Porém, nem todos os clubes têm rivais na Série A. O Bahia, livre do rebaixamento, recebe um Ceará desesperado em vencer para escapar da segundona. Essas equipes só vão se enfrentar na última rodada porque Vitória e Fortaleza, seus respectivos rivais, estão fora da elite do futebol nacional. Mas uma nota oficial no site do Bahia tem dado o que falar. Ao parabenizar, no sábado, Sport e Náutico pelo acesso à Série A, ressaltando a força do futebol nordestino, o texto desejou também boa sorte para o alvinegro cearense. Embora a nota tenha sido escrita antes da partida desse fim de semana, era evidente que o triunfo do Cruzeiro sobre o Ceará seria melhor para as pretensões do Bahia, que enfrentou o Santos e, caso perdesse, teria que lutar contra o rebaixamento enfrentando o Ceará na última rodada. Para alívio dos tricolores, o empate em 1 a 1 com o Santos, aliado a derrota do Atlético Paranaense para o América Mineiro e o empate entre Ceará e Cruzeiro, garantiram o time na primeira divisão do ano que vem.
NOTA NO SITE DO BAHIA GERA POLÊMICA
Em meio a opiniões divididas entre torcedores de diversos times, o fato é que o Bahia fez uma campanha muito ruim dentro de casa no Brasileirão: foram seis vitórias, sete empates e cinco derrotas, logo, não será algo de outro mundo se o tricolor perder. Para o torcedor do Fortaleza Fawber Gladson Quintino, o tricolor não deve abrir mão de disputar um torneio internacional, o que não acontece há 21 anos. "Se o Bahia abrir [as pernas] e o cruzeiro ganhar e ai como fica quem vai pagar pelo prejuízo de abrir mão de uma sul-americana?", contesta.
BAIRRISMO
“Secar” o rival (torcer contra) é natural. Mas a região Nordeste, ao longo da história, tem dado exemplos de bairrismo que não existem em outros cantos do país. Na semifinal do Campeonato Brasileiro de 1975, o Estádio do Arruda estava repleto de torcedores do Sport, Náutico e América-PE, que levaram suas bandeiras e se uniram ao lado dos tricolores para apoiar o Santa Cruz no duelo contra o Cruzeiro. O Santa perdeu e não pôde disputar a decisão contra o Internacional, mas certamente Pernambuco se entristeceu com a derrota. No ano passado, assistindo a Brasiliense x Náutico pela Série B (13/11/2010), me assustei com uma cena inusitada: um rapaz com camisa do Sport no meio da torcida do... Náutico! Os comentaristas do PFC repercutiram a cena. Quando o Timbu fez o gol, o rubro-negro se uniu aos alvirrubros na comemoração. Será que em Pernambuco há mais exemplos desse tipo do que em outros lugares pelo mundo?
Combinando ou não, os clubes de Recife vivem em sintonias parecidas. Em 2001, Santa Cruz e Sport foram rebaixados para a segunda divisão. Em 2005, Santa Cruz e Náutico disputaram o quadrangular final da Série B, houve um movimento para que ambos subissem, mas o Timbu não conseguiu vencer o Grêmio com quatro jogadores a mais (a “epopeia” gaúcha ganhou o nome de “Batalha dos Aflitos”). No ano seguinte, o Santa viveu a tristeza do rebaixamento enquanto Sport e Náutico foram promovidos para a Série A. Em 2011, os três clubes de Recife subiram: o Santa Cruz ascendeu para a Série C e Sport e Náutico para a elite do futebol nacional.
A semelhança entre todas as torcidas nordestinas, porém, não se resume a campanhas nas competições nacionais. Muitos torcedores de times da região questionam a “mídia do eixo”, que estaria dando pouco espaço aos clubes nordestinos. “Só assim pra o Bertozzi dar destaque ao Baêa, lógico que de forma negativa. Esta é a verdadeira imagem que eles têm do nosso futebol: timinhos sem caráter, com torcidas folclóricas, doidas para entregar a rapadura ao primeiro aceno”, questionou o torcedor do Bahia Jorge Ramos, no blog do comentarista da ESPN.
PROBABILIDADE
Matematicamente, o Cruzeiro tem 19,8% de chances de cair, segundo o site Chance de Gol. O Ceará tem 84,8%. Porém, há quatro anos, um episódio semelhante deu pistas de como os matemáticos podem estar errados. Corinthians e Goiás brigavam para não cair, e o time paulista era favorito a escapar da degola na última rodada, pois estava fora do Z-4 e dependia apenas de si. No entanto, a partida do Corinthians seria fora de casa, contra um Grêmio motivado em conseguir vaga na Libertadores e, de quebra, rebaixar um dos clubes mais odiados do país. Já o Goiás, precisava torcer por derrota ou empate do Corinthians e vencer, em seus domínios, o desmotivado Internacional, que além de não almejar nada, havia perdido o título brasileiro dois anos antes justamente para o Corinthians. Pesquisas feitas na época apontavam que a maioria dos colorados torciam para que o time de coração entregasse a partida para o alviverde goiano. Corinthians e Grêmio empataram em 1 a 1, o Goiás venceu o Internacional e o segundo clube de maior torcida do Brasil foi rebaixado, contra os prognósticos matemáticos.
Para a última rodada do Brasileirão 2011, o Cruzeiro recebe o Atlético Mineiro na Arena do Jacaré, em Set Lagoas. Em clássicos entre as duas equipes, o estádio só pode ser ocupado pelo torcedor da equipe mandante. Os atleticanos não poderão presenciar um eventual rebaixamento, mas estarão com o radinho ligado entre as partidas de Salvador e Sete Lagoas. Desde o primeiro campeonato nacional, chamado de Taça do Brasil, em 1959, o Cruzeiro só deixou de participar de quatro Brasileirões: 1959, 1963, 1964 e 1965. Na época, as melhores equipes nos estaduais garantiam vaga no Campeonato Brasileiro. O Cruzeiro nunca foi rebaixado.
