domingo, 2 de novembro de 2008

Na última curva

Por 3 segundos o título da Fórmula 1 atravessa o oceano Atlântico

Apesar da grande 'torcida vermelha' (nas cores da Ferrari) presente em Interlagos, muitos brasileiros deixaram de ligar a tv neste Domingo na hora da corrida, sem esperanças que Felipe Massa pudesse nos dar o tão sonhado título, que esperamos há mais de 17 anos.
O treino do sábado ofereceu mais chances para nosso conterrâneo: na poli position, teria seu concorrente ao título na 4ª posição inicialmente. A previsão de chuva assustava a todos, porém, a Mclaren do britânico Lewis Hamilton parecia mais preparada para estas condições climáticas. O atraso para o início da corrida só fazia a expectativa aumentar, e a 1ª volta ja deixou dois pilotos fora da disputa: o brasileiro Nelsinho Piquet e o britânico David Coulthard (que fazia sua última corrida da carreira).
O carro do safety car entrou, esfriando o clima quente que o acidente proporcionara. Os pilotos então aproveitaram a primeira oportunidade que puderam para trocar seus pneus, pois ja não chovia, e os pesados pneus parachuva diminuíam o tempo em cada volta, que podem ser preciosos para ao longo da corrida (que estava no início) se diminuir distâncias e ultrapassar.
As estratégias pareciam ser parecidas, tanto que todos os pilotos da linha de frente fizeram 3 pit stops (em alguns deles, além de se colocar combustível, se trocou pneu). O tanque vazio para dar mais velocidade ao carro era a estratégia do pelotão de frente, e por vezes Felipe Massa, que começou em primeiro, perdia sua liderança na corrida, pois era um dos primeiros a iniciar as séries de paradas, mas logo depois, quando os demais paravam, ele retomava a 1ª colocação.
No meio da corrida, houve um breve momento em que Hamilton havia estado em 6º lugar, o que daria o título ao brasileiro, mas não seria este o momento de maior apreensão: a decisão estava guardada para o final, assim como na temporada passada. Mas desta vez, 'mais para o final ainda', pois se achávamos improvável uma temporada ser vencida nas últimas voltas, o que dizer da temporada 2008, vencida na última curva?

Hora H

O pódium até parecia previsível: Massa em primeiro, Alonso em 2º e Räikkönen em 3º (que com esse resultado passou Kubica no mundial de pilotos- o mundial de construtores ja havia sido conquistado pela Ferrari pela soma de seus pilotos, pois não se conta como pontos as trapalhadas de seus mecânicos). Hamilton se encontrava em 4º, Vettel em 5º e Kovalainen (parceiro de Hamilton, que fez o máximo para te proteger, em forçar ultrapassagem e segurando o ritmo de trás como pudia) em 6º. Mas és que uma ultrapassagem de Vettel e uma parada de Hamilton o deixaram sair do box em 6º! A menos de 4 voltas, tudo parecia indicar que Massa venceria o torneio. Mas na última curva, Hamilton ultrapassa Timo Glock, sagrando-se o campeão mais jovem da história da fórmula 1, aos 23 anos (quando os 4 primeiros colocados completaram a corrida, o título ainda não havia sido decidido, em questão de poucos segundos).

Resenha esportiva rica

Apesar do resultado, fico feliz de ter tanto o que escrever (por tantas histórias que aconteceram e nos pegaram de surpresa- pareceu obra de um grande escritor de suspense). Felipe Massa fez o dever de casa (literalmente, pois o Grande prêmio foi no Brasil), e nas corridas anteriores fora preujudicado pela própria equipe (embora nos seus discursos não guarde mágoa, o que mostra o seu caráter e corporativismo, importante para não desestabilizar uma equipe). Mesmo sendo o piloto que mais vencera e liderara voltas no ano, no dia da sua melhor corrida da carreira não conseguira o tão almejado título (ficara apenas 1 ponto atrás de Hamilton).
Para ser um grande vencedor, é preciso saber perder (pois todos estão sujeitos a serem derrotados), e Massa ja dera prova de que está preparado para todos os resultados (perder sem abaixar a cabeça e vencer uma corrida e esperar pelos últimos momentos a combinação de resultado que pode te favorecer).
Todos sabem que a maior estrela do espetáculo foi ele, o garoto humilde (não nas origens sócio-econômicas, e sim na personalidade), carismático, que tanto orgulhou o Brasil esse ano, e que tantas alegrias ainda dará a nossa nação.

Felipe Massa com o troféu do GP Brasil: o 2º de muitas corridas que ele ganhará aqui.

sábado, 1 de novembro de 2008

Mais uma goleada sofrida

Dessa vez o carrasco foi o Bragantino, que venceu por 4 a 0

Até antes da invasão da Terror Tricolor ao Fazendão (o CT do clube, em Itinga) quando o 1º turno havia acabado, o E.C. Bahia não havia perdido um jogo por mais de 3 gols de diferença, e apenas 3 vezes foi derrotado levando mais de 1 gol na partida (2 a 0 contra o Santo André, 4 a 1 contra o Juventude e 3 a 1 contra o Marília). Esta foi a regular campanha de um time que chegou a ficar em 5º lugar e ainda sonhava com o g-4.
O 1º jogo do 2º turno mostrou em números o choque dos jogadores quanto ao lamentável fato ocorrido no Fazendão: perdeu de virada de 5 a 1 para o Fortaleza, no apelidado 'mês do desgosto'. Após esta partida, Arturzinho saiu da equipe, sendo o 2º técnico a cair no tricolor (o 1º fora Paulo Comelli, demitido após a derrota para o Grêmio de Barueri- a única derrota do tricolor em casa no 1º turno).
Se os motivos da saída de ambos os técnicos são controvérsias (alega-se que Comelli criticava os jogadores fugindo da sua responsabilidade de comandante e Arturzinho entrou em atrito com a diretoria), pode-se dizer que a saída de Roberto Cavalo foi puramente técnica: em 9 partidas, apenas 10 pontos (contra os 4 pontos em 4 jogos de Comelli- embora com média pequena, era início de campeonato-, 25 pontos em 16 jogos de Artuzinho- o que dá uma média de aproximadamente 1,5 ponto por partida, sendo que Arturizinho só perdeu 3 jogos, arrancava muitos empates fora), e um time que dava sinais de declínio: 4 derrotas por mais de 2 gols de diferença, além de não ter conseguido ponto algum fora de casa e ter perdido em casa por 4 a 1.
Assim como nas estréias anteriores (Arturzinho venceu o Criciúma fora por 2 a 1 e Cavalo venceu o América dentro por 3 a 0), Ferdinando venceu, o Vila Nova por 2 a 1 e de virada no Jóia da princesa. Porém, nos 3 jogos seguintes (contando com o de hoje contra o Bragantino) fomos derrotados (3 a 0 para o Corinthians em casa, 3 a 1 contra o São Caetano fora e 4 a 0 contra o Bragantino fora). Uma mudança de treinador não deve alterar o desempenho da equipe que se encontra desanimada por outros fatores.

Éramos felizes e não sabíamos

Criticávamos Arturzinho, chamávamos de retranqueiro, sortudo e presepeiro. Mas que outra solução um time poderia buscar, se era limitado no setor de criação (daí, fazia-se um gol e tentava levar o resto da partida defendendo), com uma série B tão nivelada (a falta de ousadia era o mais ousado ato para se conseguir um resultado a ponto de colocar a equipe no topo da tabela) e jogadores que, embora demonstrassem raça, estavam desorientados em campo (por isso é tão importante um técnico que esteja em pé gritando na beira do campo)?
Esse time poderia ter subido sim, estava fazendo um percurso sofrível, mas diante das limitações, era satisfatório. Como o torcedor de um time de tradição é muito exigente, o fato de estar nivelado a outras equipes é motivo para crise, porém, a crise real se encontra hoje, e não pela ameaça do rebaixamento (que existe, mas há equipes em situações muito piores), mas sim pela humilhação de levar goleadas históricas para times que há menos de 10 anos respeitavam o Bahia a ponto de enxergá-lo como referência de grandeza no Brasil.
Para ano que vem, mais do que alterações na equipe atual: precisa-se buscar um pouco do Bahia do 1º turno de 2008, para, subindo os degraus chegarmos num patamar há muito tempo visto na história do poderoso tricolor.

O país do futebol também é apaixonado por corridas

Gloriosos na Fórmula 1, os brasileiros querem comemorar 1º título em casa

A morte de Ayrton Senna, em 1º de maio de 94, foi um dos momentos mais tristes da história do Brasil. O país tão acostumado a glórias na Fórmula 1 perdia o seu melhor piloto (para muitos o melhor do mundo de todos os tempos) e mal sabia do jejum que teria de encarar pela frente: de 7 de novembro de 93 (na Austrália, última vitória de Senna) a 30 de julho de 2000 (na Alemanha, a 1ª vitória da carreira de Rubens Barrichello), o Brasil ficara sem ouvir o mitológico 'tema da Vitória'*.
Há quase 2 décadas (desde 20 de outubro de 1991) não soltamos o grito de 'é campeão' na Fórmula 1 (a última vez foi com o próprio Senna, no Japão, com uma prova de antecedência).
Para um país glorioso na modalidade (o Brasil é o 2º maior vencedor de F1, com 8 títulos -perdendo apenas para o Reino Unido, com 12- conquistados por 3 pilotos diferentes: Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna- perdendo novamente apenas para os britânicos, que já tiveram 8 pilotos vencedores, e igualado com a Finlândia), esse tempo parece uma eternidade, mas não foi o suficiente para nos superarmos em alguns rankings.
Agüentamos ficar 13 anos sem vencer uma corrida em casa (de 1993 com Senna à 2006 com Massa), mas a chance de um ineditismo nos faz esquecer tanto tempo de jejum e sonhar com dias melhores: pela primeira vez podemos ganhar o título em casa! Interlagos vai ser palco de um dos momentos mais esperados do ano (aliás, de tantos anos). O título parece difícil (Felipe Massa está há 7 pontos do britânico-mais um motivo para torcer muito pela vitória do nosso conterrâneo- Lewis Hamilton, mas levando em conta os critérios de pontuação, com a 1ª colocação valendo 10 pontos, a 2ª valendo 8, um jogo de sorte pode trazer o título, que ano passado foi muito mais improvável, quando uma disputa que provavelmente envolvia Hamilton e Alonso foi vencida nos últimos instantes por Räikkönen).
Força Felipe Massa, no Domingo o Brasil todo está torcendo por você!


* Generico - Tema da Vitória

http://www.mp3tube.net/musics/Generico-Tema-da-Vitoria/40299/

Da esq. para a direita, os campeões brasileiros de F1: Emerson Fittipaldi (1972 e 74), Nelson Piquet (81, 83 e 87), Ayrton Senna (88, 90 e 91) e se Deus quiser, Domingo, Felipe Massa (2008).

Muita calma nessa hora

Quantas vezes você foi levado pela euforia de um movimento, sem parar para pensar ou se informar se era compatível com a sua ideologia? A corrente 'Barack Obama' vem ganhando a simpatia da maior parte do mundo, embora suas razões sejam mais por deméritos dos adversários do que pelos próprios méritos.
O antagonismo entre os partidos Democrata e Republicano se fazem presentes em aspectos como etnia e religião dos eleitores (os democratas tem um público mais ligado a minorias étnicas, judeus e católicos, enquanto os republicanos são mais ligados à brancos protestantes) e postura (os democratas se consideram modernos, enquanto os republicanos são conservadores). Apesar dessas tendências, já houveram fatos que fogem a regra, a exemplo do 1º presidente republicano dos Estados Unidos, Abraham Lincoln*, que por ser anti-escravista, gerou a fúria dos sulistas, que se separaram do norte do país formando os Estados Confederados da América, que em oposição aos Estados Unidos da América (industrializado que usava mão de obra assalariada), era agrário e escravista.
A União (como eram chamado os nortistas e até hoje é chamado o governo federal central, exemplo: 'Essa verba vem da União') venceram os confederados (sul), unificando a nação que abolira o trabalho escravo. Portanto, atribuir o conservadorismo republicano ao racismo é uma idéia equivocada. Não se pode confundir uma postura tradicional com opressão às minorias, cada um pode adotar a postura política que bem entender, embora ela não agrade a todos (no caso, os democratas agradam muito mais as minorias).

Questão racial

O racismo nos Estados Unidos tem forte ligação com o fim da guerra de Secessão (que fora solucionada por um republicano): no sul, grupos de veteranos dessa guerra civil, revoltados com a adequação de seu território a uma nova política imposta pelo sul, criaram movimentos racistas, sendo o mais famoso deles o Ku Klux Klan (famosos por vestirem roupas brancas e chapéus em formato de cone). Se a maioria dos adeptos destes tristes grupos são republicanos, não fora este que pregara tais condutas*² (embora grupos possam desvirtuar idéias, confundindo conservadorismo com rejeição aos emergentes, e dentro do partido republicano acredito que tenham pessoas que não pensem assim e lutam todos os dias para re-estabelecer a idéia original do partido).

Memórias dos partidos

George W. Bush certamente foi um dos piores presidentes da história dos EUA, e a análise feita sobre o desempenho do governo da maior potência do mundo é feita de acordo com suas relações com o exterior: fora negligente nos quesitos de defesa (há quem afirme a previsibilidade que se instalava sobre um atentado terrorista de grandes proporções pouco antes do 11 de setembro de 2001) e ataque (dois países foram invadidos, com seus objetivos frustrados: o custo dessas operações militares não compensam o controle político e econômico dessas áreas. Se John McCain fará um governo semelhante? Bom, não é o que ele demonstra transparecer, a começar pelo fato de que o atual candidato republicano evita ser visto ao lado de Bush*³.
O novo presidente da nação de 50 estados terá como grandes desafios dar um novo rumo a guerra do Iraque (se possível, retirar as tropas deste país asiático) e solucionar a crise (nem que para isso o estado arque com as consequências da irresponsabilidade da iniciativa privada), e nas palavras do escritor João Ubaldo Ribeiro: "Com crise ou sem crise, é burrice colonizada e hollywoodiana ficar apoiando candidatos democratas americanos, quando, para nós [brasileiros], os melhores são sempre e invariavelmente os americanos. Os democratas tendem a fortalecer barreiras protecionistas, cobrir a economia de subsídios e, em suma, procurar garantir american jobs, empregos americanos, em detrimento de economias frágeis ou dependentes. Nada contra, pois eles são americanos e têm que cuidar dos interesses deles mesmos da forma que acham certo, mas não é bom esquecer que foi Nixon, republicano, que iniciou a abertura para a China, por exemplo. E que as preocupações de governos democratas conosco, podem ter certeza, seriam basicamente meter o bedelho na administração dos nossos recursos naturais, principalmente a Amazônia, e nos pregar sermões santimoniais em todos os foros do mundo. Barack, enfim- e uso a expressão propositadamente- é bom para as negas dele, porque nem bom para as nossas negas ele é, não tem porque."

*Parte de sua história de vida [Lincoln]
*²O mesmo ocorre no Brasil quando muitos esquerdistas julgam partidos de oposição como vilões, embora o PSDB, por exemplo, como na própria sigla afirma (Partido Social democrata brasileiro), é social democrata, uma corrente que visou de início fundir conceitos positivos dos pólos socialista e capitalista (embora na prática não se confirmara, a exemplo do governo de Fernando Henrique). Nem todas as práticas correspondem aos manuais e ao seu formato de criação, o tempo muda as ideologias e as adequem aos novos tempos, embora se julgue tanto partidos pelo que se domina na mentalidade de uma minoria, tirando a crença de que excessões dentro do partido podem trazer idéias que fujam um pouco desse estereótipo (a exemplo da paulista Marta do PT, que pouco tem haver com a história, e que é uma das diversas ramificações ideológicas dentro de um partido dividido).
*³No Brasil, analisamos nossos presidentes muito mais pela questão interna (até porque não entramos em conflitos militares constantes com outras nações), já nos EUA, a análise é muito mais pelas ações americanas no exterior.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Amor incondicional

Escolhas futebolísticas revelam muito sobre o nosso perfil, e devem ser respeitadas

Qual o motivo para amar? Talvez, o tempo mostre provas de reciprocidade que podem fortalecer uma união (seja entre um casal, um funcionário e empresa, torcedor e time...), mas o amor nasce justamente sem tantas explicações. Simplesmente se ama, daí ser este sentimento incondicional (pelo menos enquanto dure, pois nem sempre é eterno).
Será que devemos julgar as pessoas pelos times pelos quais elas torcem? "É um absurdo um nordestino torcer pelo Flamengo, que nem sabe de sua existência"- afirma Juan Teixeira, torcedor do modesto Galícia, clube da 2ª divisão do campeonato baiano. Para ele, virar a folha* é um 'crime', e os nordestinos que torcem para times do sudeste são covardes pois, com medo de não ter de escolher um time mais vitorioso no futuro, optam pelos que dominam as grades de programação da tv.
Para o baiano Alan Rodrigues, torcedor do Vasco da Gama (do Rio de Janeiro), o time de coração é mais que o clube de futebol pelo qual torce, e sim parte importante do perfil de um brasileiro, goste de futebol ou não. "O futebol é uma manifestação cultural que no Brasil é tão digna quanto o folclore e carnaval, e a hereditariedade se faz presente, sendo o time um traço muitas vezes passado de pai para filho como o sobrenome, e como em toda cultura, há coisas que não se mudam em apenas uma geração", afirma.
É claro que a construção da dominância dos times do sudeste nos corações dos nordestinos foi um processo recente (por volta do século passado). A grande mídia, que sempre teve seu centro no Rio de Janeiro, foi responsável pela divulgação dos times cariocas, especialmente o Flamengo. Mas como toda cultura, concordemos ou não com suas manifestações, devemos respeitá-las, enxergar as opções desses torcedores como dignas, pois se tratando de futebol e buscando a razão, não haveria motivo para amar times de futebol, pois estes são comandados por administradores de secura na alma e frieza nos cálculos, enxergando cifras com as vitórias enquanto os fiéis fãs da equipe brigam entre si.
Uma dose de razão talvez possa ajudar a respeitarmos mais uns aos outros, ao invés de brigarmos sem motivo, com os nervos a flor da pele sem conseguir enxergar que estamos todos ligados pela mesma emoção: o futebol, embora possamos torcer para times diferentes que, não importando o motivo (se é que se tem um), fazem a Terra girar, sempre girando como um lançamento de 3 dedos com efeito.

*trocas de time

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Vitória-0 x 0-Flamengo

Uma das partidas mais esperados do ano em Salvador duraram mais de 90 minutos: do dia 26 até o término da partida, 29 (4ª feira) muitas histórias envolveram o embate de rubro-negros. Para começar com a venda de ingressos.

Nação Rubro-negra

Goste ou não goste, todos devem respeitar a paixão dos flamenguistas pelo seu time. Independente de como este sentimento foi manipulado pela poderosa mídia carioca ao longo de tantos anos, certamente de nada adiantaria investimentos baseados em teorias se a emoção não falasse mais alto para tantas pessoas que buscam tanto apoiar o clube. Na 2ª feira, o aeroporto de Salvador estava lotado de torcedores que recepcionaram seus ídolos, e a cena se repetiu no CT do Bahia, em Itinga, quando mais de 150 torcedores invadiram o campo no treino para recepcionaram calorosamente seus jogadores. Se faltou segurança para conter tais atos que devem ser coibidos afim de manter maior conforto para os atletas, algo jamais faltará para o time da Gávea: a certeza de que sempre terá quem te apoiar, seja na terra ou no mar, onde estiveres estarás uma nação cantando para todo mundo ver, que estes gostam de você*.

Fila de ingressos

Caravanas vindas de dezenas de interiores da Bahia e de estados próximos chegaram logo no começo da semana para garantir seu ingresso. O Shopping Capemi, onde fica a loja do Vitória (e a do Bahia também, no outro extremo do estabelecimento), estava com uma fila que percorria toda a sua parte coberta, indo parar além da fachada da loja do Esporte Clube Bahia, que vazia, podia-se ver uma vendedora assustada com tamanho fenômeno. Todos os pontos de venda do jogo estavam lotados, inclusive uma loja de cartuchos para impressora, que teve de fechar as portas para não encher demais sua lotação. Um motoboy foi responsável por entregar o ingresso nesse estabelecimento em que eu comprei meu ingresso, e embora a venda tenha sido rápida, a fila quase invadia a avenida!

Rumando para o Barradão

O jogo foi 8:50 horário de Salvador (fora transmitido para o resto do Brasil, que estava no horário de verão, uma hora adiantada). Sair de casa pouco depois do pôr do sol poderia ser uma idéia absurda pela antecedência, mas para essa partida, pareceu um absurdo pelo atraso: a avenida Paralela estava congestionada numa soma de hora de pico + o 2º jogo de maior público no Barradão (perdendo apenas para o 2º dos 3 jogos das semifinais do brasileirão de 99, quando o Vitória ganhou de 2 a 1 do Atlético Mineiro, num Domingo*²). Achar estacionamento foi difícil, passar pelas multidões também, mas felizmente nos portões de acesso não havia grandes filas. Achar lugar na torcida do Flamengo com mais 2 amigos foi difícil, inclusive em diversos momentos me pediram para ficar em outro lugar, alegando que eu estava na frente. Quando encontrei um lugar onde pude ficar em pé sem incomodar, fiquei por uns 10 minutos, até todos sentarem e eu perceber que no mesmo espaço em que eu teria de sentar havia outra pessoa, ou seja, eu tive que sair dali, porque a pessoa em questão não era minha mãe ou namorada para que eu pudesse permitir que sentasse no meu colo.

A festa

Sotaques caipiras tomavam conta das arquibancadas do time carioca (o Flamengo tem enorme torcida nos interiores da Bahia, e diversas caravanas dessas cidades rumaram a capital), e do outro lado, a torcida do Vitória gritava 'éu éu éu vai pra casa Tabarél!'. Momentos marcantes aconteceram não só na partida, como nas arquibancadas: um grupo de torcedores do Bahia estendeu a bandeira do tricolor na área restrita a torcida do Flamengo. Parte da torcida do Fla vibrou, outras reprovaram tal atitude, e o saldo foi uma bandeira apreendida por policiais, que pareciam justificar essa ação como prevenção a violência que poderia ocorrer com essa provocação. A torcida do Vitória fez uma faixa escrita 'vergonha do nordeste', com uma seta apontado para a torcida do Flamengo, desrespeitando o amor desses torcedores ao seu clube, que independente de não ser de sua região, não deixa de ser amor, e incondicional (já que não há limites geográficos que condicionem alguém a torcer por um time). Outro momento interessante, não noticiado na mídia: durante o jogo, após uma bola parar na seção de cadeiras da torcida do Vitória, um torcedor agarrou-a e não queria devolver. Um torcedor que estava próximo furioso mandou este entregar a bola de volta para os gandulas, e teve-se que abrir uma porta de acesso ao gramado para os gandulas a recuperarem na força.

O imprevisível

Assim como no jogo contra o Coritiba, os refletores (que funcionam por gerador) apagaram, interrompendo a partida (dessa vez, no início, e apenas os 2 refletores voltados para a parte dos campos de treinamento). Durante o 'apagão', li um pouco do jornal entregue na entrada do estádio, 'Refletor', para logo ouvir um trocadilho sensacional de minha amiga: 'o nome do jornal é refletor? Então acabaram com a entrega'. Os torcedores do Flamengo, além de atentos a partida de seu time (que perderam muitas oportunidades, embora houvera um pênalti não marcado), acompanhavam com atenção a partida entre Botafogo x São Paulo (secando o vice líder São Paulo, que venceu fora de casa) e Cruzeiro x Grêmio (em que os mineiros venceram por 3 a 0 e deixaram os gaúchos com o mesmo número de pontos do São Paulo, embora a equipe dos Pampas tenha mais vitórias e por isso continue na liderança). O duelo sem gols não pode resumir o quanto foi interessante esse duelo, que envolveu mais que 90 minutos, além de filas, apertos, confusões e apagão, embora, como todos saibam, o mais importante no futebol é gol.

* 'a certeza de que sempre terá quem te apoiar (parte de uma das músicas da torcida), seja na terra ou no mar( parte do hino), onde estiveres estarás uma nação cantando para todo mundo ver, que estes gostam de você (parte de outra música da torcida)

*² Imagine se esse jogo do Flamengo caísse num fim de semana?

O aperto era tão grande que não deu para conseguir tirar boas fotos. Nesta, parte da torcida do Flamengo que tomou parte das arquibancadas do limite das cadeiras até um dos gols (assim como são feitas as divisões de torcida em BaVi). O Flamengo foi o responsável pelo 2º maior público da história do Barradão. Abaixo um vídeo.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Do pedestal ào banco de reservas

Maradona saí da posição de mito para se tornar técnico da seleção argentina

O que podemos definir como imortalidade? Com a improbabilidade biológica de ter uma vida eterna, lutamos para sermos lembrados, embora nosso corpo esteja ausente do mundo material. Para ser imortal, é preciso deixar um legado, um feito notável na Terra, e enquanto no mínimo uma pessoa lembrar deste, a memória de uma pessoa estará preservada.
Levando-se em conta esse conceito de imortalidade, a única maneira de 'matar' Maradona é exterminar toda a raça humana, pois suas histórias sempre serão contadas de pai para filho, e este já alcançou o hall dos inesquecíveis, assim como Júlio César, Cleópatra, Jesus Cristo, Cristovão Colombo, Charles Darwin, Isaac Newton, Adolf Hitler, Elvis Presley... Para o bem ou para o mal, o 'anjo-demônio' argentino quebra todo o maniqueísmo de céu e inferno, sendo o responsável por dar tantas alegrias ao seu oprimido continente americano, fazendo crianças de Cuba ao Chile se espelharem nele para se tornarem um herói tão digno quanto. Não há lugar onde Maradona seja louvado mais que na Argentina, onde este alcançou o patamar de Deus, sendo sua igreja freqüentada por fãs de futebol que o enxergam como divino.

Até apresentador de tv Maradona ja foi. Na estréia de 'La noche del 10', o entrevistado foi Pelé. Xuxa também passou pelo programa, que aqui no Brasil era retransmitido pela Sportv.

Inesquecível partida contra os ingleses

Há controvérsias quanto ao seu caráter: na Inglaterra, por exemplo, seu nome virou sinônimo de trapaça, após a partida em que o craque portenho fez um gol com a mão, segundo ele, 'a mão de Deus'. Porém, esse gol não foi nada mais que um reflexo entre as tensões destes países há muito tempo: num amistoso em Buenos Aires em 1951, os ingleses alegaram sua derrota por 2 motivos que constrangeram os sul-americanos: o fato de terem mandado um time amador e de terem sido prejudicados pela arbitragem, que reverteram uma cobrança de lateral favorável aos britânicos. Tal motivo iniciou uma inimizade histórica. Na copa de 66, na Inglaterra, o capitão da seleção argentina, Antonio Rattín, fora expulso após pedir para o árbitro um intérprete que pudesse traduzir algo. O juiz da partida, que era alemão, não entendeu o que um argentino falando espanhol queria, e o expulsou. A partida demorou 10 minutos para re-começar, quando uma escolta policial o tirou de campo (Rattín chegou a amassar uma bandeira do Reino Unido e fazer gestos de marmelada para a torcida). O técnico da seleção inglesa, Alf Ramsey, chamou os argentinos de animais, enquanto os argentinos viam os ingleses como trapaceiros que queriam a qualquer custo vencer a copa (inclusive um árbitro alemão apitando a partida entre Inglaterra x Argentina e um árbitro inglês apitando Alemanha x Uruguai, prejudicando os sul-americanos e colocando estes dois países europeus na final desse ano).
Em 1982, as ilhas Falkland (também chamadas de Malvinas), pertencentes ao Reino Unido (embora sejam muito próximas da Argentina) foram 'invadidas' pelos argentinos, logo, os ingleses mandaram tropas de veteranos dispostos a trucidar as jovens tropas argentinas (formadas por garotos iniciantes). O resultado dessa guerra: muitas mortes (especialmente de jovens argentinos) e a ilha recuperada pelos ingleses.
O rancor imperava nos corações portenhos, quando estes enfrentaram advinha quem nas quartas de final da copa de 86? Foi aí que Maradona mostrou na partida um reflexo fiel do sentimento nacional ao fazer o gol mais bonito da história das copas e um gol com a mão (que fora mais celebrado por descontar injustiças ocorridas no passado).

Construindo uma nova história, que pode não ser imortal

Sair de um pedestal e encarar uma 'vida de mortal', sendo técnico de futebol (o que pode o levar a receber críticas e xingamentos inevitáveis, que na condição de ídolo não recebia) é um ato de coragem, ao mesmo tempo que mostra como nós, seres humanos, somos apegados a símbolos: o fato de colocar um ex-jogador glorioso no comando de uma equipe nem de longe é garantia de sucesso, e abusar desse folclore acaba excluindo treinadores que, embora não tenham tantas histórias imortais, poderiam fazer um trabalho muito melhor.
Interessante também é saber a hora de parar: Junior, um dos grandes ícones da seleção brasileira de 82, em 2003 treinou o Corinthians. Duas derrotas por 3 a 0 (contra São Paulo e São Caetano) foram o suficiente para este largar para sempre a carreira de técnico e se poupar de crítica que poderiam fazer o público em geral esquecer toda a sua gloriosa história no futebol.
As pessoas só são canonizadas virando santas após sua morte porque só com o fim da vida se pode ter certeza que esta não possa fazer nenhuma grande besteira que tire sua credibilidade (a única forma de se tirar essa credibilidade após a morte são registros antigos que mostrem sua maldade que não fora vista em vida).
Se mexer com drogas não 'queimou' tanto seu filme com seus conterrâneos, certamente um trabalho ruim na seleção pode mudar o comportamento dos argentinos com o seu grande ídolo. Assim como fui contra Dunga estar no comando da seleção, sou contra qualquer 'atitude folclórica' como a de colocar ídolo no comando da seleção. Está certo que alguns deram certo, como Franz Beckenbauer, mas prefiro não correr esse risco e deixar os imortais no seu espaço, pois quem quer virar herói ainda não se imortalizou.

Da esq. para a direita, de cima para baixo: gol de mão contra a Inglaterra, jogando Show Ball (esporte remanescente do futebol assim como futsal e beach soccer e geralmente jogado por ex-jogadores dos gramados), torcendo para seu time de coração, o Boca Juniors, e altar da sua igreja, em Rosário.