sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Suicídio por desonra existe no Brasil?


Organizações brasileiras ligadas à saúde escolheram o mês de setembro para iniciar uma campanha de prevenção ao suicídio. Embora os índices locais sejam altos, uma das causas que levam ao ato não são recorrentes no país: a desonra.

No outro lado do mundo, no entanto, a prática de usar a espada contra si próprio foi comum por muitos séculos e, segundo estudiosos em cultura e história japonesa, ainda há reflexos nos dias atuais. “O haraquiri [suicídio praticado pelos samurais] surgiu entre 1139 e 1177. A razão que explica o haraquiri como uma honra é proveniente da crença de que na região abdominal se vive a alma e o amor das pessoas. Essas crenças de morrer honrosamente ficaram enraizadas”, contextualiza a diretora educacional da Federação Cultural Nipo-Brasileira da Bahia, Angela Tamik. 

Em outro extremo, os programas eleitorais no Brasil provocam incredulidade. Muitos dos candidatos, investigados por diversos crimes, concorrem a cargos públicos municipais em todo o país neste domingo, dia 2 de outubro. “Todos os políticos [que cometessem crimes] tinham de efetivar haraquiri. Os que permanecessem tinham de investir na educação e na saúde da população para reerguer o país como o Japão, depois da segunda guerra mundial, onde todos foram alfabetizados”, desabafa Angela Tamik, que é PhD em Ciências da Saúde pela Universidade de Tokyo.  

Apesar de conscientes acerca dos problemas estruturais do país, nem todos os brasileiros enxergam a proposta de Angela como a solução, afinal, suicídio é um tabu no ocidente e os jornais não relatam notícias a respeito, também com a finalidade de não fazer apologia. “Acho que no Brasil a corrupção é tão escancarada que ninguém sente essa vergonha extrema ao ponto de cometer um suicídio por honra”, opina o ex-repórter de política do Bocão News e hoje assessor de comunicação da Câmara Municipal de Vereadores de Salvador, Marivaldo Filho. “Apesar de acreditar, com base em fé pessoal, que o suicídio nunca será o melhor caminho, imagino o quão doloroso deve ser para alguém ser vítima de uma situação como a que está acontecendo atualmente com o Brasil, bem diferente de um suicídio por honra em decorrência de um desvio de caráter pessoal”, discorre o jornalista. 

Embora a desonra não interfira na estatística de suicídios no Brasil, os números são altos no país. Cerca de 12.000 pessoas tiram a própria vida por ano e mais de 90% dos casos de suicídios estão relacionados com doenças psiquiátricas que podem ser tratadas. O Brasil é o oitavo país com mais suicídios no mundo, embora a taxa de seis suicídios para cada 100 mil habitantes esteja abaixo da maioria dos países. “No Brasil temos outro tipo de cultura. Diz-se que no Japão há uma cultura baseada no sentimento de vergonha, voltado para a reação da comunidade. O Brasil, como boa parte dos países ocidentais, tem uma cultura mais fundada no sentimento de culpa, mais individual. Tanto que um único suicídio, o de Getúlio Vargas, marcou nossa história, até pela raridade da prática”, contextualiza a psiquiatra e professora associada do Departamento de Neurociências e Saúde Mental da Ufba (Universidade Federal da Bahia), Miriam Gorender. Para a psiquiatra, no entanto, a subnotificação é muito grande e a taxa real seria no mínimo o dobro da oficial, embora não existam registros de atos cometidos por desonra. “É muito incomum o suicídio por desonra no Brasil. O médico psiquiatra, em qualquer dos casos, vai lidar diretamente com a doença mental de base, que ao alterar seu cérebro distorce a realidade percebida pelo paciente, e o fragiliza frente aos estresses da vida”, completa.

Embora a campanha oficial de prevenção ao suicídio termine em setembro, o Centro de Prevenção da Vida disponibiliza o a linha 141 para urgências para todos os meses do ano.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Prato típico provoca rivalidade entre Bahia e Espírito Santo

Foto: Divulgação

Conhecido cozido em todo o país que pode ser preparado com peixe ou frutos do mar, além de tomate, coentro e cebola, a moqueca é a responsável por fazer dois estados vizinhos, sem nenhum histórico de rixa, viverem uma briga pela “autonomia gastronômica”.  

A Bahia, no Nordeste, e o Espírito Santo, no Sudeste, dividem a “patente de donos da melhor moqueca”. No entanto, para o capixaba Vanderlei Mozer, a variedade é positiva. Garçom há 29 anos do restaurante São Pedro, em Vitória, Mozer diz defender bem sua bandeira. “Todos aqui dizem que moqueca mesmo é a capixaba, o resto é peixada”, brinca. “Mas eles também fazem um prato muito bom, são apenas costumes diferentes. Para quem não é habituado a comer azeite de dendê e leite de côco, a moqueca baiana pode ser pesada, dar dor de barriga. Mas a rivalidade é sadia, não é uma crítica. É só uma forma de dizer que nosso peixe é o mais gostoso”, completa.

O uso do azeite de dendê e do leite de côco, típico em diversos pratos da culinária baiana, é o que diferencia a moqueca dos dois estados. Garçom há 23 anos do Ki-Mukeka, em Salvador, o baiano Ismael Oliveira diz que a preferência pelos produtos locais não se dá apenas entre seus conterrâneos. “A maioria dos turistas que vêm aqui são de São Paulo e Rio, e eles gostam muito. Quando eles chegam, pensam que nossa moqueca é igual a capixaba. A deles não leva azeite de dendê e leite de côco, e quando provam percebem que a nossa é mais gostosa”, defende. 

Observada sob o ponto de vista científico, a rivalidade gastronômica entre os dois estados é muito importante, defende o doutor em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Ericivaldo Veiga. “A moqueca se inclui na discussão antropológica sobre a cultura brasileira. O bate-boca é útil quando se pensa em identidades”, diz o sociólogo, que escreveu o artigo “A Essência do Sabor Brasileiro: Segredos da Bahia”.  O sincretismo religioso na Bahia, onde o catolicismose mistura ao candomblé, tem também na moqueca uma ponte de ligação. “A cozinha baiana de origem africana é um subsistema do sistema culinário baiano, que por sua vez é parte do brasileiro. Na mais importante celebração entre os católicos, a Paixão de Cristo, se observa no lugar do jejum um momento apoteótico nas mesas baianas, principalmente no Recôncavo e em Salvador, no qual a cozinha do azeite de dendê ou a cozinha ritual do candomblé formam a maior parte dos pratos, e as moquecas são certas”, completa.

A miscigenação do povo brasileiro e principalmente, do baiano, foi fundamental para “africanizar” o prato indígena, aponta o doutor em antropologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Ordep Serra. “Aqui a gente releu tudo. A cultura negra é muito dominante, seja no modo de cantar, dançar, entre outras coisas. Nós fomos civilizados pelos negros e o povo baiano é bastante misturado”, afirma Ordep.

Na briga entre baianos e capixabas pela preferência nacional, quem ganha são os brasileiros. E você, já provou uma moqueca?

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O humor brasileiro através dos tempos

Adnet, Marcius Melhem (ex-Zorra Total) e Oscar Freire (ex-CQC) - Imagem: Caiuá Franco/TV Globo
Rir e fazer rir são conceitos universais. Os métodos para tanto, porém, mudam a cada geração. O que fez nossos pais caírem na gargalhada há décadas pode causar repúdio em nossos filhos, por exemplo. Como o humor pode explicar as mudanças de comportamento no Brasil? O mundo está ficando mais “chato” ou os humoristas são mais exigidos?

O grande desafio dos humoristas na atualidade é fazer rir sem serem ofensivos. A nova geração do riso traz novos personagens ou antigos nomes de peso que precisaram se repaginar. Os alvos das piadas de ontem e hoje se inverteram. 

O novo “Zorra”, Marcelo Adnet e Porta dos Fundos são exemplos da nova geração que já não fazem rir através de trapalhadas ou do humor politicamente incorreto. Lá se vai todo um “legado” deixado por Os Trapalhões, TV Pirata, Escolinha do Professor Raimundo, Sergio Mallandro, Casseta e Planeta, Zorra Total, Jackass, Pânico na TV e CQC, sem falar de seriados consagrados. O humor nacional, que se distingue do humor de outros países e do humor regional*¹, surge quando os veículos de comunicação de massa aumentam sua área de cobertura, do Caburaí ao Chuí. Primeiro com o rádio e a televisão, posteriormente com canais de You Tube e páginas no Facebook. No momento, o humor brasileiro está na sua quarta fase.

1: Fase “Trapalhona”

Para fazer rir dos anos 60 aos 2000 era preciso demonstrar ser “bobão”. Não havia conteúdo político nas piadas, já que boa parte dos profissionais do riso surgiu no período da ditadura militar. A sentença “Você conhece Marta? Então parta” se eternizou e é repetida mesmo pelas gerações que nunca viram TV Pirata, como a minha. Já Renato Aragão (ex-Trapalhões), Chico Anysio (ex-Escolinha do Professor Raimundo) e Sérgio Mallandro tiveram que se reinventar para não cair no ostracismo.

2: Fase da “Flagelação e Erotismo”

O público cansou de cenas de “mentirinha”. A partir dos anos 2000, o humor se tornou apelativo. Para fazer o outro rir era preciso se dar realmente mal. O programa “Domingão do Faustão”, da Globo, já havia lançado uma semente na década anterior com as “Vídeo Cassetadas”, mas o formato do programa era “familiar”, o que impedia de levar a flagelação a participantes do próprio programa. Em contrapartida, seus concorrentes, que tampouco se dedicavam exclusivamente ao humor, passaram a lançar quadros recheados de flagelação e erotismo, como o “Programa H”, da Band, com Tiazinha arrancando suspiros e risadas a cada vez que depilava um homem, e a Feiticeira, apenas arrancando suspiros, além do “Domingo Legal” do SBT com a “Banheira do Gugu”, que provocava suspiros, risos e suspense. Se é questionável o fato de esses programas serem considerados de humor, o “Pânico na TV”, até então na Rede TV, se aproveitou dessas fórmulas e rompeu a barreira dos rótulos ao encaixar humor e erotismo no mesmo programa com ainda mais apelação. A falta de conteúdo nas piadas (ou tentativas de piada), porém, fez o formato se desgastar e com isso houve o declínio da fase 2 do humor brasileiro.

3: Fase do “Humor Político”

A semente já havia sido plantada com o Casseta & Planeta, nos anos 1990. Oriundo da fusão de duas publicações impressas, o programa das terças-feiras da Rede Globo fazia deboche dos poderosos, mas na mesma intensidade ironizava as minorias, o que em alguns quadros não o tornava muito diferente do Zorra Total*². 

O site do cartunista Maurício Ricardo, Charges.com.br, fortaleceu ainda mais a fase que viria a seguir, que trocaria flagelação e erotismo por conteúdo político. No entanto, o tempo de semeia da fase 3 foi mais longo do que o seu período em si. O CQC, da Band, consolidou a fase do “Humor Político” com sua incrível audiência nas noites de segunda-feira a partir de 2008, com um formato em que os integrantes do programa faziam denúncias reais sobre problemas estruturais nas cidades, além de se infiltrarem no Congresso e em eventos de celebridades. Tudo isso arrancando gargalhadas dos telespectadores.

Os brasileiros se sentiam vingados. O humor político fazia coisas que nem o jornalismo se atrevia. Mas sua fase não perdurou pelo mesmo motivo da fase 2: o formato se desgastou porque o mundo mudou e os humoristas em questão não souberam se adaptar às mudanças. No lugar disso, preferiram bater de frente com o público que outrora o consagrou. Danilo Gentili e Rafinha Bastos passaram a se destacar em shows de stand up comedy, mas foram longe demais no quesito “romper barreiras do humor” e feriram minorias que passaram a ter voz e não toleraram piadas politicamente incorretas.

4: Fase do Humor Politicamente Correto

Em seu artigo “Carta Aberta às Humoristas do Brasil”, o colunista do Papo de Homem, Alex Castro, defende que “Não existe piada inofensiva: se alguém gargalhou é porque alguém se deu mal”. No entanto, reforça que “A questão é: quem se dá mal nessa piada?”.

No lugar de piadas que ridicularizam mulheres, negros, portadores de necessidades especiais e homossexuais, a nova geração do humor passou a satirizar machistas, racistas, homofóbicos e poderosos. Roteiristas precisaram se reinventar e novas caras surgiram. O novo formato do Zorra, na Globo, tem auxílio da equipe do site de humor “Sensacionalista”*³. Também na “plim plim”, Adnet passou a fazer sátira da própria televisão no programa “Tá no Ar”, e até alfinetou eleitores de direita, algo impensado de se fazer na emissora décadas atrás. 

O canal de You Tube “Porta Dos Fundos” já satirizou igrejas, polícia, comportamentos preconceituosos, injustiças do mercado de trabalho e até anti-petistas que o ameaçaram de boicote. Nem toda a repaginada, no entanto, imunizou o canal de críticas dos setores que exigem humor politicamente correto.

Um eventual enfraquecimento desse formato pode se dar por conta da bipolaridade que se encontra a política do país. Alguns humoristas dessa quarta fase são acusados de serem partidaristas e defensores incondicionais de políticas de esquerda. Esse formato atual tem data de validade? O que viria depois? Rir e fazer rir já não é tão fácil como antes. Que bom. 


*¹ O humor baiano cresce cada vez mais, mas o tema da postagem é humor brasileiro, que atinge todo o país. Cada estado tem seus humoristas, que contam piadas que muitas vezes só podem ser compreendidas por seus conterrâneos.

*² O Zorra Total tem o formato da fase 1, mas surgiu em um período em que as outras fases já preparavam terreno para dominar a programação da TV, como a fase 2, com as Cassetadas do Faustão como precursor, e a fase 3, com o Casseta & Planeta como principal introdutor do humor com conteúdo político a nível nacional, já que a televisão unificava o país como publicações impressas e rádio jamais conseguiram.

*³ O “Sensacionalista” é o principal site de humor da história que não usou recursos de áudio-visual. Seu fortalecimento se deu através das redes sociais, especialmente o Facebook. Outras páginas viveram grandes momentos, mas não conseguiram se manter por um período tão longo no auge, como “Esse É Alguém” e “Bode Gaiato”. Canais de You Tube, por sua vez, não se configuram como site ou página. 

terça-feira, 19 de abril de 2016

Compromisso com os indígenas

Foto: Ueslei Marcelino, Reuters
As culturas indígenas têm mais aceitação popular do que as demandas dos povos indígenas. Restaurantes peruanos são um sucesso em todo o Chile. Muitos dos que desfrutam dos sabores oriundos da civilização Inca, no entanto, se vangloriam dos colonos que trouxeram “progresso” ao continente à custa de milhões de mortes de pessoas que já habitavam estas terras antes da chegada
dos europeus.

Dá a impressão que os países sul-americanos não tinham apenas sede de independência no Século XIX. Havia também necessidade de uma busca por identidade nacional. De se distinguir de suas ex-metrópoloes, afinal de contas, suas elites eram formadas basicamente por brancos tal como os habitantes da Península Ibérica. Talvez por isso a literatura brasileira desde muito cedo tentou incluir elementos não-portugueses, a exemplo da obra “O Guarani”, de José de Alencar.

Até os dias de hoje há captação de “recursos genuinamente brasileiros” em prol do que eu interpreto como “vaidade regionalista”. Dar visibilidade às manifestações culturais das minorias é muito importante, mas não ajuda a combater o racismo quando o intuito é apenas fazer uma elite se distinguir dos seus primos portugueses e espanhóis. Apropriou-se das culturas indígenas sem ajudar a fortalecer as demandas dos seus povos. 
Jogadores de rugby do Brasil - Foto: Gaspar Nóbrega

Quando o rugby brasileiro decide apelidar sua seleção de “Tupis” e confecciona seus uniformes com temas que remontam a esse povo, deveria também assumir um compromisso forte com sua comunidade. A federação desse esporte poderia se posicionar a favor das cotas raciais e angariar fundos para as populações de áreas interditadas pela Funai, que podem carecer de recursos. Isso seria o mínimo.

Se uma personalidade recebe cachê por campanhas publicitárias, nada mais justo que grupos vulneráveis sejam recompensados por cederem licença pela exposição de sua cultura.

No Chile o fenômeno não é diferente. A arte gráfica da Copa América 2015 era repleta de temas mapuches, grupo até hoje influente no sul do Chile e que inspirou a fundação do principal clube de futebol do país, o Colo Colo, nome de um líder da etnia. No entanto, os meios de comunicação do país pouco falam das demandas do povo originário mais resistente da América austral. Apenas o tumulto provocado por alguns dos seus manifestantes ganham notoriedade, e não as causas defendidas. A problematização acerca das hidrelétricas construídas no sul da região da Araucanía só ganha espaço em veículos alternativos ou na imprensa internacional.
Design com temas mapuches

Hoje completam 76 anos do Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, no México. A data comemorativa foi criada no Brasil três anos depois, em 1943, pelo então presidente Getúlio Vargas. O dia de hoje, a meu ver, não é de festa. Não é de publicar foto com figurino indigenista ou de apenas reconhecer a importância do aporte cultural ao país. Hoje é dia de discussão. É dia de perguntar aos indígenas o que eles querem. Esta postagem é uma reflexão minha sobre a data. Espero aportar mais às causas justas e discutir mais sobre o tema durante todo o ano.

*Eu usei o termo "indígena", e não "índio" durante toda a postagem porque é o termo mais politicamente correto aqui no Chile, onde moro há um ano e oito meses. "Índio" soa pejorativo. 

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Ouvir primeiro, falar depois

O primeiro passo para se reconstruir é admitir os privilégios. A hashtag #meuamigosecreto no Facebook trouxe uma série de denúncias de mulheres contra o machismo e mea culpa de homens. Assumir um compromisso público com a reconstrução está adequado para esse grande momento que vive a rede social desde ontem. Qualquer outro posicionamento é falta de empatia, principalmente vindo de um homem.

Não é coincidência que a maioria dos grandes artistas, filósofos e políticos da história são homens. As coisas não estão equilibradas, e enquanto não estiverem equilibradas homens devem se preocupar mais em ouvir do que em falar. Já falamos muito durante milênios, desde o advento da escrita. A cicuta tragada por Sócrates matou o filósofo, não suas ideias. Nicolau Copérnico e Galileu Galilei tiveram corpos queimados, mas seus legados estão intactos. Homens alcançaram a eternidade mesmo morrendo, mulheres foram impedidas de nascer para a filosofia e para as ciências. 

Mulheres são julgadas por saírem sozinhas até nos dias atuais, imagine então levar ideias para tão longe quando pessoas eram queimadas na fogueira por parecerem “estranhas”. Não é à toa que há pouquíssimas bandas com guitarristas, baixistas ou bateristas mulheres. Para muitos homens, inclusive muito próximos de mim, mulher não deve “chamar atenção”, imagine viajar por aí tocando em uma cidade diferente a cada dia.

Há um dito que diz que temos dois ouvidos e uma boca para que possamos ouvir mais do que falar. Em momentos como o atual, é hora de escutar o que elas dizem sem nenhuma vírgula de ponderação. “Ah, mas tem muita hipocrisia no que muitas dizem” ou “nem todo homem é assim”: essa não é a hora de ser corporativista, é hora de se informar melhor. Eu sei o quanto posso melhorar em diversos aspectos. Lutarei todos os dias para ser uma pessoa melhor, e durante essa caminhada não deixarei de estudar, ouvir e ler mais do que supor, falar e escrever sobre o que não sei. 

Obs: Feminismo não é o oposto de machismo. Leia mais (apenas dois links que achei numa busca rápida pelo Google. Há muito informação na internet, é só buscar):

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Ser baiano

Foto: Lucas Franco
A Lavagem do Bonfim, na minha opinião, é o maior exemplo da idiossincrasia do baiano. Os abraços entre representantes do Candomblé e da Igreja Católica são símbolo de resistência em um mundo cada vez mais intolerante. Ao longo do tempo, porém, os baianos resistiram de todas as maneiras, indo à luta ou sorrindo, lutando pela independência do país ou transformando arte em protesto contra a ditadura militar.

Eu sou essa mistura. Todas as vezes em que saí do meu berço eu senti o quão especial é a cidade em que nasci. Mesmo com todos os seus problemas, o sorriso segue sendo a principal ferramenta de resistência dos soteropolitanos. Porque o baiano médio não perde as esperanças, mesmo quando liga a televisão e constata mais uma tragédia. Em uma cidade tão turbulenta como Salvador, é um milagre que seus habitantes sejam tão hospitaleiros. O baiano não sorri porque está conformado. Mas a vida não espera para que tudo se resolva e o baiano não se acomoda. Se não é possível ensaiar sua luta em público, se dança. Na falta de todos os ingredientes para a comida, capricha no quiabo. Mas nada de se submeter a professar uma fé que não seja a sua, mesmo que aparentemente demonstre submissão. A resistência do baiano é inteligente, brava e corajosa. A capoeira, o caruru e o Candomblé são símbolos da nossa cultura que resistiram depois de muita luta. Se não fosse essa luta, a cultura africana não teria sobrevivido, como não sobreviveu em muitos cantos do continente.

Ao contrário do que conta a história tradicional, a independência do Brasil foi conquistada com muito derramamento de sangue, assim como nos países vizinhos. Hospitaleiros sim, “pero sin perder la ‘dureza’ jamás”. A verdadeira libertação do país, em 2 de Julho de 1823, só aconteceu porque muita gente lutou antes dessa data. E seguiu lutando depois por outras tantas conquistas. Baiano nunca teve tempo para ter preguiça. 

Esse 2 de Julho tem um gosto um pouco amargo. Ontem, o presidente da câmara dos deputados, eduardo cunha, em uma manobra anticonstitucional, conseguiu aprovar proposta para diminuir a maioridade penal de 18 para 16 anos no Brasil. “Com tiranos não combinam brasileiros corações”, consta em uma parte do hino à independência. Mas quer saber de uma? Nada nunca foi fácil e a luta continua. Muitos sóis a Dois de Julhos hão de surgir, brilhando cada vez mais a cada conquista. Parabéns Bahia, parabéns Brasil!

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Obrigado, queridos professores de história

Zumbi dos Palmares - Imagem: Divulgação
Eu não poderia passar o 20 de novembro, dia da consciência negra, sem lembrar os meus professores de história dos tempos de colégio, especialmente Sérgio Guerra (sexta-série), o meu favorito, que despertou minha curiosidade sobre a cultura afro-brasileira e principalmente, sobre o Curuzu, como escrevi em uma postagem no início do ano. 

Ser professor no Brasil não é fácil. Não é de hoje que a educação pública está sucateada. No entanto, sugiro que também não são pequenas as dificuldades de lecionar história em um colégio privado. Narrar a trajetória do ser humano a partir do advento da escrita até os dias atuais é duro quando boa parte da sala de aula cultiva mitos enraizados pela família, que geralmente é de classe média, e pela televisão, tão pouco democrática. A educação de casa custa a envergar para a esquerda, não é a toa que nesse ambiente as cotas são mais questionadas do que o cruel sistema de vestibular. Afinal, quem estuda em colégios como Portinari, Anchieta, Sartre COC e Oficina larga na frente dos cotistas antes de preencher os primeiros gabaritos. Costumo dizer que a educação privada continuará bem até o dia em que os pais dos alunos influenciarem a escolha dos professores de história. Se a educação pública precisa urgentemente de investimentos, a particular “se salva” porque seus professores de esquerda mostram aos alunos que o mundo não começou com a gestação de suas mães. Meus pais, felizmente, facilitaram meu caminho simbólico rumo ao Curuzu, por isso 20 de novembro também é dia de agradecer a eles. 

Obrigado Garrido (terceiro ano do ensino médio), por revelar que Duque de Caxias matou inúmeros paraguaios apenas por maldade. O patriotismo não deve se sobrepor à decência. Chico Pedro, meu único professor negro de história (quinta série), você tem total mérito por me fazer gostar da matéria que leciona com tanto amor. Fábio Machado (sétima séria), até hoje me lembro da trajetória das primeiras civilizações do Oriente Médio e Europa porque suas aulas eram mais dinâmicas do que qualquer documentário ou livro escolar. Freitas (oitava série e primeiro ano do ensino médio), lamento que não estejas em nosso plano material, mas aí do alto saiba o quão fundamental suas aulas foram para que eu fizesse um paralelo entre episódios do passado e o comportamento social moderno. João Gualberto (segundo ano do ensino médio), suas críticas à alguns setores da imprensa me tornaram um leitor mais crítico. Parabéns pelo bom exemplo Zé Carlos (cursinho), pois você tinha motivos para ser amargurado, mas manteve seu sorriso, cordialidade e capacidade de descrição, apesar das torturas que sofreu durante a ditadura militar. Todos esses professores tiveram enorme importância na formação de meu caráter por seus inúmeros ensinamentos. Mas é principalmente Sérgio Guerra que me faz lembrar o 20 de novembro. Ele provou o quão pouco baianos são os estudantes de colégio particular (leia minha postagem “Where is the 'dendê' in my blood?”). Como bom docente, porém, mostrou os caminhos para a “baianização”. Nem tudo estava perdido.

Dia desses me peguei pensando sobre de quem é a responsabilidade sobre o alarmante índice de crimes cometidos pela polícia, sejam mortes em tiroteio nas favelas ou abuso de autoridade. Os números são altos e há uma evidente diferença no tratamento dado a um jovem branco e um jovem negro, o que inclusive já foi admitido (PM de Campinas determina abordagem de suspeitos de ‘cor parda e negra’). Não reconhecer essa triste realidade, em que receptividade, oportunidades e traços étnicos estão inter-relacionados, a meu ver, já torna uma pessoa cúmplice do racismo, seja por maldade, omissão ou ingenuidade. Os mesmos pais que não ensinam a importância de Zumbi dos Palmares para suas crianças só se atentam para a violência urbana quando são assaltados na porta do colégio (Após assalto em escola na Pituba, pais protestam para pedir segurança). Na mesma cidade, todavia, a violência da polícia para “manter a ordem” vitimiza gente que só é lembrada quando para o trânsito para queimar pneu e chamar atenção sobre a violência. Se a indignação pela violência fosse compartilhada por todos, independentemente do bairro, não teríamos no mínimo uma sociedade mais solidária? Ou solidariedade se restringe aos vizinhos? Não foi apenas a maldade, mas também a falta de solidariedade que fez o Brasil amargar mais de 300 anos de escravidão. Falta de solidariedade que permanece nos dias atuais.

O racismo brasileiro é “sutil”. Disfarça-se de “humor politicamente incorreto” e “meritocracia”. Quase justificado pelo conceito de predestinação de João Calvino. Uma prova de que é fácil ser conservador quando “a vontade de Deus” te favorece. O racismo também está em desqualificar o cabelo crespo, o candomblé e a cultura afro-brasileira em geral. Não me surpreende que venha de Marcos Feliciano a manutenção da idéia de que “a África é um continente amaldiçoado”. O racismo consegue juntar descriminação racial e intolerância religiosa no mesmo discurso, e choca menos a sociedade do que um beijo gay na novela. Em ambientes “conservadores”, questionar pode ser “enxergar racismo em tudo”. É por isso que eu digo e repito: obrigado professores de história. Vocês me deram as ferramentas necessárias para melhorar o mundo. Depende de mim colocar em prática todos os dias, seja em Salvador ou aqui na Patagônia, onde vivo há três meses. 

* Por tanto gostar de história e entender a importância das lembranças de datas, estátuas e nomes de lugares (continentes, países, estados, cidades, bairros e ruas), eu imaginei como seria bom se...

- o 20 de novembro, data de morte de Zumbi dos Palmares, fosse um feriado de 4 dias e as famílias pudessem viajar para celebrarem juntas, como no natal, com tardes de caruru e noites de maracatu, capoeira e tudo que lembre a cultura afro-brasileira.

- as estátuas de Duque de Caxias fossem arrancadas como as de Saddam Hussein no Iraque após invasão estado-unidense ou as de Franco na Espanha após a ditadura no país ibérico. Não estou comparando os personagens, mas as atrocidades cometidas pela guerra, que não deveriam ser orgulho para ninguém.

- o continente em que vivemos deixasse de se chamar América, e a Colômbia também ganhasse outro nome. Afinal, Américo Vespúcio e Cristóvão Colombo não merecem mais essa homenagem do que nossos libertadores.