sexta-feira, 8 de agosto de 2014

1 mês dos 7 a 1

Até hoje tenho pesadelos com os gols da Alemanha. Especificamente, o mais doloroso foi o terceiro, de Kroos, que me fez parar de assistir à peleja. Ou seria um baba? Não parece que foi ontem. Parece ter sido há mil anos, com imagens registradas em tom pastel, com o amarelo desbotado da Seleção ofuscado pela vibrante camisa rubro do adversário. Foi há um mês.

Durante esse tempo muita coisa aconteceu. Scolari já tem um emprego, a Globo se diz interessada em estudar uma mudança na fórmula do Brasileirão e o scratch canarinho já tem agenda para o restante do ano, com Dunga no comando. E pela primeira vez eu não sinto saudade do clima de Copa.

Foram momentos maravilhosos aqui no Brasil, é claro. Trabalhei muito, principalmente nos dias de jogos em Salvador, assisti à reedição da Copa anterior e vi de perto cinco dos seis gols desse jogão entre Espanha e Holanda. E eu achando que o maior mico daquele mundial seria os 5 a 1 sofridos pela defensora do título. Mas aquele 8 de julho transformou as músicas da Copa em trilha sonora de más recordações. Não adianta. Quando daqui a alguns anos as pessoas se perguntarem sobre o fato marcante do mundial sediado no Brasil, a lembrança dos 7 a 1 será o primeiro episódio citado.

Eu tenho muito orgulho de ser brasileiro por muitos motivos. Gosto dos sotaques da gente, o que prova que subvertemos a língua do colonizador com classe. Me admiro pela facilidade que os brasileiros têm em fazer amizade, o que não torna os brasileiros melhores ou piores que os outros povos, mas faz sentir-me em casa aqui. Sou fã da culinária e comida que trazem influências índígena, africana e europeia. E também tenho orgulho de ser brasileiro pelo futebol que se pratica aqui, e nunca tive vergonha disso. Sempre fui reverenciado em estádios de futebol que visitei e nos babas em que joguei na Europa por ser brasileiro. No estádio do Leyton Orient, ao revelar minha nacionalidade, os seguranças sorriram e vibraram. Será que depois dos 7 a 1 as coisas mudarão?   

domingo, 6 de julho de 2014

A publicidade que mata

Torcidas juntas em dia de Argentina x Bósnia, no Maracanã, no dia 15 de junho - Foto: Agência EFE 
Embora não sejam favoritos absolutos a chegarem na final da Copa do Mundo, no domingo da semana que vem (dia 13), Brasil e Argentina geram a expectativa de formar a final mais esperada (e temida) pelos torcedores da equipe anfitriã. Já ouvi quem disse que preferia Alemanha x Holanda ao clássico sul-americano, para "não correr o risco de ver os hermanos campeões em casa". Rivalidades futebolísticas à parte, que são naturais e não precisam de campanhas para serem ampliadas, a coisa está passando do limite, e eu temo por uma onda de xenofobia, que não é típica do brasileiro.

A jornalista irlandesa Helen Joyce, que trabalhou no Brasil como correspondente do The Economist por três anos e meio, disse que o brasileiro geralmente trata bem os estrangeiros, mas deixa a cortesia de lado com os próprios conterrâneos de regiões mais pobres, como o Nordeste (o que é tão lamentável quanto). Características sociais são mutáveis e a publicidade, a meu ver, tem atiçado os ânimos entre brasileiros e argentinos, não é de hoje.

Já houve briga entre torcedores dos países vizinhos em Belo Horizonte no mês passado, com direito a garrafadas. Felizmente ninguém se feriu com gravidade. 


O conteúdo publicitário é absorvido de maneira diferente por cada pessoa. A autocrítica varia de telespectador para telespectador, e não acho que os publicitários que idealizam campanhas como as da Skol podem ser eximidos de responsabilidade pela selvageria que acontece dos dois lados. Há muitos argentinos também sem autocrítica, que sozinhos, em pequenos grupos ou protegidos pelas suas barra bravas (espécie de Torcida Organizada nos países vizinhos), vão para o confronto, mas como não conheço tanto o que se passa por lá, me atenho ao que acontece na América Lusófona. Já houve até jornalista esportivo que "vibrou" quando policiais no Estádio Independência, também na capital mineira, bateram nos jogadores do Arenal Sarandí no ano passado.


Se a agressividade natural (misturada ao álcool) já pode colocar em perigo torcedores dos dois lados, as campanhas publicitárias pouco ajudam a pensar em cortesia com o adversário, semelhante a de David Luiz com o colombiano James Rodríguez. A Coca-Cola fez um comercial mostrando a amistosidade entre brasileiros e chilenos.


Mas a mesma marca de refrigerantes lançou durante a Copa América de 2011, na Argentina, um comercial em que um portenho se infiltra na torcida verde e amarela e corre risco de ser agredido ao gritar um gol de sua equipe. 


Nelson Mandela, antes de se tornar presidente da República da África do Sul, ficou preso por 27 anos durante o apartheid. Ao ser solto, muitos brancos, descendentes de europeus que foram a favor da manutenção do regime que segregava negros e brancos, esperavam vingança do novo líder nacional. O que não aconteceu. "Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar", disse Mandela.

Em tempos de tratar como "chatice politicamente correta" reflexões como essa, eu penso que humor deve trazer graça. E eu não vejo graça na manutenção de uma ideia que só gera ódio, aprecia a trapaça para se conseguir triunfo a qualquer custo, corre o risco de sair da brincadeira e ameaça ceifar vidas. Não é engraçado ler uma notícia sobre uma briga, que é fruto do bombardeiro de informações para potencializar uma rivalidade que por si só já seria uma ameaça. Divertido mesmo é ir ao estádio e voltar são e salvo, com vitória ou derrota.

Obs: Recomendo a leitura dos artigos "Contra o antiargentinismo" (clique no título, que tem link que leva para a página), de Fernando Faro, e "Carta aberta às humoristas do Brasil", de Alex Castro. Ambos os textos abordam o tema da minha postagem acima. Toda xenofobia deve ser combatida. Brasil e Argentina não têm razões históricas do patamar de Brasil e Paraguai, que foi tema da minha postagem "Guerra do Paraguai nos olhos dos outros é refresco...", em 5 e agosto do ano passado. Apesar do conflito, a rivalidade entre brasileiros e paraguaios não é difundida nos meios de comunicação (ainda bem).

sábado, 5 de julho de 2014

Jogadores-torcedores & torcedores-justiceiros

Jogadores fazem símbolo do "É Thois" para Neymar - Foto: Divulgação
O Brasil jogou nesta sexta-feira (4) um Futebol maiúsculo. Eu não poderia deixar o triunfo diante da Colômbia passar sem uma postagem no meu blog. Após o apito final, em meio a gritos e abraços pela classificação às semi, eu já sabia o título: “Me sinto menos torcedor do que os jogadores”. Me emocionei, mas não tanto quanto eles, aqueles caras supostamente “cheios de dinheiro que não estão nem aí para resultados, porque continuarão ricos, ao contrário dos torcedores, pois esses sim amam futebol”. Quando escuto discursos como esse, passo a questionar se os murmuradores apenas enxergam a felicidade por via das cifras. Afinal, se é tão difícil imaginar que David Luiz e Thiago Silva, mesmo bem sucedidos, sentem emoção, é porque provavelmente se no lugar deles estivessem, os murmuradores nada sentiriam. Eles, os “chorões”, são a prova de que há vida além do dinheiro, e o dinheiro não compra a emoção de vencer uma partida em seu país, mesmo aos trancos e barrancos.

Foto: Uarlen Valerio / O Tempo
Em uma semana triste, com desabamento de um viaduto que matou duas pessoas e deixou 22 feridas em Belo Horizonte, o luto é aceitável. Eu particularmente passei a refletir o quão displicentes foram os “responsáveis” por essa obra (e tantas outras) e como o “jogo de empurra” esconde os envolvidos, assim como as oito mortes de operários nos estádios do mundial de 2014 (uma em Brasília, uma em Cuiabá, três em São Paulo e três em Manaus). Uma proteção covarde, que não recuperaria as vidas ceifadas sob concreto, mas poderia levar outras tantas tragédias a serem evitadas. A negligência se garante sob a impunidade.

Em meio a toda essa turbulência envolvendo tragédia em Belo Horizonte, cidade em que a Seleção enfrenta a Alemanha nesta terça-feira (8), e fim de Copa para o maior expoente da equipe anfitriã, Neymar, foi inevitável sair do futebol para entrar em um assunto tão sério quanto: o sentimento de ódio e vingança dos brasileiros, especialmente nos últimos anos, que foi tema da minha postagem “Somos tão cordiais assim?”, de 30 de junho. Tão sério quanto, porque futebol para mim é sério e não pode ser apontado como responsável pelas mazelas do país. Por si só, isolado, desperta paixões, o que seria suficiente para respeitá-lo, afinal, não há sentido na vida em sociedade sem suas simbologias e rituais, que pedem licença a razão. “Qual a graça de 22 homens correndo atrás de uma bola?”, se perguntam até hoje alguns, sem obterem resposta. Mas o futebol também diz muito sobre o dia-a-dia e "abre brechas" para os sentimentos menos nobres aflorarem, sob a mesma desculpa dos linchamentos de que a emoção ofuscaria o caráter. Mas não ofusca: revela.

Ouvi a notícia de que Neymar estaria fora da Copa no rádio, enquanto dirigia, no caminho para o aniversário de um amigo. A incredulidade tomou conta de mim, como apenas em momentos especiais do esporte. Morte de Senna, eliminações da Copa, rebaixamentos do Bahia e ataque de padre irlandês ao maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima na Olimpíada de 2004, na Grécia. Naquele momento um sentimento de “justiceiro” ameaçou se apossar de mim. A vontade era de escrever logo uma postagem com um título que fosse, no mínimo, “Vai ficar barato dona Fifa?”. Mas respirei fundo. Sabia da responsabilidade de escrever com os nervos à flor da pele, especialmente para mim, jornalista. Estava desacostumado a torcer pela Seleção na Copa. Digo, “torcer pra valer”, já que havia feito cobertura dos últimos três jogos do Brasil na Fan Fest de Salvador e no Pelourinho. Não é a mesma coisa assistir a um jogo com o compromisso de ser ágil na cobertura, repercutir para os leitores do site em que trabalho a atmosfera das aglomerações. 

Infelizmente, na mesma proporção em que Neymar recebe mensagens de solidariedade de pessoas do mundo todo (inclusive minha), brasileiros hostilizam o lateral-direito da Colômbia, Zúñiga, que quebrou uma vértebra do camisa 10 canarinho. As mensagens são pesadíssimas e há até ameaça de morte a ele e sua filha. Não recomendo a leitura para quem não tem estômago forte. A onda de linchamentos no Brasil, provocado sob a desculpa de substituir segurança pública e a justiça, dão outra característica ao brasileiro, descrito como cordial por Sérgio Buarque de Holanda. 

O suposto desequilíbrio emocional dos jogadores nos primeiros jogos da Copa parecem se refletir nas postagens de torcedores que não respiram fundo ou não pensam duas vezes antes de agredir Zúñiga nas redes sociais. E se foi maldade ou não, se merece punição ou foi lance normal do jogo, pouco importa. Me preocupa mais a hostilidade. Essa sim merece ser observada, mais do que qualquer entrada violenta em Neymar nesta Copa.




Foto: Reuters

Obs: Acho que Zúñiga, que também entrou forte em Hulk, deveria pegar um gancho grande pela imprudência, assim como a arbitragem que deixou o jogo correr dessa forma. Recomendo a leitura do post "O NACIONALISMO NAZISTA DO FUTEBOL BRASILEIRO", de Ariane Ferreira. Ganhando ou perdendo para a Alemanha na terça-feira (8) ou na final no domingo (8), estou muito orgulhoso dessa Seleção. Os jogadores estão fazendo o que podem, mas o time não foi bem preparado, o Brasil não tem por tradição manter uma base para dar continuidade a um projeto longo e Scolari, a meu ver, não criou um repertório rico de jogadas. O time chegou às semi pelo talento individual dos jogadores e apoio da torcida.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Na ‘Copa das Copas’, só a Seleção não se diverte

Capitão Thiago Silva chora nos braços de Scolari - Foto: Ricardo Corrêa
Se atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu, em meio a Copa do Mundo de 2014 só não se diverte a equipe anfitriã. Com seus altos e baixos, os atletas e delegações dos outros 31 times já curtiram ou curtem muito a atmosfera da maior festa do futebol mundial, que acontece de quatro em quatro anos e, especialmente de 12 de junho a 13 de julho de 2014, tem o prestígio de ser recebida pela nação mais vitoriosa da história do torneio.

A “ousadia e alegria” deram lugar a “agressividade e medo”. Está certo que entre a esbórnia geralmente atribuída aos boleiros brasucas, que “não teriam amor à camisa e só querem saber de dinheiro”, e o “chororô” constante do hino nacional ao apito final, eu fico com a segunda opção. Me sinto mais representado como torcedor (não como jornalista). Mas não foi assim que a Seleção colecionou cinco estrelas*¹. Pelo contrário. Os momentos de maior fragilidade emocional foram atribuídos às derrotas mais marcantes, seja na apatia em 1950 e 1998 ou na agressividade exacerbada em 1954 e 1974. Roer unha, se descabelar e temer o pior são atribuições exclusivas de torcedores.

A emoção demonstrada pelos jogadores da Seleção Brasileira, a meu ver, é semelhante a dos estudantes que vão prestar vestibular conscientes de que não deram o melhor de si no cursinho. Ali, de frente para a prova, não resta mais nada a não ser concluí-la e torcer para que a preparação deficiente não culmine em reprovação. Os “CDFs” ao menos sabem que deram o melhor de si e, não é à toa, são maioria entre os aprovados nos cursos mais difíceis. 
Neymar chora antes de empate contra o México - Reprodução / TV Globo

O futebol brasileiro, historicamente, nunca teve planejamento. É vitorioso pela qualidade técnica dos jogadores e em alguns casos por inovações táticas (o que não se aplica ao time de Scolari)*². O medo de perder a Copa fez o comandante verde e amarelo pedir ajuda. Segundo o Terra, em plena Granja Comary, Scolari chamou cinco jornalistas*³ para pedir apoio contra o que ele acredita ser um “complô” contra sua equipe. Mas o certo é que a Seleção Brasileira não curte a atmosfera da Copa. Nem seu treinador, nem os jogadores e até mesmo o assessor de imprensa da CBF, Rodrigo Paiva, que agrediu o jogador chileno Pinilla no último sábado (28).
  
Até mesmo os jornalistas, alguns deles sofrendo tantas críticas quanto os jogadores brasileiros (e que segundo Neymar, precisam de terapia tanto quanto seus colegas), dividem o olhar entre a cobertura e o deslumbramento de fazerem parte da “Copa das Copas”. Muitos fãs do esporte esperam da imprensa uma postura de apoiadora do “scratch canarinho”, e se decepcionam com os artigos dos excelentes Mauro Cezar Pereira e Juca Kfouri. Ora bolas, o que se deve esperar de um bom jornalista é justamente o desvinculamento das instituições. Não existe “momento certo ou apropriado” para pontuar as falhas da Seleção. E justamente por isso os considero os melhores nessa Copa. Na postagem “Quero me orgulhar da equipe brasileira. Para isso Felipão e o time precisam fazer sua parte”, Mauro diz evitar proximidade com técnico e jogador porque acha melhor “manter distância e independência para não distorcer pelo constrangimento de criticar um ‘amigo’”. É a postura que acho mais apropriada a um profissional da área, diferente de Mário Sérgio, da Fox Sports, que já foi técnico e, corporativista, chegou a brigar no ar com o colega de emissora Rodrigo Bueno, quando este criticou a qualidade dos técnicos brasileiros.


A Seleção Brasileira parece carente de elogios, mesmo jogando em casa. Com tantos jogões e chuva de gols, os anfitriões se sentem deslocados. Xodó da torcida nos estádios, a Costa Rica sim parece ser a dona do pedaço. No lugar de corrigir as graves falhas da equipe em campo, porém, o emocional dos atletas virou a preocupação de Scolari, ou pelo menos sua desculpa. Nos diversos veículos que cobrem a Copa, o “chororô” virou tema até de entrevista com terapeutas. Freud explica?

*¹ Em 1958, na Suécia, os comandados de Vicente Feola foram orientados pelo psicólogo João Carvalhaes a sorrir, embora tenha contraindicado Pelé e Garrincha por imaturidade e inteligência abaixo da média, respectivamente. Em 1962, o triunfo veio com um show à parte de Garrincha. Diversos cronistas defendem que só dois jogadores ganharam a Copa pelos seus países: o anjo das pernas tortas, como já citado, e Maradona pela Argentina, em 1986. Em 1970, a turbulência que envolveu demissão de João Saldanha, regime militar e a suposta “cegueira de Pelé” não se refletiu dentro de campo, que teve inovação tática com a marcação por zona, diferente do que se via na equipe italiana, que fez a final contra o Brasil e marcava por zona. A descrença, também presente em 1994, se transformou em desabafo de Dunga ao levantar a taça e xingar a imprensa, que o teria perseguido (em sua opinião). Em 2002, ajudas de arbitragem aconteceram, mas foi o talento acima da média de uma equipe com Cafu, Roberto Carlos, Ronaldinho, Rivaldo e Ronaldo que garantiu nosso último título. Nas últimas três Copas, a defesa, que era ponto fraco dos brasileiros, tem se destacado. Nas últimas três Copas do mundo (2006, 2010 e 2014 até oitavas de final), o Brasil levou 9 gols em 14 jogos. Só na Copa de 1998, a defesa foi vazada 10 vezes em 7 jogos.

*² Esse time não surpreende, não tem jogadas ensaiadas, depende do talento de Neymar e tem um técnico teimoso. O título da Copa das Confederações pode ter sido ruim. Para o jogo deste sábado (5), Scolari ensaia mudanças, como jogar com três zagueiros e tirar centroavante. A saída de Luiz Gustavo, suspenso pelo segundo cartão amarelo na partida contra o Chile, e o mau desempenho de Fred e Jô forçaram o treinador a refletir e até a pedir ajuda de jornalistas na Granja Comary.

*³ Os jornalistas que conversaram com Scolari na Granja Comary, segundo o portal Terra, foram Juca Kfouri (Uol / Folha de S. Paulo / ESPN Brasil), Paulo Vinicius Coelho (Folha de S. Paulo / ESPN Brasil), Fernando Fernandes (TV Bandeirantes), Osvaldo Pascoal (Fox Sports / Rádio Globo) e Luiz Antonio Prósperi (O Estado de S. Paulo).

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Somos tão cordiais assim?

Brasileiros vaiam o hino do Chile no Mineirão - Foto: Correio do Brasil
A Copa do Mundo, momento de alegria para o país pentacampeão, também desnuda nossas facetas. Mostra que o "homem cordial", descrito pelo historiador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda em "Raízes do Brasil", não passa de... mito.

As agressões seguidas de justificativas mostram muito do caráter de quem vaiou a presidente da República, Dilma Rousseff, no jogo de abertura do mundial, 12 de junho, e o hino do Chile, no último sábado (28). Os dois atos hostis têm muito em comum, trazem carga de ódio e vingança semelhantes aos linchamentos recorrentes deste ano e fazem parte da cultura do brasileiro, com segurança pública reforçada ou não. É a "institucionalização" do "olho por olho, dente por dente".

Na minha opinião, a alarmante taxa de homicídios no país não se dá apenas pela falta de policiais nas ruas ou defasagem das escolas públicas. Mesmo amando meu país e mesmo amando ser brasileiro, tenho que reconhecer, e estou mais convicto disso cada vez mais, que a sociedade brasileira é essencialmente violenta.

Obras como "Casa-Grande & Senzala", de Gilberto Freyre, e "O Futebol Explica o Brasil", de Marcos Guterman, resgatam histórias que ajudam a contextualizar os dias de hoje, mas não abordam, por exemplo, o que leva um homem a tirar a vida de outro após discussão por temas fúteis, que vão de som alto a ciúme.

Na Espanha é comum pessoas discutirem no trânsito e se resolverem na porrada. É uma sociedade violenta também. Mas a escassez de armas de fogo na terra do agora rei Filipe Vl, certamente, já salvou muitas vidas. A combinação entre temperamento explosivo e pólvora no Brasil não poderia dar em outro resultado a não ser em uma altíssima taxa de homicídios por 100 mil habitantes, 27,4%, o que coloca o país na sétima posição em um ranking com 95 países e regiões elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.

A situação de miséria de boa parte da população não é a única justificativa para o alto índice de assassinatos a meu ver. Por dois motivos. Em primeiro, porque países como Egito e Marrocos, que têm enormes contrastes sociais, possuem taxas de homicídio de 0,2% no mesmo estudo, números muito inferiores aos 27,4% do Brasil e que deixam esses países do norte da África bem atrás no ranking. Em segundo, porque os assassinatos no país não têm como autores apenas pessoas em situação de risco, e isso pode ser conferido nos noticiários todos os dias.

O comportamento habitual do brasileiro, evidentemente, não é o único fator que explica os homicídios, mas explica a violência de outras formas, seja na hostilidade a opositores ou falta de habilidade em resolver problemas pequenos. De repente, o "jeitinho brasileiro" não é à prova de rixas partidárias e rivalidades futebolísticas. Não somos tão cordiais assim.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Com uma semana, a Copa de 2014 já é minha favorita de todos os tempos


Eu na Fan Fest - Roberto Viana / Bocão News
Quem faz um evento esportivo ser bom não são as construtoras, tampouco as promessas de legado do governo ou animação da torcida. Essa fórmula não deu certo há 8 anos na Alemanha. Estádios impecáveis, mobilidade urbana já existente antes de a bola rolar e um monte de gente apaixonada por futebol que lotou os estádios não conseguiram fazer a última Copa realizada na Europa ser boa. Tampouco esses quesitos devem ser desprezados. Como seria bom se o mundial realizado esse ano no Brasil trouxesse melhoras sociais para a população, pois isso é mais importante nas nossas vidas que o futebol. Essa Copa, nem qualquer outro evento, vale o que foi gasto, nem concedido com empréstimos para lá de "camaradas". Incrível que arrodeado por tanto caos, dentro de campo, os melhores jogadores do planeta conseguem desempenhar tão bem seu papel, mesmo em fim de temporada, no calor em que a maioria deles não estão acostumados.
Instagram: @lucasfranco1

Essa Copa do Mundo, que completou uma semana ontem, se tivesse terminado já seria a melhor que eu vi. E vou mais longe. Pelo conhecimento que tenho de futebol, fruto de pesquisas, leituras e vídeos, arriscaria dizer que, ao menos para mim, é minha favorita de todos os tempos. Talvez por estar vivendo de perto essa atmosfera, alternando jornadas de trabalho com a de telespectador e participante da festa in loco. Uma coisa é viajar para fora, de férias, e curtir como um turista, ou viajar para o exterior com a missão de levar informações para o seu país. Outra bem diferente é não ter sua rotina tão modificada, continuar trabalhando no mesmo local que antes, sem deixar de cobrir política e cidades e de lambuja ir ao Pelourinho entrevistar torcedores em uma animada festa holandesa, ou se acotovelar em uma zona mista para entrevistar jogadores que irão enfrentar a seleção do seu país na semana seguinte, como foi no amistoso entre Croácia e Austrália, em Pituaçu.

Para sempre vou lembrar da partida in loco que vi, Espanha - 1 x 5 - Holanda. Van Persie e Robben entraram para a história da Fonte Nova com seus gols. Que gols. Que festa linda nas arquibancadas, promovida principalmente pelos holandeses, todos de laranja. A festa começa na andada para o Dique e só termina quando você chega em casa e assiste aqueles gols na televisão, para confirmar que o que viveu não foi sonho: você esteve ali, por mais fantástico que possa parecer.

E o que falar das anedotas? Schweinsteiger e Neuer cantando e pulando com o hino do Bahia em Porto Seguro, ingleses dançando Lepo Lepo... Ao final do mundial um livro precisa ser lançado só com episódios como esses, que deram uma atmosfera a essa Copa diferente da que se estava acostumada a ter. Sem falar dos japoneses, que limpam os estádios antes de sair.

Até o momento, só quatro partidas não tiveram pelo menos dois gols. E gols lindos, como o do australiano Tim Cahill contra a Holanda, Oscar contra a Croácia, dos holandeses Robben e Van Persie contra a Espanha, do uruguaio Suárez contra a Inglaterra... A Seleção Brasileira não têm rendido tanto, mas a Copa em si, dentro de campo, é um sucesso. Mas vale ressaltar: principalmente pelos jogadores.

sábado, 8 de março de 2014

Careta, quem é você?

escrito por Theo Almeida


Lidar com julgamento alheio não é novidade para o bloco Filhos de Gandhy. Mas para quem já foi perseguido por questões sociais-raciais-religiosas, é um tanto quanto ridículo enfrentar esse falso moralismo. E esse julgamento na hora mais inoportuna possível. No carnaval você pode ser quem você quiser. Homem vira mulher e a vida segue após quarta-feira de cinzas.


1. Secretaria de Segurança Pública de Salvador proíbe temas e batuques africanos.

 Fonte: DVD A Bahia do Afoxé Filhos de Gandhy


De uns anos pra cá, eu vinha achando que o carnaval de Salvador não tinha mais nada a me oferecer. ...2011, 2012, 2013. Tudo parecia “mais do mesmo”. Resolvi fugir dos “lugares comuns” do carnaval para um jovem de classe média (camarotes open bar/all inclusive, blocos e tudo mais que custe acima de R$ 250,00/dia).

Sempre tive curiosidade de sair no Filhos de Gandhy. Juntou “fome” com “vontade de comer”.  Hoje estou realizado pela experiência que o bloco me proporcionou. Sem dúvida, esse foi um dos carnavais que mais curti, e gastei RELATIVAMENTE pouco.

Nunca vi um bloco igual. Pais carregando seus filhos no cangote, portadores de Síndrome de Down, cadeirantes, estrangeiros, homossexuais e heterossexuais. Um variado degradê de tons de pele, do preto ao branco. Eu sou essa bagunça harmoniosa. Saí no Filhos de Gandhy para me sentir mais baiano, para satisfazer o meu “complexo de povo”.

Identidade. Pertencimento.

Saí no Filhos de Gandhy também por ser trabalhador. Quero pertencer a esse bloco criado por estivadores do Porto de Salvador. Fiz colar por colar para pôr meus sentimentos e meu trabalho neles. Um certo velho barbudo teorizava que o valor advém do trabalho. Eu acredito nisso.

Aprendi no Filhos de Gandhy que ainda há carnaval sem abadá e coreografias ensaiadas. Se for para deixar o português de lado, que se dê preferência ao iorubá ao invés do inglês. Não só de “open bar” e “all inclusive” é feito o carnaval.

AJAYÔ!