terça-feira, 10 de abril de 2012

A Copa de “todos”

A Copa do Brasil é folclórica, democrática e surpreendente. Não faltam ingredientes para atrair tantos times pequenos na disputa do “caminho mais curto para se chegar à Libertadores”. Mas o que pensam os grandes clubes sobre esta competição? O São Paulo vai à Feira de Santana com a obrigação de vencer o modesto Bahia de Feira por pelo menos dois gols de diferença. O certame vem ofuscando até a participação da dupla Ba-Vi no torneio, mas de nada adiantará ao time do interior baiano arrancar bom resultado contra os paulistas se no domingo a classificação para as semifinais do Baianão não vier.

Com o calendário sufocado pelos estaduais, agremiações de todo o país que jogam a partida de ida fora de casa se doam ao máximo para vencer a partida por mais de um gol de diferença e com isso, eliminar a partida de volta. A Copa do Brasil é democrática até nas metas individuais de cada atleta: há os que lutam para segurar uma derrota por apenas 1 a 0 para viajar com os companheiros para uma cidade em que dificilmente poderiam conhecer se não fosse por intermédio do futebol. Há, porém, quem entre em campo focado em se exibir para a as câmeras de TV e conseguir ser negociado para outro clube.

A “Copa de todos” só terá um dono, mas distribui presentes que vão do prestígio de enfrentar Loco Abreu ao sonho de pisar no Engenhão. Depois do “jogo inesquecível”, a vida volta ao “normal”: partidas em gramados esburacados e sem transmissão televisiva e poucos coros de torcida. Que bom seria para os times pequenos se os duelos contra gigantes durassem o ano todo. Como seria melhor para os grandes clubes se houvessem mais vagas para a Libertadores.

Foto: Bahia de Feira venceu o Bahia no Joia da Princesa | Crédito: Luiz Tito

quinta-feira, 29 de março de 2012

Ídolo x título, o que mais importa?


Há quem diga que para se tornar ídolo de um time é preciso fazer parte de uma façanha histórica. A história do futebol, porém, contradiz essa tese com alguns exemplos, afinal de contas, de quem a torcida do Internacional sente mais saudade em campo: Falcão, gênio que não conseguiu dar o inédito título da Libertadores para o clube, ou Iarley, o destaque da final do mundial de clubes contra o Barcelona, em 2006? Iarley, sem dúvida, foi um bom jogador, vestiu a camisa 10 de Maradona no Boca Juniors quando o clube argentino ganhou seu último título mundial, em 2003, mas não entrou na relação dos principais jogadores brasileiros de todos os tempos, fruto de uma lista elaborada por PVC e André Kfouri com o nome de 182 craques em que internautas escolheram os 100 melhores.

Falcão nunca ganhou um título internacional como atleta, nem mesmo na Roma, onde é idolatrado até hoje por ter ajudado o clube a ser campeão italiano após quase 40 anos, em 1983. Nesse caso, o título nacional o ajudou a se tornar "rei". O craque colorado também se destacou na Seleção Brasileira, especialmente na Copa do Mundo de 1982, quando foi escolhido como melhor jogador do torneio apesar da saída prematura do "Scratch Canarinho". Mas os legados valem mais do que troféus e, com todo respeito a atletas como Iarley, para ser especial não basta se esforçar: é preciso ter o dom.

Cinco times brasileiros brigam para faturar a Libertadores. A maioria deles já conquistou a América: o Santos, em 1962, 63 e 2011, o Flamengo, em 1981, o Vasco, em 1998 e o Internacional, como já citei, em 2006. Fluminense e Corinthians sofrem com a chacota dos rivais por não terem chegado ao topo do continente. Mas será que se o tricolor carioca vencer Fred tomará o lugar de Castilho, Rivelino e Assis? E se o Coringão quebrar o tão incômodo jejum, Ralf e Paulinho ofuscarão o brilho de Sócrates? Magrão foi muito mais que um atleta brilhante: suas ideias de repensar o esporte estão vivas até hoje.

Eu não vi Falcão, Castilho, Rivelino, Assis e Sócrates jogarem, infelizmente. No entanto, nem sempre é preciso ter vivido uma época para tirar conclusões do que pode ser mais importante na história de um clube: o talento que deslumbra gerações ou o esforço para conquistar um título inédito. Atualmente me deslumbro pelo talento de Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo e defenderei para meus netos suas memórias assim como tanto defendem até hoje a memória de grandes astros do passado.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Torcedores fazem twitcam de jogo do Bahia na Paraíba


Apesar da expectativa em torno do jogo de estreia na Copa do Brasil, contra o Auto Esporte da Paraíba, o torcedor do Bahia ficou frustrado ao saber que a partida não seria transmitida pela TV. Criativos, os tricolores logo inventaram uma forma de levar as imagens de João Pessoa para todo mundo, com direito a narração dos torcedores e até “entrevista” com Binha de São Caetano, folclórico torcedor. A transmissão é feita pelos blogueiros do Bora Bahêa Minha Porra. Acompanhe clicando aqui.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Meu ex-ídolo Ronaldo

Sabe aqueles ídolos que você tem na infância? Torça para que eles nunca te decepcionem. Ronaldo Fenômeno, jogador tecnicamente inquestionável e de uma história de superação magnífica, já não é mais meu ídolo há algum tempo, mas não cansa de me surpreender [negativamente]. Aliado de Ricardo Teixeira desde que aceitou um cargo no Comitê Organizador Local da Copa de 2014 (COL), o “Fenômeno” tem mostrado habilidade para “driblar jornalistas” quando lhe convém, mostrando-se um autêntico “discípulo” do presidente da CBF, o mesmo que em entrevista à Revista Piauí declarou estar “cagando para denúncias de corrupção” repercutidas pela imprensa.


Curtindo o Carnaval de Salvador no camarote Expresso 2222 com sua esposa, Bia Anthony, o ex-jogador se recusou a falar com os repórteres que cobriam a festa no local, principalmente se o assunto envolvesse o mundial que acontecerá no país. “Depois a gente conversa sobre isso” foi o “migué” dado por Ronaldo ao Bahia Notícias, que queria saber mais detalhes sobre a ida do também ex-jogador Bebeto ao COL.

Carismático e sagaz, Ronaldo tem consciência de seu prestígio. Arrodeado de tietes até em coletivas de imprensa, quando jornalistas o saúdam de “fenômeno” ou “fera” antes de fazer uma pergunta, o ex-jogador também sabe intimidar. “Ué, ninguém vai me perguntar do tal tráfico de influência? Vocês só falavam disso e agora estão com medo de perguntar?”, disse na coletiva de imprensa em que explicou o cargo do COL, com a consciência de que não são poucos os jornalistas que pegariam uma fila quilométrica para tirar foto com o ídolo após a última pergunta.

Mas o jogo está se invertendo. Teixeira está cada vez mais ameaçado de deixar a presidência da CBF, após mais de duas décadas. O cronista esportivo Gian Oddi, no seu blog na ESPN, questionou o que pode ter levado o Fenômeno a correr o risco de manchar a reputação. “A explicação mais comum, de que Ronaldo fica mais influente com o cargo no COL e, portanto, terá mais condições de alavancar negócios para sua empresa [a agência de marketing esportivo 9ine] não me convence. Primeiro porque não se trataria de procedimento ético e, até que provem o contrário, não vou questionar a ética de Ronaldo.”

Fugas de perguntas “complicadas”, alianças duvidosas e até mudanças de opinião repentinas. Em sabatina da Folha de S. Paulo no dia 15/05/2009, o ex-jogador se referiu a Ricardo Teixeira como “uma pessoa que demonstra ter duplo caráter”. Na última sexta-feira, o ex-jogador disse que “a gente” (povo brasileiro) deve muito a ele por ter trazido a Copa ao país. Ao menos não há denúncias de corrupção com o nome de Ronaldo para que ele “cague” para a repercussão da imprensa.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O carnaval que iniciou um ano

Há quem diga que, no Brasil, o ano só começa depois do carnaval. Faculdades com números irrisórios de alunos durante as primeiras semanas de fevereiro só reforçam esse estereótipo tupiniquim, e a produção nacional passa a se sentir ameaçada com tamanho mito acerca da folia momesca. Será que as pessoas dão o melhor de si antes de pular atrás do trio elétrico? Especulações à parte, o ano de 2012 vem representando com fidelidade o questionamento em questão.

A ocupação dos grupos de policiais grevistas na Assembleia Legislativa de Salvador, no fim de janeiro, assustaram os soteropolitanos e turistas que viam seu carnaval sob ameaça. Em estudo feito pela ONG mexicana Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal, a capital baiana aparece como a 22ª cidade mais violenta do mundo, e uma redução de contingente policial assustava a todos, menos os patrocinadores do carnaval, que estavam otimistas com a organização do evento. “Achamos legítimo que cada categoria possa reivindicar, mas estamos otimistas que o melhor vai acontecer para todos”, disse o diretor de marketing do Itaú, Fernando Chacon, em entrevista ao Bahia Notícias. Nos quatro primeiros dias da greve da polícia militar 50 homicídios foram registrados em Salvador e região metropolitana, fazendo o número dobrar em relação a média normal, que já credenciava a cidade como a 22ª mais violenta do planeta.

Tudo “acabou bem”. Ninguém conseguirá recuperar as vidas perdidas durante o período, tampouco o número de turistas que cancelaram suas vindas para o carnaval devido a falta de segurança da cidade. Mas o carnaval está rolando, o Campeonato Baiano sequer chegou a parar, a cerveja continua gelada e o Bahia agora usa Nike. Para quem só espera começar um ano depois da festa momesca, a quantidade de episódios e causos nos dois primeiros meses do ano não deixaram a desejar, e agora sim as aulas vão começar, a "segurança voltará", e tudo "voltará ao normal". O que esperar para o resto do ano? Se o mundo não acabar até lá, talvez nós acabemos com o mundo.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Calma tricolores...


Um clima de euforia tomou a torcida do Bahia, que além de estar feliz com a vaga para a Sul-Americana, terá como fornecedora de material esportivo a Nike. Há motivos para se gabar? A marca americana já recebeu inúmeras denúncias de exploração em países subdesenvolvidos da Ásia, onde a mão de obra é mais barata. Num amistoso entre Brasil e Holanda, na Fonte Nova, em 1999, uma faixa da Nike cobriu o círculo central do campo minutos antes da partida, provocando vaias dos espectadores, ainda desconfiados de que o fiasco na Copa de 98 tenha sido uma conspiração da marca americana, fazendo a Seleção Brasileira, vestida de Nike, perder para a França (patrocinada pela Adidas) por 3 a 0.

A Nike vai pagar para o Bahia quatro vezes mais que a Lotto, segundo o presidente do clube, Marcelo Guimarães Filho. Esse é o maior motivo para vangloriar a vinda da empresa ao Esquadrão de Aço, que terá mais recursos para montar um time mais competitivo – embora as contratações e renovações estejam demorando bastante. Porém, a questão do status tem feito a rivalidade Ba-Vi sair das quatro linhas, já que o Vitória é patrocinado pela marca nacional Penalty.

A marca não faz uma equipe ser vencedora. Corinthians, São Paulo e Internacional foram os últimos brasileiros a vencerem o mundial de clubes, em 2000, 2005 e 2006, respectivamente. Ambos trajavam Topper. O Flamengo teve a Nike estampada em sua camisa por sete anos. No ano em que rescindiram com o fornecedor, em 2009, acabaram sendo campeões brasileiros vestindo Olympikus, quebrando um jejum de 17 anos sem vencer o título nacional.

O torcedor, em geral, responde mais pelo coração do que pela razão, especialmente se for numa discussão com um rival, onde até o fornecedor de material esportivo vira chacota. Mas acho que o tricolor tem que ter em mente que a honra maior é a da Nike, que vai patrocinar um grande time como o Bahia, e não o contrário.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A década que começou numa primavera


Na minha opinião, dois fatos simbolizaram os anos 2000. A eleição de Barack Obama e as dez estatuetas conquistadas pelo filme “Quem quer ser um milionário?” apontavam uma quebra de paradigma inimaginável há 10 anos. Na semana da consciência negra, em 2008, um homem negro foi eleito o presidente dos Estados Unidos, a maior potência econômica do planeta. Menos de um ano depois, um filme estrelado por indianos e ambientado na Índia foi reconhecido por Hollywood como a melhor obra cinematográfica do mundo, em 2009. Aqueles fatos eram um aperitivo para o que viria na década seguinte. E 2011 não decepcionou as pretensões de quem acredita em mudanças significativas na sociedade.

A primavera árabe foi a transformação mais significativa deste ano. Populações controladas pelo medo se rebelaram contra regimes sanguinários e covardes, e o saldo, até o momento, são mais de 30 mil mortos e algumas reivindicações conquistadas pelos manifestantes, a exemplo do exílio de alguns ditadores, como o ex-presidente do Iêmen, Saleh, que deixou o poder após 33 anos, disposto a conciliar novas eleições em dois anos. Há quem diga que os povos do norte da África e oriente médio estão acostumados com o regime ditatorial e o vácuo deixado pelos antigos líderes não poderá ser preenchido com a democracia. Isso só o futuro irá dizer, mas assim como a Revolução Francesa, a Primavera Árabe tem inspirado diversos movimentos pelo mundo, até mesmo no futebol. Torcedores de Palmeiras e Bahia que querem eleições diretas em seus clubes afirmam que suas inspirações foram os movimentos ocorridos no Oriente Médio a partir do final do ano passado.

Será que o mundo está mudando para melhor? É bom não fazer qualquer tipo de prognóstico precipitado, afinal, a Primavera Árabe, que completou um ano anteontem, 17 de dezembro, ainda terá muita água para rolar. Enquanto os árabes buscam mudanças radicais em suas estruturas políticas, aqui no Brasil a Copa de 2014 parece fazer a população esquecer suas necessidades básicas. Soteropolitanos manifestaram sua indignação por serem negligenciados pela FIFA na escolha das datas do Mundial. A primeira capital do país só receberá a Seleção Brasileira se esta terminar na segunda colocação do grupo e passar pelas oitavas de final. João Saldanha diria que "se macumba ganhasse jogo, o Campeonato Baiano terminaria empatado". Serão precisos muitos "trabalhos" para fazer a equipe canarinha não terminar a primeira fase na liderança, mas quem duvida do povo baiano?

Brincadeiras à parte, o evento da FIFA pretende driblar algumas regras estabelecidas pelas leis brasileiras, a exemplo do consumo de bebidas alcoólicas em estádios e a venda de ingressos a meia-entrada para estudantes e idosos. A Lei Geral da Copa foi assinada pela presidente Dilma Rousseff, que não se mostrava tão subserviente ao órgão máximo do futebol como seu antecessor Lula. Agora, a Lei Geral da Copa será discutida no plenário da Câmara do Senado e precisa ser assinada pelos seus membros para que o evento seja “oficializado”. Essa questão vem sendo questionada inclusive por gente de fora, como o jornalista escocês Andrew Jennings. Autor do livro Jogo Sujo - O Mundo Secreto da FIFA, Jennings se tornou conhecido no Brasil após duas participações no programa Bola da Vez, da ESPN, e de ter prestado depoimento na Câmara dos Deputados, em Brasília, esclarecendo os interesses da FIFA com a realização do Mundial e defendendo a soberania do Estado Brasileiro.



Romário: a surpresa e decepção do ano na política

Andrew Jennings parecia ter um aliado e tanto na Câmara. Deputado Federal pelo Rio de Janeiro, o ex-jogador Romário havia sido eleito sob muita desconfiança, numa época em que o palhaço Tiririca havia levado a maior quantidade de votos do país com o slogan "Vote em Tiririca, pior do que tá não fica". No entanto, Romário mostrou ser diferente dos candidatos folclóricos e se tornou assíduo frequentador das audiências, além de questionar constantemente os métodos para a realização da Copa de 2014. O ex-jogador deu esperanças a muitos brasileiros quando se pronunciou sobre o presidente da CBF Ricardo Teixeira e o secretário geral da FIFA Jerome Valcke.



Na última sexta-feira, porém, Romário se reuniu com Ricardo Teixeira e o também ex-atacante Ronaldo, que ganhou um cargo no COL, Comitê Organizador Local da Copa do Mundo, na sede do COL, no Rio de Janeiro. O discurso conivente do deputado federal decepcionou todos que depositaram nele as esperança de busca por transparência no mundial. Terá sido apenas uma recaída de quem por tanto tempo foi amigo do ex-presidente do Vasco Eurico Miranda, ou Romário resolveu "trocar de time?". Só o tempo irá dizer.