quarta-feira, 1 de março de 2017

O que Recife e Olinda me ensinaram

Marco Zero lotado na sexta-feira (24 de fevereiro de 2017), abertura do carnaval de Recife
Ir ao carnaval, ou melhor, ir aos carnavais de Recife e Olinda eram um sonho para mim. Um só sonho, no singular. Tão singular como as duas cidades pernambucanas. Mas afinal, as festas momescas em Pernambuco são melhores do que em Salvador? Vou te contar uma coisa.

O sentimento de pertencimento é muito importante. Sentir-se local, filho de determinada cidade, região ou continente. Me lembro que no Chile, país em que morei por dois anos, era comum ouvir músicas de diversos países hispanohablantes, e chamava a atenção dos chilenos que eu, nascido em um país do mesmo continente, não conhecesse até as músicas mais famosas da Argentina, Colômbia, México, Cuba e Porto Rico. A língua é uma barreira invisível. Diferente do muro pretendido por Trump para separar Estados Unidos e México, há uma parede invisível que impede os brasileiros de conhecerem Celia Cruz, Manuel Mijares e Carlos Vives. No Chile, eu aprendi a ser latino-americano, e não apenas brasileiro. Em Recife e Olinda, eu aprendi a ser nordestino, e não apenas baiano. 

Conheci Almir Rouche e Marrom Brasileiro, lendas pernambucanas pouco conhecidas fora do estado. Era impressionante a conexão entre artista e público no Marco Zero, como todos sabiam cantar, com emoção, músicas antigas que eu nunca havia escutado. Após repetidas execuções dos clássicos, eu já fazia coro ao refrão "Ai que calor, ô, ô, ai que calor, ô, ô, ai que calor, ô, ô, ô, ô, ô... ô, ô", como um pernambucano a mais na multidão.



Sou nordestino, logo, essa música também é minha. E a guitarra de Armandinho, além de baiana, é pernambucana. Porque somos todos da mesma região, diversificada, mas com muito mais semelhanças entre os estados do que se costuma pensar. E é por isso que não existe uma resposta à pergunta "qual o melhor carnaval: Recife, Olinda ou Salvador?". Ambos são maravilhosos, únicos, e ao mesmo tempo fazem parte do mesmo todo. É uma festa só, de uma região que poderia fazer mais trocas entre si.

"Eu Acho é Pouco", um dos blocos mais famosos de Olinda, no sábado (25)


Não é verdade que "música baiana e referências à Bahia não entram no carnaval de Pernambuco". "Cometa Mambembe", consagrada nas vozes do cearense Alcymar Monteiro e da paraibana Elba Ramalho e tão tocada no Galo da Madrugada, foi composta por um baiano, Carlos Pitta. Já "Banho de Cheiro", homenagem à Bahia também emplacada por Elba Ramalho, foi escrita por Carlos Fernando, que nasceu em Caruaru, morou a maior parte de sua vida em Recife, Olinda e Rio de Janeiro e é considerado um dos maiores responsáveis por unir frevo e MPB, ajudando a expandir referências ao Senhor do Bonfim, Filhos de Gandhy e Boca do Rio.






Nada supera o que presenciei no show de Otto na segunda-feira (27), no Pátio São Pedro, no Recife Antigo. O local parece a Praça Tereza Batista, no Pelourinho, em Salvador, e a emoção do público contagiava. Em todos os momentos do show o artista, nascido no interior de Pernambuco, falava da emoção de estar na cidade que o acolheu e da qual se sente pertencente, de se sentir o espelho do público e de sentir que o público é o seu espelho, para em seguida dizer "mas vamos falar de Salvador agora" e emendar "Janaína", música que fala da festa de Iemanjá, que acontece no dia dois de fevereiro, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador.




Não é a única música de Otto que cita Salvador, mas me senti representado pela citação à minha cidade antes de ele começar a cantar uma música que fala da minha cidade em pleno carnaval de Recife, mesmo em meio a um público que parecia ser predominantemente local. E fico feliz que vários recifenses se sintam representados pela canção como eu me senti representado pelas músicas pernambucanas que ouvi.

Se no Chile eu conheci muitas músicas que me fizeram me sentir mais latino-americano, independentemente das diferenças que existem entre os países do continente, em Recife constatei que nenhuma diferença deve ser maior do que o sentimento de união em torno de uma só causa, o carnaval. Uma festa só, em várias cidades. Assim deveria ser o mundo: multicultural e único. Como as músicas de Otto.

Em Bora Tao
Em Bangladesh Goa
Na China Mao
Free Tibet para mim é pessoal
Lavanda ofereço orixá
Luanda, Havana e Salvador
Na lama do Recife sou xangô
Umbanda, caranguejo, salta a dor
Que idade banha ele
Banho de mar
Que idade banha ele
Iemanjá

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

China, dinheiro e futebol: uma nefasta combinação

Foto: CCTV
O mais popular esporte do planeta corre perigo. O futebol, como conhecemos hoje no Brasil com a pronúncia de “futibóu” e que por essas bandas já se chamou “football”, vai precisar se reinventar muito para sobreviver às novas investidas da China. Não que este seja o primeiro desafio. A descrença no jogo já havia sido repercutida em 1920 pelo escritor Graciliano Ramos, que em artigo ao jornal alagoano “O Índio” cravou que “estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho. O futebol, o boxe, o turfe [corrida de cavalos], nada pega”. Pegou e “abrasileirou-se”. Nos anos 2010, é justamente a versão brasileira do jogo que tem chamado a atenção do outro lado do mundo. Era preferível a descrença do Século XX à obsessiva “admiração” dos orientais. 

Não é novidade que grandes clubes de outros continentes contratem estrelas sul-americanas. O que é novidade é a saída até de jogadores medianos por cifras inimagináveis, o que tem enfraquecido as ligas do continente e as disputas intercontinentais de clubes. O êxodo para a Europa pelo menos agraciava o fã do esporte com a formação de “dream teams” multiétnicos, o que ao longo do tempo deixou inúmeros legados. Do Real Madrid de Puskas e Di Stefano ao Barcelona de Messi, Suárez e Neymar. No entanto, quando os leilões por jogadores não deixam legado algum, o sinal de alerta deve ser acionado no mundo da bola.

Para entender o quão nefasta é a combinação China, dinheiro e futebol, é preciso entender o tamanho do país asiático no cenário. Participante de apenas uma edição de Copa do Mundo, em 2002 (três derrotas, 9 gols sofridos e nenhum marcado), e sem títulos em torneios continentais com a seleção principal, seus clubes venceram apenas três das 35 edições de Liga dos Campeões Asiáticos disputadas. Dos 14 jogadores que estiveram em campo no último jogo da seleção chinesa, em novembro do ano passado, empate sem gols e dentro de casa contra o Catar, pelas eliminatórias da Copa, apenas um atuava fora do país, o atacante Zhang Yuning, reserva do holandês Vitesse (nem sempre é relacionado para jogar). O Vitesse, que tem parceria com o Chelsea desde 2010, é o oitavo colocado na modesta Eredivisie, que conta com 18 times. Dezessete rodadas já foram disputadas e Yuning marcou apenas um gol.

Treinada pelo italiano Marcello Lippi (campeão europeu e mundial com a Juventus em 1995 e da Copa do Mundo com a Itália em 2006), a China é a lanterna do Grupo 1 das eliminatórias, com dois pontos em cinco jogos disputados, e está praticamente fora do mundial de 2018, na Rússia. Será muito difícil que as milionárias transações deixem algum legado se o nível dos jogadores locais continuar tão baixo, já que só é permitida a participação de quatro estrangeiros por equipe. Do ponto de vista tático, tampouco há boas perspectivas. Os treinadores, embora vitoriosos em outras épocas,  há muito tempo não fazem um bom trabalho, a exemplo de Luxemburgo (demitido em 2016 do Tianjin Quanjian, da segunda divisão), Scolari (após parcela de responsabilidade em rebaixamento do Palmeiras em 2012 e nos 7 a 1 do Brasil na Copa de 2014, foi contratado pelo Guangzhou Evergrande, onde está até hoje) e Mano Menezes (demitido esse ano do Shandong Luneng, o treinador perdeu prestígio após pedido de demissão inesperado do Flamengo em 2013, mas atualmente tenta juntar os cacos no Cruzeiro). 

A Chinese Super League foi a sexta liga com maior média de público do planeta em 2015, com 22.580 torcedores. A expectativa dos dirigentes é que a liga local se torne uma “Premier League Asiática”. Falta muito. As ligas japonesa e coreana contratam brasileiros de nível técnico mediano desde os anos 1990. Países do Oriente Médio também não poupam esforços. Não é coincidência que os clubes brasileiros precisem aumentar os preços dos seus produtos licenciados e ingressos e ainda assim passem por situação financeira difícil. O futebol, que chegou ao Brasil como um esporte de elite, se popularizou e em momento de inflacionamento de mercado deixa de encantar e de atrair as multidões. Está caro ir ao estádio e não é fácil para os clubes manterem a base com tamanho assédio da China, que no início de 2016 desfalcou o detentor do título brasileiro Corinthians com a transferência de quatro dos seus titulares. É hora de o futebol brasileiro se reinventar novamente e usar suas armas contra as investidas orientais. Se é que a China também não vai comprar as armas.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Suicídio por desonra existe no Brasil?


Organizações brasileiras ligadas à saúde escolheram o mês de setembro para iniciar uma campanha de prevenção ao suicídio. Embora os índices locais sejam altos, uma das causas que levam ao ato não são recorrentes no país: a desonra.

No outro lado do mundo, no entanto, a prática de usar a espada contra si próprio foi comum por muitos séculos e, segundo estudiosos em cultura e história japonesa, ainda há reflexos nos dias atuais. “O haraquiri [suicídio praticado pelos samurais] surgiu entre 1139 e 1177. A razão que explica o haraquiri como uma honra é proveniente da crença de que na região abdominal se vive a alma e o amor das pessoas. Essas crenças de morrer honrosamente ficaram enraizadas”, contextualiza a diretora educacional da Federação Cultural Nipo-Brasileira da Bahia, Angela Tamik. 

Em outro extremo, os programas eleitorais no Brasil provocam incredulidade. Muitos dos candidatos, investigados por diversos crimes, concorrem a cargos públicos municipais em todo o país neste domingo, dia 2 de outubro. “Todos os políticos [que cometessem crimes] tinham de efetivar haraquiri. Os que permanecessem tinham de investir na educação e na saúde da população para reerguer o país como o Japão, depois da segunda guerra mundial, onde todos foram alfabetizados”, desabafa Angela Tamik, que é PhD em Ciências da Saúde pela Universidade de Tokyo.  

Apesar de conscientes acerca dos problemas estruturais do país, nem todos os brasileiros enxergam a proposta de Angela como a solução, afinal, suicídio é um tabu no ocidente e os jornais não relatam notícias a respeito, também com a finalidade de não fazer apologia. “Acho que no Brasil a corrupção é tão escancarada que ninguém sente essa vergonha extrema ao ponto de cometer um suicídio por honra”, opina o ex-repórter de política do Bocão News e hoje assessor de comunicação da Câmara Municipal de Vereadores de Salvador, Marivaldo Filho. “Apesar de acreditar, com base em fé pessoal, que o suicídio nunca será o melhor caminho, imagino o quão doloroso deve ser para alguém ser vítima de uma situação como a que está acontecendo atualmente com o Brasil, bem diferente de um suicídio por honra em decorrência de um desvio de caráter pessoal”, discorre o jornalista. 

Embora a desonra não interfira na estatística de suicídios no Brasil, os números são altos no país. Cerca de 12.000 pessoas tiram a própria vida por ano e mais de 90% dos casos de suicídios estão relacionados com doenças psiquiátricas que podem ser tratadas. O Brasil é o oitavo país com mais suicídios no mundo, embora a taxa de seis suicídios para cada 100 mil habitantes esteja abaixo da maioria dos países. “No Brasil temos outro tipo de cultura. Diz-se que no Japão há uma cultura baseada no sentimento de vergonha, voltado para a reação da comunidade. O Brasil, como boa parte dos países ocidentais, tem uma cultura mais fundada no sentimento de culpa, mais individual. Tanto que um único suicídio, o de Getúlio Vargas, marcou nossa história, até pela raridade da prática”, contextualiza a psiquiatra e professora associada do Departamento de Neurociências e Saúde Mental da Ufba (Universidade Federal da Bahia), Miriam Gorender. Para a psiquiatra, no entanto, a subnotificação é muito grande e a taxa real seria no mínimo o dobro da oficial, embora não existam registros de atos cometidos por desonra. “É muito incomum o suicídio por desonra no Brasil. O médico psiquiatra, em qualquer dos casos, vai lidar diretamente com a doença mental de base, que ao alterar seu cérebro distorce a realidade percebida pelo paciente, e o fragiliza frente aos estresses da vida”, completa.

Embora a campanha oficial de prevenção ao suicídio termine em setembro, o Centro de Prevenção da Vida disponibiliza o a linha 141 para urgências para todos os meses do ano.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Prato típico provoca rivalidade entre Bahia e Espírito Santo

Foto: Divulgação

Conhecido cozido em todo o país que pode ser preparado com peixe ou frutos do mar, além de tomate, coentro e cebola, a moqueca é a responsável por fazer dois estados vizinhos, sem nenhum histórico de rixa, viverem uma briga pela “autonomia gastronômica”.  

A Bahia, no Nordeste, e o Espírito Santo, no Sudeste, dividem a “patente de donos da melhor moqueca”. No entanto, para o capixaba Vanderlei Mozer, a variedade é positiva. Garçom há 29 anos do restaurante São Pedro, em Vitória, Mozer diz defender bem sua bandeira. “Todos aqui dizem que moqueca mesmo é a capixaba, o resto é peixada”, brinca. “Mas eles também fazem um prato muito bom, são apenas costumes diferentes. Para quem não é habituado a comer azeite de dendê e leite de côco, a moqueca baiana pode ser pesada, dar dor de barriga. Mas a rivalidade é sadia, não é uma crítica. É só uma forma de dizer que nosso peixe é o mais gostoso”, completa.

O uso do azeite de dendê e do leite de côco, típico em diversos pratos da culinária baiana, é o que diferencia a moqueca dos dois estados. Garçom há 23 anos do Ki-Mukeka, em Salvador, o baiano Ismael Oliveira diz que a preferência pelos produtos locais não se dá apenas entre seus conterrâneos. “A maioria dos turistas que vêm aqui são de São Paulo e Rio, e eles gostam muito. Quando eles chegam, pensam que nossa moqueca é igual a capixaba. A deles não leva azeite de dendê e leite de côco, e quando provam percebem que a nossa é mais gostosa”, defende. 

Observada sob o ponto de vista científico, a rivalidade gastronômica entre os dois estados é muito importante, defende o doutor em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Ericivaldo Veiga. “A moqueca se inclui na discussão antropológica sobre a cultura brasileira. O bate-boca é útil quando se pensa em identidades”, diz o sociólogo, que escreveu o artigo “A Essência do Sabor Brasileiro: Segredos da Bahia”.  O sincretismo religioso na Bahia, onde o catolicismose mistura ao candomblé, tem também na moqueca uma ponte de ligação. “A cozinha baiana de origem africana é um subsistema do sistema culinário baiano, que por sua vez é parte do brasileiro. Na mais importante celebração entre os católicos, a Paixão de Cristo, se observa no lugar do jejum um momento apoteótico nas mesas baianas, principalmente no Recôncavo e em Salvador, no qual a cozinha do azeite de dendê ou a cozinha ritual do candomblé formam a maior parte dos pratos, e as moquecas são certas”, completa.

A miscigenação do povo brasileiro e principalmente, do baiano, foi fundamental para “africanizar” o prato indígena, aponta o doutor em antropologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Ordep Serra. “Aqui a gente releu tudo. A cultura negra é muito dominante, seja no modo de cantar, dançar, entre outras coisas. Nós fomos civilizados pelos negros e o povo baiano é bastante misturado”, afirma Ordep.

Na briga entre baianos e capixabas pela preferência nacional, quem ganha são os brasileiros. E você, já provou uma moqueca?

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O humor brasileiro através dos tempos

Adnet, Marcius Melhem (ex-Zorra Total) e Oscar Freire (ex-CQC) - Imagem: Caiuá Franco/TV Globo
Rir e fazer rir são conceitos universais. Os métodos para tanto, porém, mudam a cada geração. O que fez nossos pais caírem na gargalhada há décadas pode causar repúdio em nossos filhos, por exemplo. Como o humor pode explicar as mudanças de comportamento no Brasil? O mundo está ficando mais “chato” ou os humoristas são mais exigidos?

O grande desafio dos humoristas na atualidade é fazer rir sem serem ofensivos. A nova geração do riso traz novos personagens ou antigos nomes de peso que precisaram se repaginar. Os alvos das piadas de ontem e hoje se inverteram. 

O novo “Zorra”, Marcelo Adnet e Porta dos Fundos são exemplos da nova geração que já não fazem rir através de trapalhadas ou do humor politicamente incorreto. Lá se vai todo um “legado” deixado por Os Trapalhões, TV Pirata, Escolinha do Professor Raimundo, Sergio Mallandro, Casseta e Planeta, Zorra Total, Jackass, Pânico na TV e CQC, sem falar de seriados consagrados. O humor nacional, que se distingue do humor de outros países e do humor regional*¹, surge quando os veículos de comunicação de massa aumentam sua área de cobertura, do Caburaí ao Chuí. Primeiro com o rádio e a televisão, posteriormente com canais de You Tube e páginas no Facebook. No momento, o humor brasileiro está na sua quarta fase.

1: Fase “Trapalhona”

Para fazer rir dos anos 60 aos 2000 era preciso demonstrar ser “bobão”. Não havia conteúdo político nas piadas, já que boa parte dos profissionais do riso surgiu no período da ditadura militar. A sentença “Você conhece Marta? Então parta” se eternizou e é repetida mesmo pelas gerações que nunca viram TV Pirata, como a minha. Já Renato Aragão (ex-Trapalhões), Chico Anysio (ex-Escolinha do Professor Raimundo) e Sérgio Mallandro tiveram que se reinventar para não cair no ostracismo.

2: Fase da “Flagelação e Erotismo”

O público cansou de cenas de “mentirinha”. A partir dos anos 2000, o humor se tornou apelativo. Para fazer o outro rir era preciso se dar realmente mal. O programa “Domingão do Faustão”, da Globo, já havia lançado uma semente na década anterior com as “Vídeo Cassetadas”, mas o formato do programa era “familiar”, o que impedia de levar a flagelação a participantes do próprio programa. Em contrapartida, seus concorrentes, que tampouco se dedicavam exclusivamente ao humor, passaram a lançar quadros recheados de flagelação e erotismo, como o “Programa H”, da Band, com Tiazinha arrancando suspiros e risadas a cada vez que depilava um homem, e a Feiticeira, apenas arrancando suspiros, além do “Domingo Legal” do SBT com a “Banheira do Gugu”, que provocava suspiros, risos e suspense. Se é questionável o fato de esses programas serem considerados de humor, o “Pânico na TV”, até então na Rede TV, se aproveitou dessas fórmulas e rompeu a barreira dos rótulos ao encaixar humor e erotismo no mesmo programa com ainda mais apelação. A falta de conteúdo nas piadas (ou tentativas de piada), porém, fez o formato se desgastar e com isso houve o declínio da fase 2 do humor brasileiro.

3: Fase do “Humor Político”

A semente já havia sido plantada com o Casseta & Planeta, nos anos 1990. Oriundo da fusão de duas publicações impressas, o programa das terças-feiras da Rede Globo fazia deboche dos poderosos, mas na mesma intensidade ironizava as minorias, o que em alguns quadros não o tornava muito diferente do Zorra Total*². 

O site do cartunista Maurício Ricardo, Charges.com.br, fortaleceu ainda mais a fase que viria a seguir, que trocaria flagelação e erotismo por conteúdo político. No entanto, o tempo de semeia da fase 3 foi mais longo do que o seu período em si. O CQC, da Band, consolidou a fase do “Humor Político” com sua incrível audiência nas noites de segunda-feira a partir de 2008, com um formato em que os integrantes do programa faziam denúncias reais sobre problemas estruturais nas cidades, além de se infiltrarem no Congresso e em eventos de celebridades. Tudo isso arrancando gargalhadas dos telespectadores.

Os brasileiros se sentiam vingados. O humor político fazia coisas que nem o jornalismo se atrevia. Mas sua fase não perdurou pelo mesmo motivo da fase 2: o formato se desgastou porque o mundo mudou e os humoristas em questão não souberam se adaptar às mudanças. No lugar disso, preferiram bater de frente com o público que outrora o consagrou. Danilo Gentili e Rafinha Bastos passaram a se destacar em shows de stand up comedy, mas foram longe demais no quesito “romper barreiras do humor” e feriram minorias que passaram a ter voz e não toleraram piadas politicamente incorretas.

4: Fase do Humor Politicamente Correto

Em seu artigo “Carta Aberta às Humoristas do Brasil”, o colunista do Papo de Homem, Alex Castro, defende que “Não existe piada inofensiva: se alguém gargalhou é porque alguém se deu mal”. No entanto, reforça que “A questão é: quem se dá mal nessa piada?”.

No lugar de piadas que ridicularizam mulheres, negros, portadores de necessidades especiais e homossexuais, a nova geração do humor passou a satirizar machistas, racistas, homofóbicos e poderosos. Roteiristas precisaram se reinventar e novas caras surgiram. O novo formato do Zorra, na Globo, tem auxílio da equipe do site de humor “Sensacionalista”*³. Também na “plim plim”, Adnet passou a fazer sátira da própria televisão no programa “Tá no Ar”, e até alfinetou eleitores de direita, algo impensado de se fazer na emissora décadas atrás. 

O canal de You Tube “Porta Dos Fundos” já satirizou igrejas, polícia, comportamentos preconceituosos, injustiças do mercado de trabalho e até anti-petistas que o ameaçaram de boicote. Nem toda a repaginada, no entanto, imunizou o canal de críticas dos setores que exigem humor politicamente correto.

Um eventual enfraquecimento desse formato pode se dar por conta da bipolaridade que se encontra a política do país. Alguns humoristas dessa quarta fase são acusados de serem partidaristas e defensores incondicionais de políticas de esquerda. Esse formato atual tem data de validade? O que viria depois? Rir e fazer rir já não é tão fácil como antes. Que bom. 


*¹ O humor baiano cresce cada vez mais, mas o tema da postagem é humor brasileiro, que atinge todo o país. Cada estado tem seus humoristas, que contam piadas que muitas vezes só podem ser compreendidas por seus conterrâneos.

*² O Zorra Total tem o formato da fase 1, mas surgiu em um período em que as outras fases já preparavam terreno para dominar a programação da TV, como a fase 2, com as Cassetadas do Faustão como precursor, e a fase 3, com o Casseta & Planeta como principal introdutor do humor com conteúdo político a nível nacional, já que a televisão unificava o país como publicações impressas e rádio jamais conseguiram.

*³ O “Sensacionalista” é o principal site de humor da história que não usou recursos de áudio-visual. Seu fortalecimento se deu através das redes sociais, especialmente o Facebook. Outras páginas viveram grandes momentos, mas não conseguiram se manter por um período tão longo no auge, como “Esse É Alguém” e “Bode Gaiato”. Canais de You Tube, por sua vez, não se configuram como site ou página. 

terça-feira, 19 de abril de 2016

Compromisso com os indígenas

Foto: Ueslei Marcelino, Reuters
As culturas indígenas têm mais aceitação popular do que as demandas dos povos indígenas. Restaurantes peruanos são um sucesso em todo o Chile. Muitos dos que desfrutam dos sabores oriundos da civilização Inca, no entanto, se vangloriam dos colonos que trouxeram “progresso” ao continente à custa de milhões de mortes de pessoas que já habitavam estas terras antes da chegada
dos europeus.

Dá a impressão que os países sul-americanos não tinham apenas sede de independência no Século XIX. Havia também necessidade de uma busca por identidade nacional. De se distinguir de suas ex-metrópoloes, afinal de contas, suas elites eram formadas basicamente por brancos tal como os habitantes da Península Ibérica. Talvez por isso a literatura brasileira desde muito cedo tentou incluir elementos não-portugueses, a exemplo da obra “O Guarani”, de José de Alencar.

Até os dias de hoje há captação de “recursos genuinamente brasileiros” em prol do que eu interpreto como “vaidade regionalista”. Dar visibilidade às manifestações culturais das minorias é muito importante, mas não ajuda a combater o racismo quando o intuito é apenas fazer uma elite se distinguir dos seus primos portugueses e espanhóis. Apropriou-se das culturas indígenas sem ajudar a fortalecer as demandas dos seus povos. 
Jogadores de rugby do Brasil - Foto: Gaspar Nóbrega

Quando o rugby brasileiro decide apelidar sua seleção de “Tupis” e confecciona seus uniformes com temas que remontam a esse povo, deveria também assumir um compromisso forte com sua comunidade. A federação desse esporte poderia se posicionar a favor das cotas raciais e angariar fundos para as populações de áreas interditadas pela Funai, que podem carecer de recursos. Isso seria o mínimo.

Se uma personalidade recebe cachê por campanhas publicitárias, nada mais justo que grupos vulneráveis sejam recompensados por cederem licença pela exposição de sua cultura.

No Chile o fenômeno não é diferente. A arte gráfica da Copa América 2015 era repleta de temas mapuches, grupo até hoje influente no sul do Chile e que inspirou a fundação do principal clube de futebol do país, o Colo Colo, nome de um líder da etnia. No entanto, os meios de comunicação do país pouco falam das demandas do povo originário mais resistente da América austral. Apenas o tumulto provocado por alguns dos seus manifestantes ganham notoriedade, e não as causas defendidas. A problematização acerca das hidrelétricas construídas no sul da região da Araucanía só ganha espaço em veículos alternativos ou na imprensa internacional.
Design com temas mapuches

Hoje completam 76 anos do Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, no México. A data comemorativa foi criada no Brasil três anos depois, em 1943, pelo então presidente Getúlio Vargas. O dia de hoje, a meu ver, não é de festa. Não é de publicar foto com figurino indigenista ou de apenas reconhecer a importância do aporte cultural ao país. Hoje é dia de discussão. É dia de perguntar aos indígenas o que eles querem. Esta postagem é uma reflexão minha sobre a data. Espero aportar mais às causas justas e discutir mais sobre o tema durante todo o ano.

*Eu usei o termo "indígena", e não "índio" durante toda a postagem porque é o termo mais politicamente correto aqui no Chile, onde moro há um ano e oito meses. "Índio" soa pejorativo. 

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Ouvir primeiro, falar depois

O primeiro passo para se reconstruir é admitir os privilégios. A hashtag #meuamigosecreto no Facebook trouxe uma série de denúncias de mulheres contra o machismo e mea culpa de homens. Assumir um compromisso público com a reconstrução está adequado para esse grande momento que vive a rede social desde ontem. Qualquer outro posicionamento é falta de empatia, principalmente vindo de um homem.

Não é coincidência que a maioria dos grandes artistas, filósofos e políticos da história são homens. As coisas não estão equilibradas, e enquanto não estiverem equilibradas homens devem se preocupar mais em ouvir do que em falar. Já falamos muito durante milênios, desde o advento da escrita. A cicuta tragada por Sócrates matou o filósofo, não suas ideias. Nicolau Copérnico e Galileu Galilei tiveram corpos queimados, mas seus legados estão intactos. Homens alcançaram a eternidade mesmo morrendo, mulheres foram impedidas de nascer para a filosofia e para as ciências. 

Mulheres são julgadas por saírem sozinhas até nos dias atuais, imagine então levar ideias para tão longe quando pessoas eram queimadas na fogueira por parecerem “estranhas”. Não é à toa que há pouquíssimas bandas com guitarristas, baixistas ou bateristas mulheres. Para muitos homens, inclusive muito próximos de mim, mulher não deve “chamar atenção”, imagine viajar por aí tocando em uma cidade diferente a cada dia.

Há um dito que diz que temos dois ouvidos e uma boca para que possamos ouvir mais do que falar. Em momentos como o atual, é hora de escutar o que elas dizem sem nenhuma vírgula de ponderação. “Ah, mas tem muita hipocrisia no que muitas dizem” ou “nem todo homem é assim”: essa não é a hora de ser corporativista, é hora de se informar melhor. Eu sei o quanto posso melhorar em diversos aspectos. Lutarei todos os dias para ser uma pessoa melhor, e durante essa caminhada não deixarei de estudar, ouvir e ler mais do que supor, falar e escrever sobre o que não sei. 

Obs: Feminismo não é o oposto de machismo. Leia mais (apenas dois links que achei numa busca rápida pelo Google. Há muito informação na internet, é só buscar):