cúmplice do racismo, seja por maldade, omissão ou ingenuidade. Os mesmos pais que não ensinam a importância de Zumbi dos Palmares para suas crianças só se atentam para a violência urbana quando são assaltados na porta do colégio (Após assalto em escola na Pituba, pais protestam para pedir segurança). Na mesma cidade, todavia, a violência da polícia para “manter a ordem” vitimiza gente que só é lembrada quando para o trânsito para queimar pneu e chamar atenção sobre a violência. Se a indignação pela violência fosse compartilhada por todos, independentemente do bairro, não teríamos no mínimo uma sociedade mais solidária? Ou solidariedade se restringe aos vizinhos? Não foi apenas a maldade, mas também a falta de solidariedade que fez o Brasil amargar mais de 300 anos de escravidão. Falta de solidariedade que permanece nos dias atuais.

O racismo brasileiro é “sutil”. Disfarça-se de “humor politicamente incorreto” e “meritocracia”. Quase justificado pelo conceito de predestinação de João Calvino. Uma prova de que é fácil ser conservador quando “a vontade de Deus” te favorece. O racismo também está em desqualificar o cabelo crespo, o candomblé e a cultura afro-brasileira em geral. Não me surpreende que venha de Marcos Feliciano a manutenção da idéia de que “a África é um continente amaldiçoado”. O racismo consegue juntar descriminação racial e intolerância religiosa no mesmo discurso, e choca menos a sociedade do que um beijo gay na novela. Em ambientes “conservadores”, questionar pode ser “enxergar racismo em tudo”. É por isso que eu digo e repito: obrigado professores de história. Vocês me deram as ferramentas necessárias para melhorar o mundo. Depende de mim colocar em prática todos os dias, seja em Salvador ou aqui na Patagônia, onde vivo há três meses. 

* Por tanto gostar de história e entender a importância das lembranças de datas, estátuas e nomes de lugares (continentes, países, estados, cidades, bairros e ruas), eu imaginei como seria bom se...

- o 20 de novembro, data de morte de Zumbi dos Palmares, fosse um feriado de 4 dias e as famílias pudessem viajar para celebrarem juntas, como no natal, com tardes de caruru e noites de maracatu, capoeira e tudo que lembre a cultura afro-brasileira.

- as estátuas de Duque de Caxias fossem arrancadas como as de Saddam Hussein no Iraque após invasão estado-unidense ou as de Franco na Espanha após a ditadura no país ibérico. Não estou comparando os personagens, mas as atrocidades cometidas pela guerra, que não deveriam ser orgulho para ninguém.

- o continente em que vivemos deixasse de se chamar América, e a Colômbia também ganhasse outro nome. Afinal, Américo Vespúcio e Cristóvão Colombo não merecem mais essa homenagem do que nossos libertadores.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Torcedores do Huachipato na Patagônia já planejam ver final 'in loco'

Torcedores do Huachipato em Punta Arenas / Divulgação
A derrota no Morumbi por 1 a 0 para o São Paulo, pelas oitavas da Sul-Americana, não intimidou os torcedores do Huachipato, espalhados por todo Chile, inclusive na longínqua Patagônia. Mesmo sem poder acompanhar de perto o time nesta quarta-feira (15), às 19h30, no estádio CAP, dois apaixonados pelo único representante do Chile no torneio já estão pensando em assistir de perto a decisão pelo título, que se depender do otimismo andino, será no mesmo estádio da partida de mais tarde, a 2.607 km da cidade em que moram.

Conhecido no Brasil após surpreendente vitória em Porto Alegre contra o Grêmio, na estreia da Libertadores de 2013, o clube chileno está sedeado em Talcahuano. Apesar de se localizar no sul do país, a cidade do adversário do tricolor está mais próxima da capital Santiago (522 km) do que da cidade mais austral do Chile, Punta Arenas, o que não impede Rodrigo Aguilera de procurar outros torcedores no maior centro urbano da Patagônia Chilena. "Não sei quantos torcedores do Huachipato têm em Punta Arenas, mas têm, e estou tentando juntá-los para formar a 'Barra Austral' de Huachipato", comenta Aguilera, que já se prepara para um inédito título internacional. "Estarei contra o vento e a maré. Tenho um lugar reservado no estádio. Não há alegria maior do que ser campeão. Vou com meus filhos, que são 'acereros' (apelido dado aos torcedores da equipe) como o pai", completa.

Um dos amigos de Rodrigo que compartilham da mesma predileção clubística em Punta Arenas é Gabriel Pincheira. Apesar de se dizer consciente das dificuldades de enfrentar o São Paulo, o sonho da final alimenta suas expectativas. "Espero que Huachipato fique de pé depois do jogo no Brasil. Agora a partida é no Chile e somos donos da casa. Se chegar na final, claro que irei e com certeza isso acontecerá e seremos campeões. Temos time e vontade", profetiza Gabriel.

Paixão antiga

Por influência do pai, Gabriel Pincheira se tornou torcedor da equipe de Talcahuano, mesmo se afastando da sua cidade natal ainda na infância e sem nunca ter sido frequentador de estádio. "Infelizmente não podíamos ir ao estádio por problemas financeiros e porque vivíamos em um povoado chamado Ercilla. Agora que vivemos em Punta Arenas, as únicas formas de ver os jogos são por rádio ou TV. O único problema é que quase sempre é por rádio, porque as equipes de província não tem muita cobertura. Só se foca nas equipes de Santiago", questiona.

Assim como para Gabriel, o amor clubístico nasceu na infância também para Rodrigo. "Eu cresci vendo o Huachipato no estádio. Meus amigos e vizinhos também apoiavam a equipe, que estava na Compañia de Acero del Pacifico - Companhia de Aço do Pacífico (CAP), onde trabalhavam os pais e vizinhos em Higueras (região residencial de Talcahuano). Dessa forma o vínculo com o clube estava presente em todo momento. Eu queria trabalhar no Huachipato", relembra Rodrigo.

"Era um ponto de reunião das famílias do setor de Higueras e arredores, e além do futebol se praticavam muitos esportes, como hockey, tênis, atletismo, patinação artística, etc. Entre as atividades que mais atraiam a comunidade estavam as festas de fim de ano, onde se realizavam apresentações de contos e voluntários de colégios participavam. Essa tradição se perdeu com o tempo, mas marcou muitas crianças da época", completa Rodrigo.

O vendedor do confronto entre Huachipato e São Paulo enfrenta Emelec do Equador ou Goiás pelas quartas da Copa Sul-Americana. No primeiro jogo, a equipe equatoriana venceu por 1 a 0 dentro de casa, e a partida de volta acontecerá nesta quarta-feira (15), às 22h, no Estádio Serra Dourada, em Goiânia. Para passar pelo Huachipato, o São Paulo pode empatar ou perder por até um gol de diferença, desde que faça pelo menos um gol. Uma eventual vitória de 1 a 0 da equipe chilena leva a decisão da vaga para as quartas para os pênaltis.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A verdadeira revolução vem do amor

Fotos: Divulgação
Quem vencer a eleição presidencial não terá vida fácil a partir de primeiro de janeiro de 2015. Precisará de muita paciência para lidar com a Câmara. Entre as instâncias políticas, enxergo o parlamento como a mais apta a conquistar melhorias ao país, mas a vitória de tantos candidatos que exalam ódio através do discurso pouco ajudará Dilma Rousseff ou Aécio Neves. Temas importantes deixarão de ser discutidos com a configuração atual. No meu ponto de vista, todavia, a verdadeira revolução não vem do legislativo. Tampouco do executivo, judiciário, do Ministério Público, da Polícia Federal ou da democratização dos meios de comunicação.

A verdadeira revolução brota do lado esquerdo do peito de todos os brasileiros, e não há equívocos eleitorais que não possam ser corrigidos com amor. Como já escrevi em outras postagens, prefiro um político “suspeito” sob pressão do que um acomodado ao cargo que tenha boa índole. O que dizer então de um congresso pressionado por uma população com sentimentos nobres?

Foto: Mark Blinch/Reuters


O amor não é tudo, mas não há nada sem o amor. A humildade de reconhecer que não entende tanto sobre um assunto ao invés de opinar sobre o que não sabe consiste em ter coragem e amor próprio. Ninguém sabe de tudo, tampouco precisa ostentar conhecimento, que deveria ser uma dádiva a ser repartida, e não uma joia rara que causa cobiça. O mundo seria um lugar melhor se informações fossem checadas antes de serem compartilhadas no Facebook, mas se os feeds de notícias continuam com a difusão dos sentimentos menos nobres, talvez seja a hora de responder essas postagens com amor, e não com mais agressões.

Muitas transformações sociais foram conquistadas com derramamento de sangue. Todas as ex-colônias do mundo se tornaram independentes através de conflitos armados, com exceção da Índia. Intolerância religiosa, homofobia e racismo já precisaram ser combatidos com a força. Figuras emblemáticas como Maria Quitéria e Nelson Mandela hoje são reconhecidas por gente de variadas predileções partidárias, mas precisaram pegar em armas para alcançarem seus nobres objetivos. No entanto, elxs pegaram em armas para que nós, nos dias de hoje, não precisássemos atacar uns aos outros. O Twitter com seu disparo de 140 caracteres e o Facebook com memes atômicos não deveriam ser as ferramentas da nossa revolução. São armas que, usadas dessa maneira, nos levam a matar uns aos outros.

Imagem: Divulgação


Ironias, acusações sem prova e adjetivações mesquinhas, que variam de petralha a coxinha, não são engraçadas. A escolha do candidato se dá pela convicção de que o país estará melhor em suas mãos e esse tipo de humor vai contra essa ideologia. O Brasil não pode ser um bom lugar para se viver dessa forma.

#tolerância #respeito #amor #PazNoFacebook #PazNoTwitter

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Inocentes, mas sabem de tudo

Neymar realiza sonho de criança sul-africana de conhecer jogadores brasileiros l Foto: Agência AP
A inocência, não necessariamente, se opõe à sabedoria. Tampouco a sabedoria está necessariamente ligada às primaveras vividas. Fui incumbido dessa reflexão após uma tarde sendo “tio” de três garotinhos chilenos que, ao constatarem minha nacionalidade, ressaltaram de imediato o talento dos jogadores brasileiro ao invés de mencionarem os 7 a 1 sofridos pela Seleção no mundial, ou até mesmo os problemas sociais do Brasil, como geralmente citam os que “não sabem de nada”. 


Ao passear pelas ruas e observar o baba (ou “pichanga”, como se chamam as partidas de futebol informais aqui no Chile), perguntei se poderia brincar também. Nada mal para uma tarde de frio em Puerto Natales, cidade em que estou vivendo há duas semanas. Meu sotaque denuncia minha “estrangeirice” e naturalmente a pergunta pelo meu país de origem veio antes de a bola rolar. “Brasil”, eu disse, para em seguida ouvir um “ohhhhhhh, você conhece Neymar?”. Sim, eu conheço Neymar, assim como Marcelo, Oscar, Willian e David Luiz. Todos eles me representam, mesmo nos tempos de cólera em que o futebol historicamente sempre resistiu. 


Para essas crianças, aparentemente na faixa de 10 a 12 anos, os cabeludos da Seleção Brasileira eram os maiores expoentes de uma nação de 200 milhões. Sem dúvida, responsáveis pela boa imagem que muita gente do mundo todo tem de nossa pátria amada, coisa que nenhuma goleada da Alemanha irá nos tirar. Para esses apaixonados por futebol, Neymar e companhia não são culpados pelas mazelas do país. E de fato, não são mesmo. Sabem de tudo essas crianças, que não foram contaminadas pela ingenuidade (ou seria maldade?) dos partidaristas brasileiros, que com insultos de “reaça” ou “petralha” aos adversários, acham que lutam por um país melhor. Esses, como diria Cumpadi Washington, “não sabem de nada”.


Bom senso e cordialidade são artigos em extinção nas redes sociais nos meses que antecedem uma eleição. Acusações de conspiração pela morte de candidato, informações falsas, editadas em paint e sem fonte sendo compartilhadas por milhares (ou até milhões) de usuários no Facebook e a banalização da violência com memes insinuativos fazem o futebol, um dos maiores expoentes na formação da cultura brasileira do Século XX, ser tratado como pão e circo. Coisa de “povo”, de gente imatura, de vagabundo, de parasita do governo que vive de “bolsa esmola”. Porque para transparecer seriedade e credibilidade, a ideia é agredir uma senhora que lutou pela liberdade durante a ditadura militar, que foi torturada e que chegou à presidência de forma democrática (por mais questionável que seja a democracia do país, como vou citar no parágrafo abaixo). Ou, do lado oposto, fazer chacota com o suposto consumo de drogas de dois candidatos, inclusive com trocadilho entre o sobrenome de um deles e a cocaína, enquanto estas mesmas pessoas se dizem abertas a debater a descriminalização das drogas e o tratamento dado pelo Estado aos dependentes químicos.

Pior do que o mal gosto dos memes é que muita gente os leva a sério

Após as manifestações de junho de 2013, escrevi em uma postagem no blog que eu prefiro um político que não inspire confiança sendo pressionado pela população a um político honesto na zona de conforto. O mesmo vale para as eleições de 2014: independentemente de quem ganhe, é a pressão popular que dará as diretrizes. Político não vive sem voto, principalmente em um modelo em que a imagem e as palavras fáceis valem mais do que o rompimento com heranças seculares e implementação de projetos de longo prazo, que durem mais do que quatro anos. Afinal, quem é escolhido pelo voto popular precisa mostrar serviço, e não dá para ser marqueteiro se seu adversário político conclui seu projeto. Nesse ponto, a democracia brasileira é frágil. O dom da oratória é mais precioso do que o conhecimento técnico. O carisma vale mais do que as ideias.


Uma população conservadora que exige implementação da pena de morte, redução da maioridade penal e maior rigor da polícia militar, infelizmente, terá seus desejos realizados por quem quer que seja eleito, se a tendência for a expansão dessas ideias. Sem reforma política e sem um modelo com financiamento público de campanha, os mesmos grupos (bancos, empresas de construção civil...) interessados em eleger seus líderes devem manter a injeção de dinheiro nos seus candidatos “favoritos” e pautarão os programas de governo, que precisam de “aval” da população. 


O autoritarismo cresce a partir do imediatismo, da sede de fazer justiça com as próprias mãos usando como pretexto a negligência do estado, mas sem combater o problema na raiz e sem medir as consequências que essas medidas acarretarão. O olho por olho, dente por dente, é alimentado diariamente pela TV aberta e rádio, que são os veículos de comunicação muito populares e pouco educativos. A violência policial mata muito, principalmente jovens negros e da periferia, muito diferentes das apresentadoras loiras de telejornal que legitimam linchamentos ou de parlamentares brancos que tratam um livro escrito há mais de mil anos como constituição ( a mais recente do Brasil data de 1988).  


O Brasil, com todos os seus defeitos, provoca brilho nos olhos de muitos estrangeiros, inclusive muitos inocentes como as crianças chilenas que conheci. Esse olhar positivo não aliena e não machuca. Tampouco cura feridas. Mas pode ajudar a compreender como se chegou aos dias de hoje, e o que pode ser feito por dias melhores. Aceitar primeiro. Agir depois. A meditação ensina muito sobre ter “timing” e não agir por impulso. E o futebol, como todos os esportes, ensinam valores lindos. Ao menos nos gramados a regra é clara e Neymar perdoa Zúñiga, que não cometeu nenhum crime, com um abraço. O ódio, quando se infiltra no futebol, geralmente vêm das arquibancadas, como as ameaças ao lateral colombiano nas redes sociais, talvez inspirados pela onda de “linchamento”. Por um país com mais Neymares e menos usuários raivosos e inconsequentes no Facebook.