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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

China, dinheiro e futebol: uma nefasta combinação

Foto: CCTV
O mais popular esporte do planeta corre perigo. O futebol, como conhecemos hoje no Brasil com a pronúncia de “futibóu” e que por essas bandas já se chamou “football”, vai precisar se reinventar muito para sobreviver às novas investidas da China. Não que este seja o primeiro desafio. A descrença no jogo já havia sido repercutida em 1920 pelo escritor Graciliano Ramos, que em artigo ao jornal alagoano “O Índio” cravou que “estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho. O futebol, o boxe, o turfe [corrida de cavalos], nada pega”. Pegou e “abrasileirou-se”. Nos anos 2010, é justamente a versão brasileira do jogo que tem chamado a atenção do outro lado do mundo. Era preferível a descrença do Século XX à obsessiva “admiração” dos orientais. 

Não é novidade que grandes clubes de outros continentes contratem estrelas sul-americanas. O que é novidade é a saída até de jogadores medianos por cifras inimagináveis, o que tem enfraquecido as ligas do continente e as disputas intercontinentais de clubes. O êxodo para a Europa pelo menos agraciava o fã do esporte com a formação de “dream teams” multiétnicos, o que ao longo do tempo deixou inúmeros legados. Do Real Madrid de Puskas e Di Stefano ao Barcelona de Messi, Suárez e Neymar. No entanto, quando os leilões por jogadores não deixam legado algum, o sinal de alerta deve ser acionado no mundo da bola.

Para entender o quão nefasta é a combinação China, dinheiro e futebol, é preciso entender o tamanho do país asiático no cenário. Participante de apenas uma edição de Copa do Mundo, em 2002 (três derrotas, 9 gols sofridos e nenhum marcado), e sem títulos em torneios continentais com a seleção principal, seus clubes venceram apenas três das 35 edições de Liga dos Campeões Asiáticos disputadas. Dos 14 jogadores que estiveram em campo no último jogo da seleção chinesa, em novembro do ano passado, empate sem gols e dentro de casa contra o Catar, pelas eliminatórias da Copa, apenas um atuava fora do país, o atacante Zhang Yuning, reserva do holandês Vitesse (nem sempre é relacionado para jogar). O Vitesse, que tem parceria com o Chelsea desde 2010, é o oitavo colocado na modesta Eredivisie, que conta com 18 times. Dezessete rodadas já foram disputadas e Yuning marcou apenas um gol.

Treinada pelo italiano Marcello Lippi (campeão europeu e mundial com a Juventus em 1995 e da Copa do Mundo com a Itália em 2006), a China é a lanterna do Grupo 1 das eliminatórias, com dois pontos em cinco jogos disputados, e está praticamente fora do mundial de 2018, na Rússia. Será muito difícil que as milionárias transações deixem algum legado se o nível dos jogadores locais continuar tão baixo, já que só é permitida a participação de quatro estrangeiros por equipe. Do ponto de vista tático, tampouco há boas perspectivas. Os treinadores, embora vitoriosos em outras épocas,  há muito tempo não fazem um bom trabalho, a exemplo de Luxemburgo (demitido em 2016 do Tianjin Quanjian, da segunda divisão), Scolari (após parcela de responsabilidade em rebaixamento do Palmeiras em 2012 e nos 7 a 1 do Brasil na Copa de 2014, foi contratado pelo Guangzhou Evergrande, onde está até hoje) e Mano Menezes (demitido esse ano do Shandong Luneng, o treinador perdeu prestígio após pedido de demissão inesperado do Flamengo em 2013, mas atualmente tenta juntar os cacos no Cruzeiro). 

A Chinese Super League foi a sexta liga com maior média de público do planeta em 2015, com 22.580 torcedores. A expectativa dos dirigentes é que a liga local se torne uma “Premier League Asiática”. Falta muito. As ligas japonesa e coreana contratam brasileiros de nível técnico mediano desde os anos 1990. Países do Oriente Médio também não poupam esforços. Não é coincidência que os clubes brasileiros precisem aumentar os preços dos seus produtos licenciados e ingressos e ainda assim passem por situação financeira difícil. O futebol, que chegou ao Brasil como um esporte de elite, se popularizou e em momento de inflacionamento de mercado deixa de encantar e de atrair as multidões. Está caro ir ao estádio e não é fácil para os clubes manterem a base com tamanho assédio da China, que no início de 2016 desfalcou o detentor do título brasileiro Corinthians com a transferência de quatro dos seus titulares. É hora de o futebol brasileiro se reinventar novamente e usar suas armas contra as investidas orientais. Se é que a China também não vai comprar as armas.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Torcedores do Huachipato na Patagônia já planejam ver final 'in loco'

Torcedores do Huachipato em Punta Arenas / Divulgação
A derrota no Morumbi por 1 a 0 para o São Paulo, pelas oitavas da Sul-Americana, não intimidou os torcedores do Huachipato, espalhados por todo Chile, inclusive na longínqua Patagônia. Mesmo sem poder acompanhar de perto o time nesta quarta-feira (15), às 19h30, no estádio CAP, dois apaixonados pelo único representante do Chile no torneio já estão pensando em assistir de perto a decisão pelo título, que se depender do otimismo andino, será no mesmo estádio da partida de mais tarde, a 2.607 km da cidade em que moram.

Conhecido no Brasil após surpreendente vitória em Porto Alegre contra o Grêmio, na estreia da Libertadores de 2013, o clube chileno está sedeado em Talcahuano. Apesar de se localizar no sul do país, a cidade do adversário do tricolor está mais próxima da capital Santiago (522 km) do que da cidade mais austral do Chile, Punta Arenas, o que não impede Rodrigo Aguilera de procurar outros torcedores no maior centro urbano da Patagônia Chilena. "Não sei quantos torcedores do Huachipato têm em Punta Arenas, mas têm, e estou tentando juntá-los para formar a 'Barra Austral' de Huachipato", comenta Aguilera, que já se prepara para um inédito título internacional. "Estarei contra o vento e a maré. Tenho um lugar reservado no estádio. Não há alegria maior do que ser campeão. Vou com meus filhos, que são 'acereros' (apelido dado aos torcedores da equipe) como o pai", completa.

Um dos amigos de Rodrigo que compartilham da mesma predileção clubística em Punta Arenas é Gabriel Pincheira. Apesar de se dizer consciente das dificuldades de enfrentar o São Paulo, o sonho da final alimenta suas expectativas. "Espero que Huachipato fique de pé depois do jogo no Brasil. Agora a partida é no Chile e somos donos da casa. Se chegar na final, claro que irei e com certeza isso acontecerá e seremos campeões. Temos time e vontade", profetiza Gabriel.

Paixão antiga

Por influência do pai, Gabriel Pincheira se tornou torcedor da equipe de Talcahuano, mesmo se afastando da sua cidade natal ainda na infância e sem nunca ter sido frequentador de estádio. "Infelizmente não podíamos ir ao estádio por problemas financeiros e porque vivíamos em um povoado chamado Ercilla. Agora que vivemos em Punta Arenas, as únicas formas de ver os jogos são por rádio ou TV. O único problema é que quase sempre é por rádio, porque as equipes de província não tem muita cobertura. Só se foca nas equipes de Santiago", questiona.

Assim como para Gabriel, o amor clubístico nasceu na infância também para Rodrigo. "Eu cresci vendo o Huachipato no estádio. Meus amigos e vizinhos também apoiavam a equipe, que estava na Compañia de Acero del Pacifico - Companhia de Aço do Pacífico (CAP), onde trabalhavam os pais e vizinhos em Higueras (região residencial de Talcahuano). Dessa forma o vínculo com o clube estava presente em todo momento. Eu queria trabalhar no Huachipato", relembra Rodrigo.

"Era um ponto de reunião das famílias do setor de Higueras e arredores, e além do futebol se praticavam muitos esportes, como hockey, tênis, atletismo, patinação artística, etc. Entre as atividades que mais atraiam a comunidade estavam as festas de fim de ano, onde se realizavam apresentações de contos e voluntários de colégios participavam. Essa tradição se perdeu com o tempo, mas marcou muitas crianças da época", completa Rodrigo.

O vendedor do confronto entre Huachipato e São Paulo enfrenta Emelec do Equador ou Goiás pelas quartas da Copa Sul-Americana. No primeiro jogo, a equipe equatoriana venceu por 1 a 0 dentro de casa, e a partida de volta acontecerá nesta quarta-feira (15), às 22h, no Estádio Serra Dourada, em Goiânia. Para passar pelo Huachipato, o São Paulo pode empatar ou perder por até um gol de diferença, desde que faça pelo menos um gol. Uma eventual vitória de 1 a 0 da equipe chilena leva a decisão da vaga para as quartas para os pênaltis.

sábado, 6 de setembro de 2014

Gol de Neymar, e não da Seleção

Neymar marca primeiro gol da "nova era Dunga" I Foto: AFP
 
O Brasil foi superior à Colômbia no jogo desta sexta-feira (5), nos Estados Unidos. A vitória de 1 a 0 em Miami foi merecida e contra um adversário que levava vantagem por ter a mesma base que foi sensação da Copa de 2014, enquanto os comandados de Dunga juntam os cacos da pior derrota da história do futebol do país.

Toda análise que ressalte o domínio verde e amarelo em campo, porém, não pode dispensar uma contextualização mais profunda sobre a estrutura precária do futebol brasileiro, tão discutida pelo Bom Senso F.C. O grupo de jogadores que remam contra a corrente da CBF questiona, por exemplo, o poder das federações estaduais, que com um sistema viciado de eleições, mantêm presidentes por décadas, além do esdrúxulo calendário, com tantas datas desnecessárias que mais servem para atender interesses políticos do que os anseios do torcedor. Não fosse a paixão, o Brasileirão já teria sido trocado pela Premier League.

Mas futebol não é um produto qualquer, não se vira a casaca como se opta por trocar de empresa de telefonia, embora quem não entenda de bola pouco se importe com estas distinções.

O gol do triunfo contra a Colômbia foi de Neymar, de falta. Ponto para o jogador que merecia estar mais bem acompanhado no scratch canarinho. As vezes me pergunto: será que dá para falar em “safra ruim” em um país de 200 milhões de habitantes, com tanta gente que pratica futebol? A falta de talento é fruto de um cenário corruptivo, com agentes Fifa com status de artista, transferências duvidosas para ligas longínquas e falta de esmero em peneirar e lapidar talentos, além de uma mentalidade retrógrada, de que por exemplo o primeiro volante não tem obrigação de ter um bom passe, o que faz a Seleção ter dificuldade para sair jogando com poucas opções no meio e um Luiz Gustavo limitado ao seu papel de marcador. A sede por resultados prejudica o trabalho das diretorias, sedentas por vitórias imediatas, e sepulta trabalhos de longo prazo como o do Palmeiras com o técnico argentino Ricardo Gareca, demitido nesta semana. Ainda que vença a Copa América, a Copa das Confederações e até a Copa do Mundo de 2018, o Brasil necessita de gols fora do campo, pelo bem do nosso futebol. 

A derrota para a Alemanha não foi um acidente, embora aquela equipe de Scolari, com todos os seus defeitos, não era mais frágil que Argélia e Gana. A campanha da atual campeã mundial foi irregular, com três empates no tempo normal, duas vitórias pelo placar mínimo e duas goleadas. O Brasil não poderia ser presa fácil, mas por muito tempo, a Seleção era como uma ilha de prosperidade em um mar de turbulência que historicamente é o Brasileirão e a vida dos clubes do país. Até hoje se discute, por exemplo, quem foi o campeão brasileiro de 1987, assim como a justiça na distribuição das cotas de televisão. Essas questões, enquanto não forem resolvidas, tornam a liga do país desinteressante para quem não torce por um clube do certame.

ESPN Brasil - 1 x 0 – ESPN Colômbia
 
Programa "Balón Dividido", da ESPN colombiana I Imagem: Reprodução

Nessa primeira semana morando no Chile, tenho assistido muitos canais de esporte, e alguns deles reservam quadros específicos para cada país do continente, como a ESPN, que tem os programas Balón Dividido, para colombianos, e Simplemente Fútbol, para argentinos. Diferente da ESPN Brasil, os comentaristas mais parecem torcedores com paletó.
 
A repórter colombiana, antes de entrevistar Falcao Garcia na saída da equipe do estádio de Miami, chegou a agradecer ao jogador por seu desempenho pela seleção e ressaltou a falta que ele fez no mundial, antes de fazer uma pergunta chapa branca sobre sua ida ao Manchester United. Os três comentaristas insistiam na ideia de que não era preciso se preocupar com a derrota para o Brasil porque se tratava apenas de um amistoso e que apoiarão “Los Cafeteros” na vitória e na derrota. São nessas horas que eu sinto falta de um Mauro Cezar Pereira. Não é possível que as ESPN colombiana e argentina sejam tão diferentes da brasileira, que se destaca no país justamente pela independência.

Procurei no site da ESPN Brasil e só vi uma coluna opinativa sobre o jogo desta sexta-feira (5). Foi de André Rocha, que embora não apareça na TV, tem no blog “Olho Tático” uma ferramenta muito acessada pelos apreciadores do bom jornalismo. O “complexo de vira-lata” não é tão simples de ser combatido, principalmente em um momento turbulento que vive o país, com as eleições pegando fogo e com a auto-estima do brasileiro fragilizada pelos 7 a 1, depois de tanta aproximação entre povo e jogadores. Muita gente contrária à realização do mundial no país abraçou os comandados de Scolari. Mas no quesito jornalismo esportivo, ou mais estritamente, no quesito ESPN, posso dizer que o Brasil vence ao menos os países vizinhos.

Basquete
 
Seleção Brasileira de Basquete I Foto: Getty Images

Neste domingo (7), às 17h (de Brasília), outra Seleção Brasileira vai precisar muito de seu apoio. Longe de alcançar a popularidade do futebol, o basquete do país passa por reformulação desde 2010, quando o treinador argentino Ruben Magnano, campeão com a Argentina na Olimpíada de 2004, assumiu a equipe verde e amarela para fortalecê-la e torná-la competitiva até os Jogos Olímpicos de 2016, que acontecerão no Rio de Janeiro. A adversária das oitavas da Copa do Mundo, que é realizada na Espanha, é nada menos que... a Argentina, nossa algoz na modalidade. Como estou distante e não tenho compromissos jornalísticos, envio daqui da Patagônia toda a energia para os meninos de Magnano. Os brasileiros, é claro.
 
Bahia
 
Bahia eliminou o Internacional da Copa Sul-Americana I Foto: Ricardo Duarte/Ag. RBS/Folhapress

O Esquadrão de Aço conseguiu classificação para a fase internacional da Copa Sul-Americana. Enfrentará o vencedor de Universitario Sucre, da Bolívia, ou Universidad César Vallejo, do Perú. A mudança da tabela fez o Bahia evitar o confronto com Huachipato do Chile ou Universidad de Quito do Equador, equipes mais fortes. Então vai ser fácil para o Bahia, certo? Errado, pelo menos para um comentarista da Fox Sports (parecia ser argentino). Ao analisar o triunfo do tricolor sobre o Colorado, disse “o Bahia é um time pequeno como a Ponte Preta. Talvez não tão pequeno como a Ponte Preta, pelo menos nos últimos tempos”. Sou torcedor do Bahia e não vejo demérito em reconhecer o tamanho do clube.

É um time pequeno sim. Reconhecer isso ajuda, por exemplo, a se situar no cenário atual. Estar na zona de rebaixamento não é uma tragédia para um clube com menos bala na agulha que os grandes, tampouco motivo para o torcedor abandonar o time. O torcedor do Bahia é resultadista, não reconhece o momento histórico com a democratização e está cada vez mais parecido com o do Vitória nesse quesito, que anteriormente diferenciava os torcedores da dupla Ba-Vi. Na Inglaterra, vi jogos de times de terceira divisão com o estádio lotado, e nem valia acesso. Quando se gosta, se compreende. O torcedor do Bahia sofre muito porque a paixão não o deixa enxergar o seu verdadeiro tamanho. Boa sorte para Bahia e Vitória na Copa Sul-Americana. Estarei acompanhando os jogos na Fox latina.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

One month later 7-1

Photo: AP
Until today I have nightmare with a german goals in World Cup. The most difficult was the third goal, that who scored was Kroos. Then, I've stopped follow the match. It doesn't seem like yesterday. It seems that happened a thousand years ago, like old images of first world cup. It was a just one month ago.

In all this time between the brazilian deception and today a lot of things happened. Scolari is coach of other team (Grêmio), Globo (the most influent brazilian TV channel) want change the structure of national football and the "Seleção" (how us brazilian say our national team) have new schedule for 2014 with new coach, Dunga (the same coach of World Cup 2010). And it's the first time that I don't miss the World Cup atmosphere.

I lived great times here in Brazil of course. I worked hard as a reporter of brazilian website, mostly in day of matches in Salvador, my hometown and the city where I live. As a spectator, I was at the match Spain - 1 x 5 - Netherlands. But after july 8, all the World Cup songs became bad moments. It's impossible change the history: here for a long time, when people will search informations about World Cup 2014, the more important episode will be the 7-1.

I'm proud to be brazilian for many reasons. I like our accent, too different than portuguese accent. I like the easily to make friends and meet people here and the brazilian cooking and music. And I'm proud to be brazilian for football also, why not? When I was in Europe and people asked me "where are you from?" I answered "Brazil", and in the same moment football was mentioned. It will be the same after the 7-1?

Veja essa postagem em português (clique aqui)

1 mês dos 7 a 1

Até hoje tenho pesadelos com os gols da Alemanha. Especificamente, o mais doloroso foi o terceiro, de Kroos, que me fez parar de assistir à peleja. Ou seria um baba? Não parece que foi ontem. Parece ter sido há mil anos, com imagens registradas em tom pastel, com o amarelo desbotado da Seleção ofuscado pela vibrante camisa rubro do adversário. Foi há um mês.

Durante esse tempo muita coisa aconteceu. Scolari já tem um emprego, a Globo se diz interessada em estudar uma mudança na fórmula do Brasileirão e o scratch canarinho já tem agenda para o restante do ano, com Dunga no comando. E pela primeira vez eu não sinto saudade do clima de Copa.

Foram momentos maravilhosos aqui no Brasil, é claro. Trabalhei muito, principalmente nos dias de jogos em Salvador, assisti à reedição da Copa anterior e vi de perto cinco dos seis gols desse jogão entre Espanha e Holanda. E eu achando que o maior mico daquele mundial seria os 5 a 1 sofridos pela defensora do título. Mas aquele 8 de julho transformou as músicas da Copa em trilha sonora de más recordações. Não adianta. Quando daqui a alguns anos as pessoas se perguntarem sobre o fato marcante do mundial sediado no Brasil, a lembrança dos 7 a 1 será o primeiro episódio citado.

Eu tenho muito orgulho de ser brasileiro por muitos motivos. Gosto dos sotaques da gente, o que prova que subvertemos a língua do colonizador com classe. Me admiro pela facilidade que os brasileiros têm em fazer amizade, o que não torna os brasileiros melhores ou piores que os outros povos, mas faz sentir-me em casa aqui. Sou fã da culinária e comida que trazem influências índígena, africana e europeia. E também tenho orgulho de ser brasileiro pelo futebol que se pratica aqui, e nunca tive vergonha disso. Sempre fui reverenciado em estádios de futebol que visitei e nos babas em que joguei na Europa por ser brasileiro. No estádio do Leyton Orient, ao revelar minha nacionalidade, os seguranças sorriram e vibraram. Será que depois dos 7 a 1 as coisas mudarão?   

domingo, 6 de julho de 2014

A publicidade que mata

Torcidas juntas em dia de Argentina x Bósnia, no Maracanã, no dia 15 de junho - Foto: Agência EFE 
Embora não sejam favoritos absolutos a chegarem na final da Copa do Mundo, no domingo da semana que vem (dia 13), Brasil e Argentina geram a expectativa de formar a final mais esperada (e temida) pelos torcedores da equipe anfitriã. Já ouvi quem disse que preferia Alemanha x Holanda ao clássico sul-americano, para "não correr o risco de ver os hermanos campeões em casa". Rivalidades futebolísticas à parte, que são naturais e não precisam de campanhas para serem ampliadas, a coisa está passando do limite, e eu temo por uma onda de xenofobia, que não é típica do brasileiro.

A jornalista irlandesa Helen Joyce, que trabalhou no Brasil como correspondente do The Economist por três anos e meio, disse que o brasileiro geralmente trata bem os estrangeiros, mas deixa a cortesia de lado com os próprios conterrâneos de regiões mais pobres, como o Nordeste (o que é tão lamentável quanto). Características sociais são mutáveis e a publicidade, a meu ver, tem atiçado os ânimos entre brasileiros e argentinos, não é de hoje.

Já houve briga entre torcedores dos países vizinhos em Belo Horizonte no mês passado, com direito a garrafadas. Felizmente ninguém se feriu com gravidade. 


O conteúdo publicitário é absorvido de maneira diferente por cada pessoa. A autocrítica varia de telespectador para telespectador, e não acho que os publicitários que idealizam campanhas como as da Skol podem ser eximidos de responsabilidade pela selvageria que acontece dos dois lados. Há muitos argentinos também sem autocrítica, que sozinhos, em pequenos grupos ou protegidos pelas suas barra bravas (espécie de Torcida Organizada nos países vizinhos), vão para o confronto, mas como não conheço tanto o que se passa por lá, me atenho ao que acontece na América Lusófona. Já houve até jornalista esportivo que "vibrou" quando policiais no Estádio Independência, também na capital mineira, bateram nos jogadores do Arenal Sarandí no ano passado.


Se a agressividade natural (misturada ao álcool) já pode colocar em perigo torcedores dos dois lados, as campanhas publicitárias pouco ajudam a pensar em cortesia com o adversário, semelhante a de David Luiz com o colombiano James Rodríguez. A Coca-Cola fez um comercial mostrando a amistosidade entre brasileiros e chilenos.


Mas a mesma marca de refrigerantes lançou durante a Copa América de 2011, na Argentina, um comercial em que um portenho se infiltra na torcida verde e amarela e corre risco de ser agredido ao gritar um gol de sua equipe. 


Nelson Mandela, antes de se tornar presidente da República da África do Sul, ficou preso por 27 anos durante o apartheid. Ao ser solto, muitos brancos, descendentes de europeus que foram a favor da manutenção do regime que segregava negros e brancos, esperavam vingança do novo líder nacional. O que não aconteceu. "Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar", disse Mandela.

Em tempos de tratar como "chatice politicamente correta" reflexões como essa, eu penso que humor deve trazer graça. E eu não vejo graça na manutenção de uma ideia que só gera ódio, aprecia a trapaça para se conseguir triunfo a qualquer custo, corre o risco de sair da brincadeira e ameaça ceifar vidas. Não é engraçado ler uma notícia sobre uma briga, que é fruto do bombardeiro de informações para potencializar uma rivalidade que por si só já seria uma ameaça. Divertido mesmo é ir ao estádio e voltar são e salvo, com vitória ou derrota.

Obs: Recomendo a leitura dos artigos "Contra o antiargentinismo" (clique no título, que tem link que leva para a página), de Fernando Faro, e "Carta aberta às humoristas do Brasil", de Alex Castro. Ambos os textos abordam o tema da minha postagem acima. Toda xenofobia deve ser combatida. Brasil e Argentina não têm razões históricas do patamar de Brasil e Paraguai, que foi tema da minha postagem "Guerra do Paraguai nos olhos dos outros é refresco...", em 5 e agosto do ano passado. Apesar do conflito, a rivalidade entre brasileiros e paraguaios não é difundida nos meios de comunicação (ainda bem).

sábado, 5 de julho de 2014

Jogadores-torcedores & torcedores-justiceiros

Jogadores fazem símbolo do "É Thois" para Neymar - Foto: Divulgação
O Brasil jogou nesta sexta-feira (4) um Futebol maiúsculo. Eu não poderia deixar o triunfo diante da Colômbia passar sem uma postagem no meu blog. Após o apito final, em meio a gritos e abraços pela classificação às semi, eu já sabia o título: “Me sinto menos torcedor do que os jogadores”. Me emocionei, mas não tanto quanto eles, aqueles caras supostamente “cheios de dinheiro que não estão nem aí para resultados, porque continuarão ricos, ao contrário dos torcedores, pois esses sim amam futebol”. Quando escuto discursos como esse, passo a questionar se os murmuradores apenas enxergam a felicidade por via das cifras. Afinal, se é tão difícil imaginar que David Luiz e Thiago Silva, mesmo bem sucedidos, sentem emoção, é porque provavelmente se no lugar deles estivessem, os murmuradores nada sentiriam. Eles, os “chorões”, são a prova de que há vida além do dinheiro, e o dinheiro não compra a emoção de vencer uma partida em seu país, mesmo aos trancos e barrancos.

Foto: Uarlen Valerio / O Tempo
Em uma semana triste, com desabamento de um viaduto que matou duas pessoas e deixou 22 feridas em Belo Horizonte, o luto é aceitável. Eu particularmente passei a refletir o quão displicentes foram os “responsáveis” por essa obra (e tantas outras) e como o “jogo de empurra” esconde os envolvidos, assim como as oito mortes de operários nos estádios do mundial de 2014 (uma em Brasília, uma em Cuiabá, três em São Paulo e três em Manaus). Uma proteção covarde, que não recuperaria as vidas ceifadas sob concreto, mas poderia levar outras tantas tragédias a serem evitadas. A negligência se garante sob a impunidade.

Em meio a toda essa turbulência envolvendo tragédia em Belo Horizonte, cidade em que a Seleção enfrenta a Alemanha nesta terça-feira (8), e fim de Copa para o maior expoente da equipe anfitriã, Neymar, foi inevitável sair do futebol para entrar em um assunto tão sério quanto: o sentimento de ódio e vingança dos brasileiros, especialmente nos últimos anos, que foi tema da minha postagem “Somos tão cordiais assim?”, de 30 de junho. Tão sério quanto, porque futebol para mim é sério e não pode ser apontado como responsável pelas mazelas do país. Por si só, isolado, desperta paixões, o que seria suficiente para respeitá-lo, afinal, não há sentido na vida em sociedade sem suas simbologias e rituais, que pedem licença a razão. “Qual a graça de 22 homens correndo atrás de uma bola?”, se perguntam até hoje alguns, sem obterem resposta. Mas o futebol também diz muito sobre o dia-a-dia e "abre brechas" para os sentimentos menos nobres aflorarem, sob a mesma desculpa dos linchamentos de que a emoção ofuscaria o caráter. Mas não ofusca: revela.

Ouvi a notícia de que Neymar estaria fora da Copa no rádio, enquanto dirigia, no caminho para o aniversário de um amigo. A incredulidade tomou conta de mim, como apenas em momentos especiais do esporte. Morte de Senna, eliminações da Copa, rebaixamentos do Bahia e ataque de padre irlandês ao maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima na Olimpíada de 2004, na Grécia. Naquele momento um sentimento de “justiceiro” ameaçou se apossar de mim. A vontade era de escrever logo uma postagem com um título que fosse, no mínimo, “Vai ficar barato dona Fifa?”. Mas respirei fundo. Sabia da responsabilidade de escrever com os nervos à flor da pele, especialmente para mim, jornalista. Estava desacostumado a torcer pela Seleção na Copa. Digo, “torcer pra valer”, já que havia feito cobertura dos últimos três jogos do Brasil na Fan Fest de Salvador e no Pelourinho. Não é a mesma coisa assistir a um jogo com o compromisso de ser ágil na cobertura, repercutir para os leitores do site em que trabalho a atmosfera das aglomerações. 

Infelizmente, na mesma proporção em que Neymar recebe mensagens de solidariedade de pessoas do mundo todo (inclusive minha), brasileiros hostilizam o lateral-direito da Colômbia, Zúñiga, que quebrou uma vértebra do camisa 10 canarinho. As mensagens são pesadíssimas e há até ameaça de morte a ele e sua filha. Não recomendo a leitura para quem não tem estômago forte. A onda de linchamentos no Brasil, provocado sob a desculpa de substituir segurança pública e a justiça, dão outra característica ao brasileiro, descrito como cordial por Sérgio Buarque de Holanda. 

O suposto desequilíbrio emocional dos jogadores nos primeiros jogos da Copa parecem se refletir nas postagens de torcedores que não respiram fundo ou não pensam duas vezes antes de agredir Zúñiga nas redes sociais. E se foi maldade ou não, se merece punição ou foi lance normal do jogo, pouco importa. Me preocupa mais a hostilidade. Essa sim merece ser observada, mais do que qualquer entrada violenta em Neymar nesta Copa.




Foto: Reuters

Obs: Acho que Zúñiga, que também entrou forte em Hulk, deveria pegar um gancho grande pela imprudência, assim como a arbitragem que deixou o jogo correr dessa forma. Recomendo a leitura do post "O NACIONALISMO NAZISTA DO FUTEBOL BRASILEIRO", de Ariane Ferreira. Ganhando ou perdendo para a Alemanha na terça-feira (8) ou na final no domingo (8), estou muito orgulhoso dessa Seleção. Os jogadores estão fazendo o que podem, mas o time não foi bem preparado, o Brasil não tem por tradição manter uma base para dar continuidade a um projeto longo e Scolari, a meu ver, não criou um repertório rico de jogadas. O time chegou às semi pelo talento individual dos jogadores e apoio da torcida.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Na ‘Copa das Copas’, só a Seleção não se diverte

Capitão Thiago Silva chora nos braços de Scolari - Foto: Ricardo Corrêa
Se atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu, em meio a Copa do Mundo de 2014 só não se diverte a equipe anfitriã. Com seus altos e baixos, os atletas e delegações dos outros 31 times já curtiram ou curtem muito a atmosfera da maior festa do futebol mundial, que acontece de quatro em quatro anos e, especialmente de 12 de junho a 13 de julho de 2014, tem o prestígio de ser recebida pela nação mais vitoriosa da história do torneio.

A “ousadia e alegria” deram lugar a “agressividade e medo”. Está certo que entre a esbórnia geralmente atribuída aos boleiros brasucas, que “não teriam amor à camisa e só querem saber de dinheiro”, e o “chororô” constante do hino nacional ao apito final, eu fico com a segunda opção. Me sinto mais representado como torcedor (não como jornalista). Mas não foi assim que a Seleção colecionou cinco estrelas*¹. Pelo contrário. Os momentos de maior fragilidade emocional foram atribuídos às derrotas mais marcantes, seja na apatia em 1950 e 1998 ou na agressividade exacerbada em 1954 e 1974. Roer unha, se descabelar e temer o pior são atribuições exclusivas de torcedores.

A emoção demonstrada pelos jogadores da Seleção Brasileira, a meu ver, é semelhante a dos estudantes que vão prestar vestibular conscientes de que não deram o melhor de si no cursinho. Ali, de frente para a prova, não resta mais nada a não ser concluí-la e torcer para que a preparação deficiente não culmine em reprovação. Os “CDFs” ao menos sabem que deram o melhor de si e, não é à toa, são maioria entre os aprovados nos cursos mais difíceis. 
Neymar chora antes de empate contra o México - Reprodução / TV Globo

O futebol brasileiro, historicamente, nunca teve planejamento. É vitorioso pela qualidade técnica dos jogadores e em alguns casos por inovações táticas (o que não se aplica ao time de Scolari)*². O medo de perder a Copa fez o comandante verde e amarelo pedir ajuda. Segundo o Terra, em plena Granja Comary, Scolari chamou cinco jornalistas*³ para pedir apoio contra o que ele acredita ser um “complô” contra sua equipe. Mas o certo é que a Seleção Brasileira não curte a atmosfera da Copa. Nem seu treinador, nem os jogadores e até mesmo o assessor de imprensa da CBF, Rodrigo Paiva, que agrediu o jogador chileno Pinilla no último sábado (28).
  
Até mesmo os jornalistas, alguns deles sofrendo tantas críticas quanto os jogadores brasileiros (e que segundo Neymar, precisam de terapia tanto quanto seus colegas), dividem o olhar entre a cobertura e o deslumbramento de fazerem parte da “Copa das Copas”. Muitos fãs do esporte esperam da imprensa uma postura de apoiadora do “scratch canarinho”, e se decepcionam com os artigos dos excelentes Mauro Cezar Pereira e Juca Kfouri. Ora bolas, o que se deve esperar de um bom jornalista é justamente o desvinculamento das instituições. Não existe “momento certo ou apropriado” para pontuar as falhas da Seleção. E justamente por isso os considero os melhores nessa Copa. Na postagem “Quero me orgulhar da equipe brasileira. Para isso Felipão e o time precisam fazer sua parte”, Mauro diz evitar proximidade com técnico e jogador porque acha melhor “manter distância e independência para não distorcer pelo constrangimento de criticar um ‘amigo’”. É a postura que acho mais apropriada a um profissional da área, diferente de Mário Sérgio, da Fox Sports, que já foi técnico e, corporativista, chegou a brigar no ar com o colega de emissora Rodrigo Bueno, quando este criticou a qualidade dos técnicos brasileiros.


A Seleção Brasileira parece carente de elogios, mesmo jogando em casa. Com tantos jogões e chuva de gols, os anfitriões se sentem deslocados. Xodó da torcida nos estádios, a Costa Rica sim parece ser a dona do pedaço. No lugar de corrigir as graves falhas da equipe em campo, porém, o emocional dos atletas virou a preocupação de Scolari, ou pelo menos sua desculpa. Nos diversos veículos que cobrem a Copa, o “chororô” virou tema até de entrevista com terapeutas. Freud explica?

*¹ Em 1958, na Suécia, os comandados de Vicente Feola foram orientados pelo psicólogo João Carvalhaes a sorrir, embora tenha contraindicado Pelé e Garrincha por imaturidade e inteligência abaixo da média, respectivamente. Em 1962, o triunfo veio com um show à parte de Garrincha. Diversos cronistas defendem que só dois jogadores ganharam a Copa pelos seus países: o anjo das pernas tortas, como já citado, e Maradona pela Argentina, em 1986. Em 1970, a turbulência que envolveu demissão de João Saldanha, regime militar e a suposta “cegueira de Pelé” não se refletiu dentro de campo, que teve inovação tática com a marcação por zona, diferente do que se via na equipe italiana, que fez a final contra o Brasil e marcava por zona. A descrença, também presente em 1994, se transformou em desabafo de Dunga ao levantar a taça e xingar a imprensa, que o teria perseguido (em sua opinião). Em 2002, ajudas de arbitragem aconteceram, mas foi o talento acima da média de uma equipe com Cafu, Roberto Carlos, Ronaldinho, Rivaldo e Ronaldo que garantiu nosso último título. Nas últimas três Copas, a defesa, que era ponto fraco dos brasileiros, tem se destacado. Nas últimas três Copas do mundo (2006, 2010 e 2014 até oitavas de final), o Brasil levou 9 gols em 14 jogos. Só na Copa de 1998, a defesa foi vazada 10 vezes em 7 jogos.

*² Esse time não surpreende, não tem jogadas ensaiadas, depende do talento de Neymar e tem um técnico teimoso. O título da Copa das Confederações pode ter sido ruim. Para o jogo deste sábado (5), Scolari ensaia mudanças, como jogar com três zagueiros e tirar centroavante. A saída de Luiz Gustavo, suspenso pelo segundo cartão amarelo na partida contra o Chile, e o mau desempenho de Fred e Jô forçaram o treinador a refletir e até a pedir ajuda de jornalistas na Granja Comary.

*³ Os jornalistas que conversaram com Scolari na Granja Comary, segundo o portal Terra, foram Juca Kfouri (Uol / Folha de S. Paulo / ESPN Brasil), Paulo Vinicius Coelho (Folha de S. Paulo / ESPN Brasil), Fernando Fernandes (TV Bandeirantes), Osvaldo Pascoal (Fox Sports / Rádio Globo) e Luiz Antonio Prósperi (O Estado de S. Paulo).

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Com uma semana, a Copa de 2014 já é minha favorita de todos os tempos


Eu na Fan Fest - Roberto Viana / Bocão News
Quem faz um evento esportivo ser bom não são as construtoras, tampouco as promessas de legado do governo ou animação da torcida. Essa fórmula não deu certo há 8 anos na Alemanha. Estádios impecáveis, mobilidade urbana já existente antes de a bola rolar e um monte de gente apaixonada por futebol que lotou os estádios não conseguiram fazer a última Copa realizada na Europa ser boa. Tampouco esses quesitos devem ser desprezados. Como seria bom se o mundial realizado esse ano no Brasil trouxesse melhoras sociais para a população, pois isso é mais importante nas nossas vidas que o futebol. Essa Copa, nem qualquer outro evento, vale o que foi gasto, nem concedido com empréstimos para lá de "camaradas". Incrível que arrodeado por tanto caos, dentro de campo, os melhores jogadores do planeta conseguem desempenhar tão bem seu papel, mesmo em fim de temporada, no calor em que a maioria deles não estão acostumados.
Instagram: @lucasfranco1

Essa Copa do Mundo, que completou uma semana ontem, se tivesse terminado já seria a melhor que eu vi. E vou mais longe. Pelo conhecimento que tenho de futebol, fruto de pesquisas, leituras e vídeos, arriscaria dizer que, ao menos para mim, é minha favorita de todos os tempos. Talvez por estar vivendo de perto essa atmosfera, alternando jornadas de trabalho com a de telespectador e participante da festa in loco. Uma coisa é viajar para fora, de férias, e curtir como um turista, ou viajar para o exterior com a missão de levar informações para o seu país. Outra bem diferente é não ter sua rotina tão modificada, continuar trabalhando no mesmo local que antes, sem deixar de cobrir política e cidades e de lambuja ir ao Pelourinho entrevistar torcedores em uma animada festa holandesa, ou se acotovelar em uma zona mista para entrevistar jogadores que irão enfrentar a seleção do seu país na semana seguinte, como foi no amistoso entre Croácia e Austrália, em Pituaçu.

Para sempre vou lembrar da partida in loco que vi, Espanha - 1 x 5 - Holanda. Van Persie e Robben entraram para a história da Fonte Nova com seus gols. Que gols. Que festa linda nas arquibancadas, promovida principalmente pelos holandeses, todos de laranja. A festa começa na andada para o Dique e só termina quando você chega em casa e assiste aqueles gols na televisão, para confirmar que o que viveu não foi sonho: você esteve ali, por mais fantástico que possa parecer.

E o que falar das anedotas? Schweinsteiger e Neuer cantando e pulando com o hino do Bahia em Porto Seguro, ingleses dançando Lepo Lepo... Ao final do mundial um livro precisa ser lançado só com episódios como esses, que deram uma atmosfera a essa Copa diferente da que se estava acostumada a ter. Sem falar dos japoneses, que limpam os estádios antes de sair.

Até o momento, só quatro partidas não tiveram pelo menos dois gols. E gols lindos, como o do australiano Tim Cahill contra a Holanda, Oscar contra a Croácia, dos holandeses Robben e Van Persie contra a Espanha, do uruguaio Suárez contra a Inglaterra... A Seleção Brasileira não têm rendido tanto, mas a Copa em si, dentro de campo, é um sucesso. Mas vale ressaltar: principalmente pelos jogadores.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

O bairrismo é meu escudo

O instinto de proteção não se faz presente apenas em mães corujas prontas para proteger seus filhotes, nem que para isso o mundo vire de cabeça para baixo. A cada vez que uma crítica é feita a determinado lugar, brotarão da terra milhares (quem sabe milhões) de entusiasmados bairristas bradando contra o “agressor”.

O bairrismo não pode ser racional, pelo menos não em uma cidade tão criticada pelos seus próprios habitantes. Por que então a crítica ofende mais quando proferida de plagas distantes?

Com a iminência da Copa do Mundo, as 12 cidades brasileiras têm sido cada vez mais expostas. E o escudo do bairrismo tem ganhado uma força inversamente proporcional aos esforços para que as sedes tenham legados. Se toda a energia depositada em desfazer a imagem dos estrangeiros sobre o Brasil fosse revertida para o setor de transportes, por exemplo, Salvador teria mais linhas de metrô do que Londres.

Exageros à parte, quem está na chuva é para se molhar. O Brasil aceitou a condição de sede do mundial e deve arcar com o ônus de ter toda sua (triste) realidade exposta em veículos de comunicação de fora. Jornalismo é isso. Já o bairrismo... Bairrismo é o que faz tudo continuar da mesma forma.

sábado, 29 de junho de 2013

A Copa das “Manifestações” e do “Pudor”

Manifestantes no Campo Grande, em Salvador l Foto: Instagram / felipepmagalhaes
Longe da galhofa que envolveu a folclórica seleção do Taiti, as vaias à Seleção Espanhola em todos os jogos e o carisma de Balotelli, a “jiripoca piou” no entorno dos estádios antes e durante as partidas da Copa das Confederações. A estreia, em Brasília, deu o tom do que seria a relação entre manifestantes e polícia. Se a Fifa imaginou que poderia emplacar as “caxirolas”, a tendência das ruas foi balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo e spray de pimenta. Dentro das arenas, porém, pouco se percebia, graças à péssima qualidade de captação do 3G e pelo perímetro extenso estabelecido, que fazia o barulho das explosões não se propagar até as arenas. Fui ao jogo entre Uruguai e Nigéria, na minha cidade, Salvador, e só percebi a gravidade do que aconteceu quando cheguei em casa, já que a polícia não havia sido truculenta no protesto de três dias antes. 

Vivi momentos mágicos, que sempre sonhei: interagir com pessoas de outros países, curtir uma infraestrutura que, por alguns momentos, me dava a impressão de estar na Disney, ver de perto jogadores que eu estou acostumado a acompanhar nas principais ligas da Europa... Não há pecado em sentir prazer por viver essa atmosfera. Essa não foi só a “Copa das Manifestações”, mas também a “Copa do Pudor”: mostrar interesse por futebol na segunda metade de junho poderia despertar críticas nas redes sociais, inclusive de quem semanas antes do início do torneio cogitava comprar um ingresso. 
Eu e os uruguaios l Foto: Instagram / lucasfranco1

O clima de revolta da população contra a situação do país é digna, inclusive sempre tive ressalvas à realização da Copa do Mundo no Brasil, mas eu tinha que fazer parte desses momentos que apaixonados por futebol por todo o planeta sonham em viver pelo menos uma vez na vida. O futebol não é o causador das mazelas do país e Neymar não tem culpa por ser tão valorizado. Aliás, o Japão, tão reverenciado como referência em educação, também tem ídolos esportivos. O “erro” não está em acompanhar futebol em momentos como esse, e sim em viver em função de qualquer coisa que seja (futebol, festa, trabalho, família...) e se esquecer das demais pelos 365 dias do ano. Assim como o que engorda não são os hábitos alimentares do período entre o natal e o réveillon, e sim a “dieta” entre o réveillon e o natal.

A cobertura jornalística durante o torneio parecia mostrar dois países. Na Globo e Sportv, pouco se via de manifestações. Já a ESPN, que tem comentaristas que sempre se posicionaram contra a realização do torneio no Brasil, como Mauro Cezar Pereira, Juca Kfouri e José Trajano, deu uma aula de bom jornalismo, com flashes dos protestos sem deixar de acompanhar de perto o que acontecia dentro de campo, embora sem os direitos de reproduzir as imagens dos jogos. 

O FUTEBOL NO MEIO DE TUDO ISSO

Escrever sobre a nona edição do torneio que reúne os campeões continentais sem mencionar tais turbulências é como tentar contextualizar a Europa da década de 40 sem escrever uma linha sobre a Segunda Guerra Mundial. Mas também se jogou futebol pelo lado de cá. E como.

Antes das definições do terceiro colocado e campeão, os lados “A” e “B” já estão gravados para a posteridade. Com exceção do país-sede, as equipes que mais despertaram a simpatia do público foram justamente as lanternas dos seus grupos. Tão distantes do ocidente, Japão e Taiti perderam todas as três partidas, mas “folclorizaram” o torneio tão “pasteurizado”. Para mim, “o gol do torneio” foi marcado por Jonathan Tehau, do Taiti, contra a Nigéria. Sua seleção perdia por 3 a 0, mas a vibração pelo tento e comemoração provaram que é possível ser feliz “sem ser o melhor”.




Inevitável não lembrar da música “O Vencedor”, de Los Hermanos: “Eu que já não quero mais ser um vencedor/ Levo a vida devagar pra não faltar amor”. Não faltou amor aos taitianos, que ganharam até uma torcida em Recife, a “Taititibis”, criada pelos torcedores do Íbis, o “pior time do mundo”.

Foto: Divulgação


O Japão, por sua vez, levou o torneio à sério. A derrota por 3 a 0 para o Brasil na estreia não esfriou os ânimos dos bravos samurais, que foram eliminados na segunda rodada após um jogo épico contra a Itália. Terminaram o primeiro tempo vencendo por 2 a 0, e o final do cotejo, 4 a 3 para a Azzurra, teve emoção até o último suspiro. Talvez tenha sido a melhor partida do torneio e os torcedores na Arena Pernambuco apoiaram os orientais.

A frase que resume o sentimento do povo brasileiro, que até então não havia visto legado nas realizações dos torneios da Fifa no país, é: “No meio do caminho tinha uma copa. No meio da copa achamos o caminho”. A pressão popular sobre os políticos gerou inúmeras conquistas, que vão de redução de tarifas de ônibus à rejeição de Proposta de Emenda à Constituição (PEC). Que manifestações desse tipo não ocorram apenas quando o “mundo estiver de olho no Brasil”. Na minha opinião, os brasileiros de um modo geral têm a necessidade de serem “percebidos”. Necessidade de aprovação. Não é preciso que os outros saibam que nós existimos. Nós somos muito maiores do que qualquer tipo de julgamento lá fora. E estamos nos reconstruindo. O dia 17 de junho, primeiro dia de manifestações que abrangeram diversas cidades do país, já está nos livros de história, independentemente do que aconteça daqui para frente. Esse foi o principal legado da Copa das Confederações.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Inconformados de verdade: uma seleção de heróis

A seleção não representa o governo, a Rede Globo ou a CBF. Ela é composta por pessoas que, apesar de não se pronunciarem sobre os problemas nacionais, não acordaram ontem. Eles nos representam | Ricardo Nogueira/Folhapress
Todas as manifestações em prol de melhorias para o país são admiráveis, independentemente de quaisquer transtornos eventuais, como atos de vandalismo. Sair da inércia sempre será melhor do que calcular com perspicácia eventuais danos de uma operação complexa como um protesto com milhares de pessoas. Mas ao contrário do que alguns militantes defendem, o gigante não acordou, ou ninguém se lembra de Zumbi dos Palmares, Balaiada, Sabinada, Conjuração Baiana, Contestado, Canudos, Cabanagem... O gigante sempre lutou. O povo brasileiro tem uma história de lutas e conseguiu avanços importantes. Quantos jovens não se tornaram os primeiros da família a conseguirem entrar na faculdade? Tataranetos de escravos que ergueram com orgulho o canudo de formando graças a alguns avanços sociais, como os créditos educativos e cota nas universidades públicas, mas sobretudo graças a garra. Nunca faltou força de vontade para os brasileiros.

A consciência política, sim, pode ser o próximo passo para uma nova fase, embora em algumas andanças minhas pelo mundo conheci estrangeiros de “países de primeiro mundo” que não sabiam bulhufas sobre política local. As passeatas injetam doses extras de auto-estima, mas trazem como efeitos colaterais a falta de autocrítica. Por que quem nunca se mobilizou antes para lutar por mudanças hoje se sente no direito de julgar quem ainda não aderiu à causa? Isso me lembra os episódios de repúdio ao torcedor do Bahia, Binha, que nada mais é que um reflexo do que foi a massa tricolor durante toda sua vida, como escrevi em uma postagem há um mês.

Sobrou até para o futebol. Cartazes como “Japão, eu troco meu futebol pela sua educação” e gritos como “Brasil vamo acordar, o professor vale mais que o Neymar” jogam a responsabilidade de um segmento omisso na sociedade em um esporte de essência popular. A classe média tem tido presença maciça no movimento, o que é perceptível nas redes sociais. Ótimo. Mas os 23 jogadores que representam nosso país na Copa das Confederações lutaram mais contra a corrente do que a grande maioria dos manifestantes que descobriram ontem como mostrar indignação, e eu me incluo aí. A Seleção Brasileira não representa o governo, a Rede Globo ou a CBF. Ela é muito mais que isso. Ela é composta por pessoas que, apesar de não se pronunciarem sobre os problemas nacionais, não acordaram ontem. Histórias de meninos pobres que acordavam cedo, desde muito cedo, para ralar nos treinos em busca do sonho de ser jogador e ajudar a família e a comunidade, sem falar na superação de Thiago Silva, que superou uma tuberculose na Rússia, são as provas que eles nos representam. O que há de ruim no futebol não é causado pelos jogadores.

A história tradicional da música brasileira omite o brega. A MPB, gênero mais influente na classe média, que lutou por democracia nos tempos de ditadura, preenche as lacunas dos tempos de chumbo. O livro “Eu Não Sou Cachorro Não”, de Paulo Cesar de Araújo, resgata um pouco da história dos artistas que, ao contrário dos astros da MPB, vieram de baixo e não eram tão instruídos politicamente, mas incomodaram os censores da mesma forma por tratarem de temas como a opressão de uma classe dominante sobre o povo, coisa que não pôde ser sentida na pele por Chico Buarque por exemplo. Tampouco os compositores “politizados” levavam seu som a lugares remotos, como Ravel descreve em uma passagem. “Nós sempre estivemos nos apresentando em localidades onde a maioria dos artistas não queria ir. Nenhum artista da MPB ia se apresentar em Capual, Vilhena, Ji-paraná, Pimenta Bueno, Rolim de Moura, Presidente Médici; é incrível, mas nós vimos nascer esses municípios todos. Inúmeras vezes a gente cantou para aqueles trabalhadores que estavam construindo a Transamazônica. E era um risco muito grande para um artista fazer um show ali. Mas nós fazíamos os nossos shows assim, cantando embaixo de galpões, em fazendas, levando mordidas de mosquito, ficando atolado na estrada, vendo a miséria do povo, aquele povo simples que adorava música”.

E quantos dos manifestantes desprezam símbolos populares como os jogadores de futebol e os cantores de brega? Estes, sem dúvida, nunca dormiram. Com consciência política ou não, fizeram muito mais que a maioria dos que têm feito protesto e somente decidiram agir na semana passada. Pior para mim, que não fui às ruas na segunda-feira. Será que eu ainda não acordei?

terça-feira, 21 de maio de 2013

Torcedor

Foto: Divulgação

Há de haver torcedor de time de futebol “consciente?”
Uns mais, outros menos
Che Guevaras de bumbos e bandeiras hasteadas sob o sol da liberdade
Democracia, eleições diretas, reforma estatutária...
Trancafiados que são dentro das quatro linhas de suas próprias vidas

Um torcedor precavido não pode ser “tão” racional
Senão, qual o motivo da ânsia do cotejo?
Pelejar sob plagas longíquas
Em nome do amor
Sem nada em troca
A não ser
Ser torcedor
Sofredor
Doença
Doente quem combalido se torna em troca do mais nobre sentimento humano

Há tanta vida além
Da esfera de gomos costurados com a estirpe d’alma
Que não mais se conhece
Descortinada
Nua sob as cores de um clube de futebol
Fadada a sofrer sem ver quanta vida há além mar

domingo, 19 de maio de 2013

Todo torcedor do Bahia tem um pouquinho de Binha

Na versão tricolor de "Dom Quixote", "Bahia melhor que Barça e Real"

Todo torcedor do Bahia ô ô, tem um pouquinho de Binha de São Caetano iá iá, tal qual “isto aqui” tem um pouquinho de Brasil em uma letra de Caetano Veloso. Digo por mim mesmo, embora eu não esteja sozinho. Binha está. Mas o folclórico “Dom Quixote Baiano” é um retrato do que toda a nação tricolor tem sido nos últimos tempos. Enxergávamos em Souza um “Caveirão”, quando este nunca passou de uma viatura sucateada. Assim como o personagem criado por Miguel de Cervantes, o torcedor em geral, de qualquer clube, não distingue moinhos de vento de monstros aterrorizantes, mas a “inchada de Esquadrón” consegue se superar.

Quem não sentiu alegria com o título baiano do ano passado (eu chorei), que atire a primeira estrela. Contra os vice-torianos, é claro. Criticar as bizarras saídas de gol de Marcelo Lomba naquele tempo era sacrilégio, dizer que Titi era fraco na bola aérea vinha seguido do argumento “mas no chão é ele quem manda”, como se a virtude de um zagueiro pudesse se limitar a um fundamento de UFC. O “trabalho” de Marcelo Guimarães Filho não sofria críticas e era até defendido pela torcida quando a maré era favorável. 

Quando, às vésperas de um Ba-Vi na primeira fase do Baiano do ano passado, o cartola foi destituído do cargo e perdeu a peleja por 3 a 2 no Barradão, houve quem responsabilizasse o grupo de oposição que entrou com ação judicial contra a irregularidade que existia dentro do clube, já que o Esquadrão de Aço surfava na crista da onda. Lutar por um time forte a longo prazo requer alguns sacrifícios, derrotas dentro de campo e chantagens de quem não quer largar o osso, mas a torcida no geral enxerga os opositores como inimigos. 

O cenário hoje mudou não por conscientização da torcida, que pouco parece conhecer o estatuto do clube pelos comentários que vejo no Facebook. Somente derrotas humilhantes dentro de campo mobilizam a vontade de mudança. E bastam alguns triunfos para tudo se “normalizar” e Marcelinho voltar a ser a “princesa Dulcineia”. 

Binha nada mais é que o estereótipo do torcedor do Bahia comum, com uma diferença: ele não liga para os resultados. Chamá-lo de “baba-ovo da situação” e “doente mental” soa, no mínimo, hipócrita. Ele é Bahia de verdade, independentemente de ganhar ingressos de grupos de empresários ou da diretoria, e tem todo o direito de assistir o clube de coração no estádio, concordem ou não. 

Cansei de ver pessoas que já manifestaram apoio a Marcelo Guimarães Filho nas redes sociais hoje se dizerem a favor do movimento “Bahia da Torcida”. Marcelo Guimarães Filho, assim como Binha, não mudaram em nada. São os mesmos, adeptos das mesmas práticas e rituais há anos. Por que o movimento só se tornou forte agora? A maior arma de um povo contra o despotismo é o conhecimento. A revolta gratuita, fundamentada pela vontade de fazer justiça com as próprias mãos, gerarão apenas alguns carros quebrados a mais no Fazendão, além de se configurar em crime contra o patrimônio. Saber o que se passa é o primeiro passo para não sair “de La Mancha” tão desorientado como o protegido de Sancho Pança.

Aos torcedores do Bahia que sempre se opuseram ao regime atual, todo o meu respeito. Aos demais, que só pedem pelas melhorias por conta dos desastres dentro de campo, uma reflexão. O Bahia nunca foi bem administrado. A saída de Marcelinho, que deveria acontecer o quanto antes, não poderá ser bem-sucedida se cuidados não forem tomados. Em outros tempos, era possível ser “varzeano” e colher bons resultados, como no título brasileiro de 88, quando dois dos principais jogadores da campanha, o goleiro Sidmar e o zagueiro Pereira, foram vendidos às vésperas dos playoffs. Não somos tão grandes quanto imaginamos, mas podemos ser muito maiores do que jamais sonharíamos em ser. Bora Baêa minha porra!

domingo, 21 de abril de 2013

Peso da camisa

Itália de Del Piero eliminou a Alemanha da Copa 2006, em Dortmund | Alex Livesey/Getty Images

A expressão “peso da camisa” teve sua pesquisa empírica concluída em Munique, no dia 10 desse mês. Quando o Bayern, que é a base da seleção alemã, eliminou da Champions League a Juventus, base da “Azzurra”, pude concluir que jogadores realmente se transformam a depender do uniforme que trajam. Em Copas do Mundo e Eurocopas, os alemães são “freguezaços” dos italianos. Por que esses mesmos jogadores não fazem jus aos prognósticos de suas seleções nacionais ao trajarem o uniforme preto e branco da “Velha Senhora” e o vermelho do gigante alemão? É amigo, camisa pesa. O Bayern de Munique venceu a Juventus duas vezes por 2 a 0 e é semifinalista da Champions League.

Retrospecto entre seleções da Itália e Alemanha

No torneio da Fifa, três vitórias para a equipe da Velha Bota e dois empates sem gols. Já na competição realizada pela Uefa, uma vitória italiana e dois empates, embora um deles tenha eliminado a Azzurra da primeira fase, em 1996. Ou seja: a seleção alemã JAMAIS venceu a seleção italiana em um jogo que não seja amistoso.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A fé da bola, na bola

Flamengo reúne torcedores de todo o NE em SSA / Foto: Felipe Oliveira

O deputado federal Marco Feliciano conseguiu, sem querer, promover uma “guerra”. Os contrários às suas declarações se mobilizam pela sua renúncia na presidência da comissão dos direitos humanos, os religiosos retrucam, e enxergo esse momento “fervoroso” como uma grande oportunidade para refletir sobre tolerância em todos os âmbitos, inclusive no futebol. Até porque hoje saiu o resultado de uma pesquisa, realizada pela Pluri Stochos Pesquisas e Licenciamento Esportivo, que apontou que as quatro maiores torcidas do Nordeste são de clubes de fora da região, e já imagino o tipo de reação nas redes sociais com o resultado.

Sob que justificativa uma torcida assume um comportamento xenófobo ao gritar “Éu éu éu, vai para casa tabaréu”, contra os baianos que torcem por um time do Rio de Janeiro? Ninguém é obrigado a torcer pelos times do seu estado. “Ah, então vá no Sudeste e veja se alguém vai te respeitar...”. Ora, a situação é diferente em Salvador, onde quem é do interior recebe a alcunha de tabaréu? Como o Esporte Clube Bahia pode querer captar mais fãs em outras cidades se faz vista grossa para manifestações do tipo? Os mesmos torcedores contrários a opção clubística de seus conterrâneos não gostariam de ouvir “Ino ino ino volta para casa nordestino” durante um jogo entre São Paulo e Bahia no Morumbi.

Os mandamentos religiosos estão na Bíblia, que é interpretada de diversas maneiras. Há também quem não faça do livro cristão seu manual, e daí surge toda o conflito, que não é o tema dessa postagem. Os fundadores do futebol, até onde eu sei, não deixaram recomendações para seus adeptos. Longe das discussões eclesiásticas, defendidas sob os argumentos de um livro por um lado e sob ideais de direitos humanos do outro, no futebol não há representação divina, e “Se Deus não existe, tudo é permitido”, já havia escrito Fiódor Dostoiévski em “Os Irmãos Karamázov”. Essa é a minha crença. E a sua?

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O crime 'sem culpado' no futebol

Kevin Douglas morreu ao ser atingido por sinalizador | Reprodução/ Facebook
Inteligência. Palavra de fácil compreensão e pouca aplicação quando se trata de segurança pública no ambiente do futebol. No final do ano passado, escrevi uma matéria sobre o trabalho das polícias civil e militar da Bahia na contenção da violência entre torcidas de futebol. Declarações de especialistas à parte, o problema parece longe de uma solução e me faz pensar em uma frase do ex-presidente dos Estados Unidos, John Kennedy: “A vitória tem mil pais, mas a derrota é órfã”.

Será tão complicado prevenir mortes como a do garoto boliviano atingido por um sinalizador ontem, na partida do seu time, o San José, contra o Corinthians? Ou o presidente do clube paulista continuará com o discurso de que houve uma “fatalidade”? O clima não era de hostilidade em Oruro, onde foi realizado o jogo. As torcidas não estavam separadas como acontece no Brasil e antes do jogo, os habitantes da cidade queriam chegar perto dos jogadores brasileiros para pelo menos relarem seus braços no corpo dos jogadores brasileiros, tamanha admiração pelo campeão mundial. Após o sinalizador que atingiu Kevin Douglas Beltrán Espada, 14 anos, no olho, a hostilidade tomou conta do estádio e os corintianos passaram a ser chamados, em coro, de assassinos.

Quantas pessoas precisarão morrer para que a fiscalização seja mais branda nos estádios de futebol? Também no final do ano passado, entrevistei um empresário do ramo da pirotecnia, Adriano Ribeiro, e ele defendeu a ideia de que nem todos os fogos deveriam ser proibidos em estádios de futebol. “Se estádio de futebol vai te oferecer uma estrutura para determinado tipo de fogos, você tem que saber usar aqueles tipos de fogos visando a segurança. Talvez quem crie as leis, quem aprova as leis, não são entendedores do ramo de pirotecnia. Existe uma variação de fogos e a lei fala que simplesmente você não pode usar, sendo que aqueles menores, sem estampidos, sem uma menor quantidade de gramas de pólvora, você poderia usar. A lei deveria determinar 'a partir desse você pode usar', mas a lei fala que não pode”.

Certamente, o sinalizador marítimo que matou o garoto boliviano não entraria em um estádio bem fiscalizado: a velocidade do disparo ultrapassava 100 km/h. A Conmebol, como de costume, se exime de responsabilidade e a solução mais fácil, se é que haverá punição, será punir o clube. Punir um clube de futebol pelo ato de um torcedor é a maneira mais fácil de dar satisfação à sociedade. Achar o responsável, coibir que fatos como esses ocorram novamente e assumir a responsabilidade parecem demais para a confederação que rege o futebol sul-americano. Para se ter uma ideia, em todas as competições europeias, a Uefa passa a gerir o estádio do mandante pelas horas que antecedem e sucedem o jogo, e o clube deixa de ser o “proprietário” do seu próprio patrimônio para que a competição não corra o risco de ter sua imagem manchada pela incompetência da agremiação, foi o que ouvi de Mauro Cézar Pereira, da ESPN, o mesmo que faz reflexões brilhantes sobre questões como essas abaixo, acerca das torcidas organizadas. Confira o vídeo e reflita, sem clubismo, sobre a questão, que vai muito além de Corinthians, Palmeiras, Bahia, Vitória, Brasil e Bolívia.


A vida vale muito mais que o futebol. Há brasileiros que reclamam da falta de conhecimento dos europeus quando o assunto é o nosso futebol. Mas será que uma competição que vende 90 minutos de uma decisão para uma TV e transmite só 45 é um bom produto? Será que é tão divertido assistir a uma partida em que os policiais precisam proteger os jogadores do time visitante para cobrar um escanteio? Ou só quem consegue enxergar a “mística dessa guerra” são os sul-americanos?

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A Eurocopa que deu e deixou... E a Copa das Confederações que está por vir...

Croatas na Euro 2012 | Foto: Rodrigo Cerqueira/Lance
O principal torneio de seleções da Europa é mágico. Arrisco dizer que a Uefa sabe fazer um espetáculo melhor que a Fifa, pelo menos é a impressão que eu tenho como telespectador. A competição europeia tem uma pegada mais “rock'n'roll”, há pouquíssimos jogos inexpressivos e me mobiliza tanto quando a Copa do Mundo.

Meu destaque da Euro 2012 foi a trilha sonora. Tinha música para tudo: na entrada das equipes perfiladas em campo, Heart of Courage, de Two Steps from Hell, deixava o clima de suspense tão intenso que parecia se tratar de uma batalha épica. Após a execução dos hinos nacionais, era a vez da música Sirius, de Alan Parsons, inflamar as arquibancadas, que deliravam com a contagem regressiva dos alto-falantes do estádio para a bola rolar. A música também é tocada nos jogos do Chicago Bulls. E o que falar do "hino informal" do torneio? Seven Nation Army, de White Stripes, era entoado apenas em vogais, "ô, ô ô ô ô"... Com tanta música boa, o hino oficial da Euro, Endless Summer, de Oceana, ficou ofuscado. E olhe que é consideravelmente mais interessante (na minha opinião) que as músicas que costumam tocar na Copa do Mundo.

Sábado tem sorteio da Copa das Confederações. Que a trilha sonora seja boa e não reflita o patriotismo infantil de alguns brasileiros que sequer conhecem de música brasileira.





sábado, 24 de novembro de 2012

Os melhores do ano na minha avaliação


Agüero fez o gol mais emocionante do ano (na minha opinião) | Foto: AFP
Já que a CBF definiu os melhores do Brasil antes mesmo de sua festa “coxinha”, vou selecionar o que achei de melhor (e pior) no ano de 2012. Não vou fazer uma escalação, mas escolher o gol mais emocionante, a maior vibração de uma torcida, o gol mais bonito, a melhor defesa, o gol perdido e a maior frustração do ano. Em tempo: coxinha é uma gíria que aprendi com Mauro Cezar Pereira, da ESPN, e se refere a algo ou alguém "engomado", "arrumadinho" e "criado pela avó", assim como a festa dos melhores do ano que acontece em dezembro no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com jogadores vestindo paletó e cartolas distribuindo sorrisos para as câmeras, algo bem diferente da atmosfera vibrante dos estádios de futebol.

Gol mais emocionante: Sérgio Agüero (Manchester City), aos 48 do segundo tempo contra o Queens Park Rangers pela última rodada da Premier League, no dia 14 de maio.

Em um ano de tanta quebra de paradigmas, com o Corinthians vencendo Libertadores, Chelsea faturando Champions League e o Bahia voltando a ser campeão baiano após 11 anos, foi do Manchester City, na minha opinião, o gol e a comemoração por título mais emocionante. Tá, o time tem como dono um sheik que provavelmente nunca chutou uma bola de futebol. Mas sua torcida, apaixonada, sofredora, não é fruto de negociação, e após 44 anos, o “primo pobre” da cidade de Manchester pôde gritar “campeão”. Detalhe: o City precisava vencer e perdia até os 46 do segundo tempo, quando o bósnio DzekoMe empatou. A virada foi surreal, me emocionei. 


Maior vibração de uma torcida: Escoceses em Celtic-2x1-Barcelona, no dia 7 de novembro.

Não valeu título, tampouco classificação para a fase de mata-mata da Champions League, já que o Celtic está na terceira colocação do Grupo G e precisa de combinação de resultados para seguir adiante. Mas a vitória contra o melhor time do mundo transformou Glasgow na cidade mais vibrante do mundo por algumas horas. Isso no aniversário de 125 anos da equipe escocesa.


Gol mais bonito: Ibrahimovic, pela Suécia, contra a Inglaterra, no dia 14 de novembro.

Uma imagem vale mais do que mil palavras. O gol de Ibra foi o melhor do ano pela plasticidade, embora se tratasse de um amistoso em que sua seleção venceu por 4 a 2 na inauguração da Friends Arena, em Estocolmo. E que inauguração...


Melhor defesa: Cássio, do Corinthians, contra o Vasco nas quartas da Libertadores, no dia 23 de maio.

Além da plasticidade, a importância da defesa se dá pela opinião dos próprios torcedores do Corinthians: muitos dirão que foi o lance mais importante para a inédita conquista da Libertadores. O jogo de ida, em São Januário, havia sido um empate sem gols e no momento em que Diego Souza correu sozinho com a bola, o confronto brasileiro estava 0 a 0. Um gol, ali, possibilitaria ao Vasco abrir o placar e poder levar até um gol, faltando 35 minutos para o fim da partida. Mas Cássio foi lá e buscou no canto. No final, Paulinho fez o gol da classificação para o time paulista.


O gol perdido: Deivid, do Flamengo, na derrota para o Vasco por 2 a 1 pela semifinal da Copa Guanabara, 22 de fevereiro

Os ares do Flamengo não eram dos melhores com a saída de Luxemburgo por conta de mau relacionamento com os jogadores. O gol perdido por Deivid reflete o que foi 2012 para o clube com mais torcedores do Brasil: inacreditável, mas negativamente. Ao chegar no Coritiba, o atacante recuperou seu futebol. Mas aquele lance já entrou para a história do futebol. Já o Flamengo, ainda procura entrar no eixo, apesar de ter escapado do rebaixamento.


Maior decepção: Flamengo-3 x 3-Olimpia no Engenhão, pela primeira fase da Libertadores, 15 de março

Clubismos à parte, a eliminação do Flamengo na primeira fase da Libertadores foi decepcionante (e eu não sou flamenguista) e se desenhou quando o time carioca não conseguiu segurar os paraguaios após vencerem por 3 a 0 faltando 15 minutos para o fim do jogo. Se algum torcedor, naquela noite, decidiu sair do Engenhão mais cedo para evitar engarrafamento, já que o jogo estava definido, e não ligou o rádio no caminho para casa (seja no carro ou no ônibus), certamente não acreditou no que aconteceu ao receber a notícia. Apesar de favorito a segunda vaga do Grupo 2, o Olimpia perdeu em casa para o Emelec e terminou como lanterna. O Flamengo venceu o Lanús na última rodada, mas não evitou sua eliminação precoce no dia 12 de abril. Para esquecer.